sexta-feira, agosto 03, 2012


SOBRE LEITURA E BIBLIOTECAS

                                    Prof. Alan Oliveira Machado

Entre outras coisas, o ser humano desenvolveu a escrita porque um dia teve necessidade de preservar sua memória, de forma que pudesse consultá-la a qualquer momento. Isso permitiu a ele transmitir suas experiências e conhecimentos às gerações posteriores. A partir do momento em que começou a acumular conhecimento e a utilizar esse saber acumulado, a humanidade tornou-se dominante no planeta e toda a sofisticação tecnológica de que dispomos hoje é fruto do uso crítico desse conhecimento guardado.
 Atualmente, há várias formas de armazenar o conhecimento: livros, CDs, fitas, softwares, pen drives, chips etc. Todas essas modalidades de suportes, de certo modo, podem ser encontradas em bibliotecas. Dentre elas, sabemos que o livro é a mais tradicional forma de preservar o conhecimento. Embora o livro seja a forma que concentra maior simbologia, todos os outros recursos trazem um ponto em comum com o livro: eles são materiais de leitura, repositórios de linguagem. A linguagem e a leitura então são os elementos mais importantes de todo esse processo. Nenhum desses instrumentos faz sentido sem linguagem e leitura. Afinal eles não são apenas depósitos de informação e sabedoria, são instrumentos que devem ser utilizados num processo de interlocução que vise dar condições ao usuário de interagir com o mundo de forma a transformá-lo, a protegê-lo, a torná-lo melhor.
A biblioteca então é esse espaço sagrado que permite ao ser humano o acesso a sua história, a sua linguagem, a seu fazer e a seu saber. O acesso a esse universo é fundamental para a compreensão do próprio homem e do meio em que vive. Assim, ler é um exercício de descoberta do mundo. Por meio da leitura o ser humano se desentorpece, abre-se para o mundo e passa a vê-lo de forma mais sensível, mais crítica. A partir da leitura, ele pode avaliar melhor suas ações cotidianas e a si mesmo, já que, em grande medida, é constituído pela linguagem, por aquilo que lê. Isso quer dizer que, em certo grau, deixamos de ser aquilo que não lemos.
No mundo atual, onde predominam a informação rápida e a alta tecnologia, é inconcebível ainda haver pessoas que não consigam se situar no universo da linguagem, que não saibam ler ou que não gostem de ler. Essas pessoas, à medida que estão afastadas da leitura, do conhecimento, tornam-se reféns do meio social e reagem inconscientemente a essa condição de forma equivocada, às cegas, provocando situações que ajudam a atrapalhar o bom desenvolvimento da sociedade como um todo. Inaptas para fazer uma leitura de mundo, crítica e eficaz, elas seguem como bois dependentes das rédeas, a maioria das vezes opressivas, do meio em que vivem.
Paulo Freire nos ensina que "a leitura de mundo precede a leitura da palavra" e aqui precisamos acrescentar que a leitura da palavra atualiza a leitura de mundo, tornando-a critica e renovadora. Ler, portanto, é um gesto revolucionário que garante ao leitor o acesso ao plural mundo da linguagem, à diversidade da realidade e por isso mesmo amplia as possibilidades de escolha do leitor, sua liberdade de decisão, enfim, sua cidadania.
A biblioteca deveria ser um bem fundamental, imprescindível em municípios, cidades, escolas, casas de família, clubes etc. O conhecimento nos humaniza. Em consequência disso, nos autodenominamos homo sapiens, ou seja, o homem do saber. Essa consciência básica, do que somos e de quem somos, nos leva a inferir que onde não há bibliotecas há desigualdades, há processos de desumanização, há pouco desenvolvimento, pouco senso crítico, pouca sensibilidade estética etc. E a superação desses problemas é inseparável do acesso aos livros e demais suportes de linguagem e de conhecimento.

domingo, julho 22, 2012

QUANDO A INTENÇÃO É SÓ DOUTRINAR

            Na atividade de analista de discurso, aprende-se a lidar tanto com o silenciado quanto com o dito. Ocorre que toda materialização de linguagem se dá por meio de escolhas, conscientes ou não, e essas escolhas silenciam outras possibilidades do dizer que insistem em rondá-lo (nem sempre em boa hora) de tal forma que o sentido do dito tem sua constituição fundada nessa relação entre o que se disse e o que se calou. Todo esse jogo faz muitos sentidos circularem, mas os usos que se fazem deles nem sempre correspondem ao contexto imediato no qual circulam.
            Outro dia presenciei um professor de história advertindo um seu interlocutor, de forma inadequada, sobre o uso do termo “denegrir”. O uso do termo “denegrir” utilizado na discussão pelo interlocutor não estava referencialmente sendo tomado no sentido racista com o qual foi muitas vezes empregado no séc. XIX. O alerta do professor de história é que forçava essa interferência, forçava essa relação com a memória.
            A palavra denegrir, originada da raiz latina niger que significa “negro”, foi difundida dentro da mentalidade escravocrata que, para justificar a escravidão, classificava os negros escravizados como animais, sujos e degenerados. Assim, denegrir, que etimologicamente significa sujar, manchar até ficar com cor escura, negra, sem qualquer tintura racial, naquela época (institucionalmente escravista), ganhou uma oportunista conotação étnica e passou a ter o significado de tratar alguém como se fosse negro, ou seja, “sujo, degenerado, animalizado”. Isso quer dizer que a palavra tem esse lastro na memória, mas quer dizer também que a memória traz consigo as condições de produção do sentido da palavra para a época e que na atualidade essa memória não cabe em qualquer contexto. Há inclusive quem conteste a conotação racista do lexema “denegrir”. O escritor Eduardo Martins, por exemplo, ao defender que nem todas as expressões se referem ao negro como etnia, diz que a palavra denegrir surgiu no século XV, portanto, antes da escravidão no Brasil. A informação é correta, embora não sirva aqui como argumento.
            Em Semântica, disciplina ainda ligada à visão imanentista da linguagem, o que aconteceu com tal vocábulo seria chamado de mutação semântica diacrônica, isto é, quando a palavra muda de sentido com o passar do tempo, chegando a um novo momento histórico com uso e sentido distintos do original. Foi o que aconteceu com o termo “amante” que até início do século XX referia-se positivamente a alguém que ama e hoje se refere a alguém que participa de uma relação adúltera.
            Assim como o uso do termo "amante" não permite atualmente entendê-lo como "aquele que ama", sob pena de se criar sérias indisposições sociais, o mesmo pode-se pensar sobre "denegrir" quando rotulado como termo racista. Por essas e outras razões deve-se fazer uso cuidadoso das palavras, mas não necessariamente condená-las com base em seu passado infeliz, ainda que verdadeiro. Do contrário, teríamos que abandonar grande parte do vocabulário em uso na atualidade. Vejamos, a título de exemplo, o étimo de algumas palavras bem populares: trabalho, do Latim, tri paliu, ou seja, três paus, castigo imposto pelas tropas romanas aos exércitos derrotados, que consistia em fazer os membros desses exércitos rastejarem sob um estrado feito com sequências de três lanças romanas. Dócil, doçura, do Latim, docere, aquele que se deixa submeter, qualidade de quem é submisso. Cretino, proveniente de um dialeto franco-provençal dos Alpes Suícos, cretin, referente a cristão, pessoa aparvalhada, de raciocínio lento, tola. O sentido se deve ao fato de os vários cristãos fugidos de regiões com baixa taxa de iodo no sal terem desenvolvido uma espécie de tireoidismo que os deixava com aparência de tolos, tontos... Agora, raciocinem comigo: faz sentido apelar para a origem dessas palavras como forma de repreender seu uso, taxando-o de preconceituoso etc., etc., etc.?
            Se em termos de linguagem não faz sentido esse tipo de perseguição a palavras, seria essa uma prática fundamentalmente ideológica? Seria uma muleta de discussão com a finalidade de exercer controle sobre os outros? Seria uma forma de criar argumentos para rotular adversários? Se for é ridículo, é coisa realmente de quem não tem argumento, de quem não tem interesse algum em enriquecer a discussão, mas tão somente dominar o adversário.
            A esse respeito, lembro-me de que, outro dia, estando presente ao lançamento da biografia de um advogado ilustre, por mim revisada, um professor chegou a dizer que eu, como um dos revisores, deveria ter corrigido a expressão “anos negros da ditadura”, constante no tal livro, porque o vocábulo, “negros”, fazia referência pejorativa a cor. Tem dissimulação de ignorância mais estranha do que essa? Todo mundo sabe que a expressão, “negro”, no sentido de cor, tem histórico negativo milenar. Está lá nos bestiários medievais, nos textos pré-socráticos, nos textos de origem persa, egípcios, chineses e indianos. Assim, o termo está apropriado ao contexto em que foi posto. Não fere a ninguém além dos ditadores. Estou vendo a hora de esse pessoal começar a discriminar pessoas que botam luto pela morte de algum ente querido por estarem associando a cor preta à morte, à tristeza e à dor. Ainda bem que a língua não se submete facilmente a esses delírios de milícia.
            Simbolicamente, vê-se que a expressão, “negro”, foi utilizada em “anos negros da ditadura” com o mesmo sentido que a cor aparece no "luto" acima referido, ou seja, com sentido de tristeza, dor e perda. Mais que isso, como ausência de luz, contrário ao dia, levando-se em conta o dia como sinônimo de vida, uma vez que o sol é responsável pela progressão e sustentação do ciclo vital. Esse uso insinua que a vida foi podada no período militar, que aquele período foi de tristes perdas. A simbologia, embora tendenciosa, é coerente. Seu uso se deveu à necessidade de marcar um posicionamento ideológico com relação às práticas do regime militar. E esse uso é visceralmente humano. Agora, despropositado é querer fazer hegemonia discursiva, “patrulha ideológica” com esse tipo de argumento. Banalizar o sentido do que se diz com cerceamentos ideológicos é querer instituir a incapacidade de pensar. Se a intenção for mais discutir do que doutrinar, é melhor procurar entender a expressão dentro do contexto em que foi usada.
            O lamentável de tudo isso é ver que há pessoas que caem irrefletidamente nessas armadilhas retórico-doutrinárias. Sob a faceta do politicamente correto certas pessoas se põem a restringir impropriamente os usos na língua com intenções menos educativas do que doutrinárias e assim procedem rotulando de forma negativa qualquer pessoa que faça uso de expressões que, do raso de seus entendimentos, são condenadas como impróprias.  Foi triste ver o pobre interlocutor do professor de história desamparado, sentindo-se (ironicamente) a ovelha negra do rebanho, achando que cometeu um pecado terrível, pedindo desculpas e lamentando o seu infortúnio.

Prof. Alan Oliveira Machado


terça-feira, maio 15, 2012

UM QUINTO, DOIS QUINTOS E O MESMO INFERNO



                                      Professor Alan Oliveira Machado

É mais que comum dentro do processo de movimentação das línguas vivas o enunciado em dado momento perder a enunciação. Em decorrência disso, o enunciado sobrevive à medida que em torno dele se forma outra enunciação cujos sentidos possíveis  nem sempre têm a ver com os outrora a ele atribuídos. Os ditos populares constituem um campo fértil  para a observação desse fenômeno. Tomemos como exemplo o dito  “feito nas coxas”. Esse dito, segundo o escritor e etimologista Deonísio da Silva, vem dos tempos do Brasil colônia, época em que as telhas eram modeladas tendo como suporte a coxa dos escravos. Como havia escravos com tamanhos e larguras distintas de coxas, as telhas e os telhados ficavam tortos e irregulares. Mais a frente, com o surgimento das telhas moldadas em fôrmas de tamanho único, as telhas feitas nas coxas e os telhados feitos com elas passaram a ser considerados coisas ruins, sem qualidade. Hoje, a expressão “feito nas coxas” cabe sem problemas em contextos situacionais que a evocam com o sentido de coisa ruim, mal acabada e mal feita.
Pois bem, o que me fez refletir sobre essa questão foi o fato de ter lido, no último número da revista Cotoxó, periódico cultural de Jequié-Ba, um pequeno texto que, a pretexto de falar da tradição brasileira de manter o valor dos impostos sempre nas nuvens, acabava historiando sobre uma expressão ainda muito popular em nosso cotidiano, qual seja: “quintos do inferno”.  Diz o texto que a expressão remonta aos tempos do Brasil colônia quando o governo português taxava as riquezas exploradas nas terras tupiniquins com um imposto que consumia um quinto de tudo que se extraia ou produzia. Segundo o autor do texto, já indignados com a extorsão do império lusitano, os grandes proprietários brasileiros passaram a se referir ao imposto como o “um quinto dos infernos”. A revolta com o tal “um quinto” foi tanta que a certa altura, num episódio conhecido como “Derrama”, fez irromper a Inconfidência Mineira. Ao que parece, o “um quinto” era um inferno na vida daqueles brasileiros, era uma coisa do cão, era o quinto dos infernos.
Mas a curiosidade que conduziu meu interesse à origem da expressão “quinto dos infernos” vai um pouco além: é de viés linguístico, especificamente semântico. O fato é que o “quinto dos infernos” tem cunho matemático, porém o uso em alguns lugares deu-lhe um sentido geográfico. Creio que não é difícil encontrar alguém que  presenciou ao longo dos anos muitas pessoas em meio a desentendimentos mandar o desafeto para o “quinto dos infernos”. Nesses casos, o referido “quinto dos infernos” ganhou status de lugar apropriado para enviar alguém que nos enche a paciência, que nos tire do sério. Geograficamente falando, “o quinto dos infernos” deve ser algum lugar, mais inóspito do que conseguimos imaginar, situado no inferno.
Ao comparar os dois usos da expressão, nota-se que a operação diacrônica de mudança de sentido fez uso da metáfora. Percebe-se aí um deslocamento do campo de referência do conjunto significante, como depreendemos do sentido tradicional de metáfora.  A metáfora é um fenômeno semântico corrente no uso diário da língua, quando estão em funcionamento os seus (da língua) inseparáveis mecanismos de produtividade e de economia. O referido fenômeno caracteriza-se como uma transposição, ou melhor, ocorre quando uma palavra ou expressão é transposta para um campo semântico que não é  propriamente o do objeto que ela designa. No caso em questão, “quinto”, que inicialmente apontava para um número fracionário condenado socialmente,  passou a ser um lugar, o pior dos lugares e ao ser usado de tal forma tendeu a uma duplicidade metafórica. Isso quer dizer que primeiro “quinto” é fração, mas está figuradamente desempenhando função de lugar e “infernos”, que metaforicamente funcionava como qualificativo negativo de “quinto” fração, passou metaforicamente a substantivo, denominativo geográfico do lugar “quinto”. Constituída a transposição obtém-se  o todo figurado em “vá pro quinto dos infernos” que está no lugar de “desejo-lhe o pior”. Sendo assim, a fração negativa “quinto dos infernos” passou a significar um lugar ruim e o lugar ruim a significar um desejo negativo.
Resta dizer que é enriquecedor observar esses movimentos singulares operados pela língua. Eles são provocadores de mudanças de sentido, no tecido significante, que vão saltando de lugar a lugar e de época a época, reaproveitando enunciados como um combustível que  faz girar a incansável roda da produção de sentidos com a qual os súditos da língua, os usuários, têm de lutar no dia a dia. Essa luta, como diria o poeta Carlos Drummond, é uma luta com palavras, uma luta para expressar; é luta vã, uma vez que a roda gira continuamente. Por falar nisso, retomando o assunto dos impostos extorsivos, se os habitantes do Brasil colônia achavam o imposto de um quinto uma violência, o que dizer dos impostos de hoje que correspondem a dois quintos? Seria o caso de mandar os governantes para o quinto dos infernos?

sábado, abril 21, 2012

PELA MORALIZAÇÃO DAS CARTEIRINHAS DE ESTUDANTE



                                                                           Alan Oliveira Machado*

            O Movimento Estudantil (ME) no Brasil é protagonista de muitas lutas importantes. Suas ações atravessaram períodos democráticos, períodos de exceção e suas bandeiras modularam a estampa sempre oscilando entre as macropolíticas e as micropolíticas, mas invariavelmente atravessadas pela preocupação social, pela preocupação com a inclusão de todos os participantes do processo democrático que constitui o tecido social brasileiro.
            Nos seus contornos internos, o ME travou muitos embates no interior da universidade país afora. Em Goiás,  o ressurgimento, em 1980, das organizações estudantis estranguladas anos antes na luta contra o regime militar  possibilitou a retomada não apenas de grandes pautas políticas, como a legalização dos partidos comunistas, mas a retomada do debate sobre direitos dos estudantes que ainda não haviam sido concretizados pela movimentação política dos estudantes. Nesse período de restabelecimento do ME em Goiás surgiram muitas frentes importantes. Na faculdade de História da UFG, por exemplo, o jovem estudante Gilvani Felipe, então presidente do CA de História, e Romualdo Pessoa empreendiam uma significativa movimentação em busca de garantir, no meio acadêmico, mais espaço para a reflexão sobre a memória dos movimentos de resistência ao regime militar. A partir daí fortaleceram-se iniciativas sobre a memória das lutas no campo, sobre a Guerrilha do Araguaia e sobre a memória das lutas estudantis.
            Nesse clima de consciência política aguçada, as reivindicações por passe estudantil livre e mais a frente pela instituição da meia entrada em eventos culturais e cinemas, mediante a apresentação da carteirinha de estudante, ganharam força. A luta pela meia entrada via carteirinha, por exemplo, mostrou dois importantes pontos positivos que valiam a sua defesa a qualquer custo: primeiro formatava-se como uma prática  inclusiva uma vez que instituída, a meia entrada garantiria a milhares de estudantes o acesso a importantes expressões culturais do país, disponíveis apenas sob o pagamentos de caros ingressos;  depois o dinheiro da venda das carteirinhas garantiria fundos indispensáveis à organização das lutas dos estudantes espalhados por DCES, CAs, DAs, já que tal renda seria distribuída em forma de cotas para todas as entidades estudantis, incluindo a UNE e as UEEs.
            Os estudantes venceram a luta pela meia entrada. Segundo a associação de donos de salas de cinema, por exemplo, 40% dos ingressos vendidos representam a meia entrada. Mas como o direito de emitir carteirinhas não é um privilégio apenas das entidades estudantis, sua dupla finalidade inicial foi alterada. A renda que antes se destinava à organização das entidades estudantis agora pode ser abocanhada por donos de escolas, por professores e todo tipo de comerciante que pouco se importa com o movimento estudantil, sua organização e suas lutas. Hoje em dia, há professor efetivo no Estado que entra nas escolas da rede estadual pra fazer carteira de estudante contrariando inclusive o estatuto do magistério. Pululam pelos meios escolares verdadeiros camelôs de carteirinhas, imprimindo-as  sem qualquer critério, com o único fim de extrair lucro. A seriedade das carteirinhas cuja expedição exigia preenchimento de formulário, cópia do comprovante de matrícula foi substituída até por serviço delivery. Há empresas atuando em Goiânia que aceitam pedidos por telefone e entregam a carteirinha em casa como se fosse uma pizza. Tudo isso tem gerado suspeitas sobre a idoneidade dos expedidores de carteirinhas e angariado prejuízos para as entidades e para os estudantes. Muitas empresas de eventos culturais ou criam constrangimentos aos estudantes nas suas portarias ou aumentam os preços dos serviços e espetáculos tornando o acesso à cultura ainda mais inviável.
            Está passando da hora de o Movimento Estudantil retomar a discussão sobre o uso da carteirinha. Até porque entidades representativas dos estudantes como a UEE-GO, os DCEs, DAs, CAs começam a sofrer não apenas por causa do excesso de emissores de carteirinhas descompromissados, mas pela baixa de credibilidade, pela desmoralização que a mercantilização desordenada dessas identidades estudantis vem causando, coisa que desvirtua as finalidades do benefício. Associações de entidades promotoras de eventos culturais são  unânimes em afirmar que o volume alto de falsificações os obriga a aumentar o preço dos ingressos,  que pelo menos 20% dos bilhetes de meia entrada nesses eventos são irregulares. Isso é grave e começa a transformar algo que era um benefício em uma larga vala de exclusão. Por isso mesmo que providências precisam ser tomadas. Nesse sentido, um  dos caminhos seria acionar o Ministério Público para que fiscalize as empresas e entidades responsáveis pela emissão das carteirinhas no estado, para que investigue as irregularidades e ajude os estudantes a por fim na farra em que se transformou a emissão de carteirinhas no Estado de Goiás de modo a preservar o direito à  meia entrada conquistado pelos estudantes à custa de muita luta. 

*Professor e Coordenador de Assuntos Estudantis da UEG/ Iporá.

quarta-feira, abril 18, 2012

GRAMÁTICOS E GRAMATIQUEIROS


    Gramáticos não são cientistas da linguagem.  Quando muito são estudiosos que detém certo acúmulo de conteúdo sobre língua, mas genericamente baseado em uma visão completamente equivocada do que seja Língua.  Geralmente os gramáticos reduzem a língua a sua variante padrão ou, como preferem alguns deles, sua forma culta. Quase nunca questionam que essa forma defendida por eles com unhas e dentes  é apenas uma variação de uso.
    Como se não bastasse, além dos gramáticos há os gramatiqueiros. Os gramatiqueiros são arremedos de gramáticos. Formam  uma espécie de seita de adoração da gramática. Não conhecem o assunto, mas se opõem  ferrenhamente a qualquer desvio que se faça da variante padrão como se fosse um sintoma de agressão à língua, um pecado mortal.  O fato de não saberem bulhufas de ciência da linguagem os torna meros professores de etiqueta da variante padrão.

   Os jornais e meios de comunicação estão cheiinhos de gramatiqueiros propalando o que é certo e o que é errado no uso da língua, emitindo opiniões fantasiosas como se fossem a verdade e fazendo perseguições ao que eles mesmos desconhecem. Há braços!

terça-feira, novembro 15, 2011

MEU MUNDO

Sou do mundo da linguagem, acho que já disse isso por aqui em algum lugar. Pensar por esse caminho quer dizer um monte de coisas. Para mim, em princípio, quer dizer que a linguagem ( linguagem em sentido bem lato) estabelece a ordem num mundo sem ordem. Se a ordem do mundo é uma construção, o que move o meu espírito é a preocupação constante de saber como se vai montando a ordem ao longo do jogo simbólico ininterrupto. Quem atribui sentidos a determinados signos e quem organiza os sentidos em redes de significação que vão constituindo campos ideológicos? Sim, porque só há ordem se houver sentido. Importa-me saber e perscrutar, e entender como esses campos vão capturando indivíduos e sujeitando-os, melhor, transformando-os em sujeitos. Ou mesmo, como os indivíduos, com os desejos dispersos na massa simbólica e movediça, vão se territorializando, se fazendo sujeitos em zonas de intensidade. alan machado

quarta-feira, outubro 26, 2011

EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA, DO TRIPÉ AO TRONCO



                                                                   Prof. Alan Oliveira Machado

Como elaborar um conceito de extensão que fuja das práticas tradicionais e resistentes que ainda hoje dominam as discussões e emperram a materialização de uma política extensionista plena na universidade? Para responder a esse questionamento precisamos situar as duas práticas tradicionais.
Primeiramente, não é raro encontrar no ambiente acadêmico a ideia de que a extensão é um trabalho assistencialista que busca socorrer nichos sociais afetados pela exclusão e pela pobreza. Em conformidade com esse entendimento, naturalizou-se, em certos espaços da academia, quando diante de alguma demanda social dessa natureza, encaminhá-la para a Pró-Reitoria de Extensão resolver. A compreensão da extensão como assistência, do modo como apontamos acima, é equivocada. O imediatismo da remissão de tais problemas para a extensão implica certa ausência do tato científico com o qual a universidade precisa tocar tudo que a constitui e que a rodeia.
No afã de dar respostas a essa falta de tato científico de alguns setores da academia, há quem norteie a discussão sobre extensão dividindo o fazer acadêmico em três partes ordenadas da seguinte maneira: ensino, pesquisa e extensão, para em seguida sustentar que tais partes são indissociáveis. A questão é: se são indissociáveis por que dissociá-las antes de dizer que são indissociáveis? O que há de impropriedade em falar de tripé, em idealizar três coisas é que a universidade acaba tendendo a pensá-las sempre de forma separada para só depois procurar conexões com as demais partes. E quando chega a tais conexões muitas vezes enfrenta resistências internas tanto por parte das áreas de pesquisa quanto das de ensino.
Quando se pensa pelo viés do tripé, invariavelmente elabora-se uma falsa segmentação de algo que em sua natureza não é segmentado. O sentido do fazer acadêmico, seu núcleo existencial é a pesquisa. Desde a antiguidade, as instituições, se assim podemos dizer, que mais se aproximaram do que hoje denominamos como universidade se pautaram pela investigação da realidade, da matéria com o fim de torná-la cognoscível, manipulável e aplicável. Esse modus operandi sofisticou-se e diversificou-se na modernidade ganhando perenidade sob a alcunha de pesquisa científica.
Não existe de fato universidade onde não há produção de pesquisa. E o certo mesmo é pensar que a academia só produz pesquisa. Antes de provocar qualquer desconforto a esse respeito com afirmações tão diretas é importante dizer que ensino e extensão são estágios da produção de conhecimento. Se há instituições de ensino superior que se concentram apenas no ensino e na extensão, não custa nada perguntar sobre a qualidade de tal ensino e tal extensão quando se compreende que ambos são desdobramentos de uma única prática: a pesquisa.
No princípio, a pesquisa busca cercar o objeto, inquiri-lo, conhecê-lo e constatar suas possibilidades. Após essa primeira fase, ou no decorrer dela, a pesquisa ganha status de conhecimento e já pode ser situada num estágio cuja função principal é a sua disseminação. Nesse estágio, ela vira ensino, ocupa as salas de aula, por meio do exercício docente/discente, e concomitantemente alcança seu último estágio que se efetiva predominantemente fora dos muros da academia: a extensão.
Não sem razão qualquer um poderá apontar como linear demais a sequência acima: pesquisa, ensino e extensão. Antes que isso aconteça convém afirmar que não existe projeto de pesquisa, mesmo da mais pura pesquisa, sem finalidade e sem objetivos. Se há finalidade e objetivos é porque é inerente ao ato de pesquisar as preocupações com a produção de algum conhecimento, a divulgação dele e sua conversão em desenvolvimento tecnológico, social e econômico. Se isso é inseparável da natureza da pesquisa, as práticas que segmentam o fazer acadêmico em pesquisa, ensino e extensão não podem fazê-lo sem um grande cuidado. Negligenciar qualquer um desses estágios da pesquisa, promover o desequilíbrio entre eles enfraquece a universidade, porque em suma fragiliza a prática da pesquisa. 
Tendo em vista o que foi discutido até o momento, não custa concluir que no lugar da analogia do tripé, encontramos mais pertinência ao empregar a ideia do tronco. O grande tronco que sustenta a árvore do conhecimento e do desenvolvimento humano chamada Academia é a pesquisa. Como todo tronco, a pesquisa tem seu cerne, seu "mesocarpo" e sua casca, ou seja, desdobra-se naturalmente em três fases inerentes: a relação solitária do pesquisador com o objeto, o ensino e a extensão. E toda essa estrutura do fazer acadêmico indiscutivelmente sustenta-se no solo e no emaranhado de raízes que constituem a sociedade, com seus acúmulos históricos e suas demandas presentes. 

domingo, agosto 28, 2011

ATIRE O PAU NO GATO, EM VEZ DE ATIRAR NO PRÓPRIO PÉ



Esta semana vi uma pedagoga repreendendo um estagiário que cantava com criancinhas do pré a música  “Atirei o pau no gato”.  Segundo ela, que se dirigiu cheia de delicadeza  ao estudante em estágio , seria mais interessante cantar “Não atire o pau no gato”.  E entoou, no mesmo ritmo, uma versão politicamente correta da referida cantiga infantil: “Não atire o pau no gato... to/ por que isso... so/ não se faz... faz... faz/ o gatinho...  nho é nosso amigo... go/ não devemos maltratar os animais”.  Fiquei assistindo à cena: o estagiário ouviu atento a orientação pedagógica e, logo após, incitou a criançada a repetir com ele a versão politicamente correta da cantiga infantil.  Sentindo-se atendida, a pedagoga retirou-se satisfeita com sua intervenção revolucionária.
Nada contra a escola ensinar a criançada a não maltratar os bichinhos, entretanto fiquei pensando em por que não existe uma música “Atirei o pau no cachorro”? Afinal, cachorros são tão presentes na vida da meninada quanto gatos. Em busca de resposta, meu raciocínio mergulhou em  uma divagação de ordem semântica a respeito de gatos e cachorros que esbarrou na seguinte conclusão: cachorros são domésticos e gatos domesticados.
Se a explicação para minha pergunta está no fato de cães serem domésticos e gatos domesticados, qual a diferença entre doméstico e domesticado? Diria que domesticado é o animal independente, com o grosso dos instintos preservados, porém adaptado ao convívio humano; e doméstico é aquele bicho que já não consegue sobreviver sem a presença humana. Cachorros não raro morrem de fome e sede se o dono não os alimentar. Cachorros são domésticos. Gatos se viram. Saem à caça se lhes faltar ração ou água. Seguindo por esse caminho, no feixe de sentidos do termo doméstico diria que há o sema “mais dependente” e todas as convergências de sentido advindos de sua presença ao passo que em domesticado há o sema distintivo “mais independente” igualmente amarrado a uma trama de sentidos específicos . Tendo em vista tais especificidades posso dizer que gatos, no que tange à preservação dos instintos, geralmente são mais selvagens do que cachorros, portanto mais imprevisíveis.
Se gatos são mais presos às fronteiras de socialidade de suas origens é natural pensar que em algum momento eles poderão comportar-se de forma perigosa no ambiente doméstico, expondo a risco a integridade física de crianças que ainda não têm noção dos limites das relações com animais caseiros. Assim, não fica difícil imaginar porque a sabedoria popular investiu na criação da musiquinha “Atirei o pau no gato”. Desde cedo é bom que criancinhas saibam manter distância de um bicho que não vai entender, como os cães costumam entender, certas brincadeiras fora das proporções protagonizadas pela criançada.
Olhando por esse ângulo, o “Não atire o pau no gato”, com toda a simpatia preservacionista que encerra,  ignora um saber do povo cuja finalidade é educar a criança para um distanciamento preventivo de um animal que bem poderá  ferir-lhe a qualquer momento. Há braços!

sexta-feira, agosto 19, 2011

CORPO E LINGUAGEM: UMA PROVOCAÇÃO

É extensa a polêmica, mas nem sempre visíveis os desencontros entre o que certas teorias do conhecimento propõem como locus da aquisição e do desenvolvimento da linguagem. Vem os cognitivistas e situam a interioridade mental como território privilegiado dessa gênese; saltam de outro lado os comportamentalistas e mapeiam o exterior, a repetição e os condicionamentos como território dessa origem. Espiando as polêmicas, os desentendimentos e as justificativas, a impressão que nos chega é que a linguagem é algo anterior a tudo isso. Seria o corpo apenas veículo da linguagem? A pensarmos assim, diríamos que ela (a linguagem) se imprime nos corpos e os marca com uma singularidade que será capaz ou não de seguir um fluxo permeável pelo social. O corpo seria então uma espécie de  argila moldável que vai ganhando forma mediante os açoites dos ventos simbólicos constantes. A intensidade dos ventos delinearia a densidade das marcas e a perenidade das cicatrizes. As marcas e cicatrizes seriam dutos ou depressões por onde o ir e vir do mundo simbólico nos  garantiria alguma existência subjetiva, embora instável. O certo é que um corpo traz sempre uma escrita, nem que seja feita de estilhaços de uma ordem que o dilacerou ou de uma desordem que vincou seus contornos no contato com alguma resistência.
alan machado Há braços!

segunda-feira, agosto 01, 2011

ILUSÕES DO SUJEITO


Neste momento eu me pergunto se a subjetividade não é apenas um território ocupado de forma acidentada pelo desejo a partir de uma relação especular com um outro referente da exterioridade.Quem se habilita a responder?

domingo, junho 12, 2011

ÓRGANON

Tenho em minhas mãos neste momento uma grande obra, o Órganon de Aristóteles. A gente ouve e ouve falar desta obra, mas constatar a grandeza de Aristóteles, debruçando-se sobre tal texto tem outra dimensão. O Órganon é a matriz da racionalidade ocidental. Sem essa base nosso pensamento não teria alcançado os voos que nos colocaram nesta era de alta tecnologia. A Ciência não passaria de um monte de impulsos mal articulados. É isso, Aristóteles mais uma vez. Há braços! alan 

terça-feira, maio 31, 2011

PROFESSOR JOSÉ LUIS FIORIN DÁ UMA AULA DE LINGUÍSTICA

Uma aula para os desinformados que alimentam a falsa polêmica sobre o livro Por uma vida melhor.  Alan

segunda-feira, maio 30, 2011

SOB A AUTORIDADE DA DESINFORMAÇÃO

                                                      Prof. Alan Oliveira Machado

 O livro de Língua Portuguesa Por uma vida melhor, distribuído pelo MEC, vem causando, no meio intelectual, celeuma digna de uma gorda edição do Febeapá, do saudoso Stanislaw Ponte Preta. Stanislaw, pseudônimo do jornalista Sérgio Porto, horrorizado com a falta de senso no meio pensante, lançou nos anos de 1960 três tomos do Febeapá: Festival de besteiras que assolam o país, nos quais expunha com humor ferino as barbeiradas da inteligência brasileira. Se vivo, Sérgio Porto iria constatar que hoje a conjuntura está pior. Há mais tagarelice do que na época do seu Febeapá. A besteirada corre solta na internet; e nas Academias a inflação de títulos gerou uma deflação de conteúdos assustadora. 

Para quem leu Escrever é diferente de falar, capítulo do livro Por uma vida melhor que enseja toda a polêmica, o que chama atenção na discussão estampada em revistas e jornais do País é apenas uma coisa: a maioria dos especialistas e pitaqueiros argumenta sem ter lido o tal capítulo do livro. Isso torna-se evidente nos textos que insistem em sustentar que o referido livro ensina “erro de português”. Não ensina! Ensina a variação padrão do Português brasileiro sem tratá-la como a única da língua. Quem leu o Escrever é diferente de falar conferiu logo na segunda página o seguinte: “Assim, os aspectos que vamos estudar sobre a norma culta podem ser postos em prática tanto oralmente como por escrito. Neste capítulo, vamos ler dois textos. Eles permitirão aprofundar questões relativas à escrita e à maneira formal de as pessoas se expressarem em português”. Como se vê, o foco do livro é o ensino da língua padrão voltado, é bom ressaltar, para a alfabetização de jovens e adultos e não genericamente para o ensino fundamental como vem sendo dito por muitos articulistas dos meios de comunicação.

Se há alguma falha a apontar na parte em questão do livro, pode-se dizer que os autores foram infelizes em chamar, a certa altura, variação popular da língua de “norma popular”. Fazer referência à “norma culta” e “norma popular” lado a lado dá a entender que as variações populares seguem uma norma preestabelecida tanto quanto a variação padrão, quando na verdade representam mais fuga do padrão ou reelaboração da língua em virtude da dinâmica do uso. Também não dá para levar a sério a afirmação de que “o falante deve dominar as diversas variantes”. O máximo que um livro com tal finalidade pode propor a educandos é que reconheçam a existência das variações, tenham consciência do seu uso e respeito pela multiplicidade que elas representam no corpo do fenômeno que é a Língua. Mesmo porque é sem pé e nem cabeça a ideia de dominar as formas não padrão. O verbo “dominar” não cabe nessa história.

Tirando esses dois deslizes de expressão no capítulo Escrever é diferente de falar, acredita-se que há pouco o que falar do livro senão que é uma obra perfeitamente adequada ao que se propõe e que não merece as distorções grosseiras a ele atribuídas, promovidas por gente que sequer o leu. O artigo de Lya Luft, na Veja do último dia 25 de maio, é um exemplo da inconsequência com a qual intelectuais, sobretudo das Letras, vêm tratando o assunto. Dona Luft provavelmente não leu o livro em questão, mas chega a afirmar que o MEC, ao adquiri-lo, “promove o não ensino da língua-padrão”, como se o livro não fizesse o contrário do que ela afirma. Opiniões semelhantes foram expressas pelo professor José Fernandes em O Popular de 22 de maio e Ercília Macedo-Eckel, no Diário da Manhã de 26 de maio. Ambos os intelectuais, respeitados no meio acadêmico goiano, debulham conhecimento literário em seus textos, mas o pouco trato com a Linguística os faz resvalar para uma opinião rançosa e desinformada.  Que se saiba, neste chão goiano, até o momento, o único ponto de vista que ofereceu uma visão pertinente e linguisticamente embasada sobre o tema polêmico foi o  manifestado por Alexandre Costa, em O Popular do dia 22 de maio. Costa, professor da UFG, é linguista  e lucidamente afirma que “no processo de formação escolar, os estudantes têm de conhecer e aprender a língua padrão escrita para ter acesso aos (...) discursos privilegiados da cultura, da religião e da ciência”. O autor não apenas destaca a importância social do domínio da variação padrão, como também a coloca em seu devido lugar: “A correção gramatical só é relevante quando vem por último: primeiro, é preciso falar muito, escutar muito, ler muito e escrever muito; depois, é preciso refletir sobre os modos e os sentidos dessa atividade linguística, e suas possibilidades de expressão”.

Na verdade, os meios de comunicação têm alimentado uma falsa polêmica já que o objeto da contenda é uma fantasia criada e alimentada pela desinformação: não existe "o livro que ensina português errado". Tal   quadro de animosidade se instaura geralmente quando a ideologia ultrapassa o bom senso, fazendo intelectuais se agarrarem apaixonadamente a posicionamentos, sem em tempo algum se debruçar sobre os elementos materiais que desencadearam a polêmica. A simples leitura do capítulo do livro em questão evitaria muita tinta desperdiçada e o rol de besteiras que vai migrando de jornal a jornal, de revista a revista, cada vez mais distanciadas do que está materializado no livro Por uma vida melhor.

terça-feira, maio 24, 2011

ENSINO SUPERIOR: ENTRE A DEMOCRATIZAÇÃO E A MASSIFICAÇÃO

                                                        Prof. Alan Oliveira Machado

A acelerada expansão do ensino superior encampada pelo MEC a partir da segunda metade da década de 1990 trouxe consigo questões que aqueceram o debate sobre o destino da educação superior no Brasil. Por um lado refletia a preocupação com a qualificação de mão de obra propícia à disputa de espaços na economia globalizada, por outro ancorava-se no discurso de democratização do acesso ao ensino superior. Em um país de enormes desigualdades, o caminho da educação mostrava-se (e ainda mostra-se) como via de acesso a patamares socioeconômicos e culturais imunes à exclusão. Essa duplicidade de características, comumente tratada por teóricos como antagonismo, na compreensão do papel da educação superior permitiu a massificação desse ensino ao contrário de sua plena democratização. Tanto as correntes que pensaram a ação da universidade pelo mero viés do desenvolvimento econômico quanto as que se posicionaram tendo em vista a inclusão social tenderam a não equacionar os efeitos negativos de tal empreendimento na formação de discentes e na produção de pesquisa. O resultado disso foi a descaracterização do sentido de democratização do ensino por um intenso processo de massificação.
Segundo Chaui1, e isso reflete um endurecimento ideológico vazado por equívocos, “a contradição entre o ideal democrático de igualdade e a realidade social da divisão da luta de classes obrigou a universidade a tomar posição diante do ideal socialista”. O raciocínio da autora é representativo do recuo ideológico dos segmentos mais voltados para a defesa da democratização do ensino universitário no contexto da expansão. Percebe-se que para Chauí, o fato de “o ideal democrático de igualdade” e a “realidade social” não se equivalerem é determinante para a universidade se posicionar pelo socialismo.
A se seguir o silogismo implícito ao raciocínio da filósofa uspiana constata-se que sua conclusão é forçada. Se o ideal democrático de igualdade não se confirma na realidade social, seria mais pertinente propor ações e intervenções que conduzissem a realidade social a um plano de sintonia com o ideal democrático de igualdade. Direcionar a solução para um impasse entre democracia e socialismo é também ignorar as condições reais de modificação do contexto de desigualdade e exclusão.
Do mesmo modo, a voracidade capitalista com a qual a iniciativa privada saltou sobre a educação superior pouco acrescentou na ascensão do nível de formação discente e da produção de pesquisa. Segundo Corbucci2, na impossibilidade de enfrentar a demanda por educação superior, o Poder Público abriu “a possibilidade de atendimento da demanda represada pela via privada, viabilizada mediante certa desregulamentação do setor, ocorrida em meados dos anos 1990, no que se refere à flexibilização de requisitos para a criação de cursos e instituições”. O resultado disso foi em pouco tempo o aumento das vagas privadas em 249%. Diante do volume de vagas, os problemas de infraestrutura e baixa qualificação docente aumentaram vertiginosamente, por um lado encarecendo o ensino superior privado e por outro promovendo a queda da qualidade. A adoção em 1996 do Exame Nacional de Cursos, conhecido no meio estudantil como Provão, mostra na sequência de dados que nas instituições privadas cresceu o índice de cursos com conceitos D e E. Na classificação do MEC, os conceitos D e E são atribuídos a cursos que não atendem aos critérios básicos exigidos para a formação de nível superior.
Quando se propõe a democratização do ensino superior é premente que se tenha um plano de adequação da infraestrutura, um plano de carreira docente voltado para a priorização do ensino de qualidade e para a produção de pesquisa, o que implica investimentos em qualificação de professores e financiamento de pesquisa, bem como assegurar a execução de políticas que propiciem a permanência dos estudantes nas universidades em iguais condições de participação e de interação no meio. Sem esses elementos básicos assegurados, a expansão do ensino não significará democratização, pois sem professores, pesquisa e ensino de qualidade a universidade deixa de cumprir o seu papel de centro de formação. Formação, de acordo com Chauí3, é:

introduzir alguém ao passado de sua cultura (no sentido antropológico do termo, isto é, como ordem simbólica ou de relação com o ausente), é despertar alguém para as questões que esse passado engendra para o presente, e é estimular a passagem do instituído para o instituinte.

Além disso, sem esses atributos, o ensino superior perde a capacidade de produzir conhecimentos e, sobretudo, a capacidade de convertê-los em tecnologia e desenvolvimento social. Sem esses suportes que caracterizam o ensino superior, a universidade, em vez de espaço de formação do cidadão crítico e participativo, em vez centro democratizador do acesso ao conhecimento e à produção de pesquisa, passa a locus irradiador da massificação de conteúdos, a campo precário de treinamento de técnicos incapazes de se sustentar e de contribuir com o desenvolvimento socioeconômico e cultural.
Na conjuntura atual, o ensino superior tem o grande desafio de construir instrumentos capazes de sustentar a sua identidade, gradativamente fragmentada e pulverizada pela expansão sem planejamento adequado. Os seguidos resultados negativos nos exames e índices que medem o desempenho da educação superior dão margem a todo tipo de inferência sobre boa parte das universidades brasileiras e, antes disso, confirmam que os suportes básicos: docentes, infraestrutura e assistência aos estudantes não têm recebido a atenção necessária para que seu desempenho convirja para a afirmação e consolidação da real identidade do Ensino Superior.

1CHAUÍ, Marilena. A universidade pública sob nova perspectiva. In: Revista Brasileira de Educação. São Paulo, 2003.
2CORBUCCI, Paulo Roberto. Desafios da educação superior e desenvolvimento no Brasil. Disponível em: www.ipea.gov.br . Acesso em 12 de abril de 2011.
3Em artigo anteriormente citado.

domingo, maio 08, 2011

O MUNDO MAL PASSADO NO CALOR DOS MEGAPIXELS, GIGABYTES E TERABYTES



“Com a ‘velocidade instantânea’, as causas das coisas vieram novamente à tona da consciência, o que não ocorria com as coisas em sequência e em consequente concatenação. Em lugar de perguntar o que veio primeiro, o ovo ou a galinha, começou-se a desconfiar que a galinha foi ideia do ovo para a produção de mais ovos”. (Marshall Mcluhan, Os meios de comunicação como extensão do homem)

Vivemos mais do que nunca na era da comunicação e a velocidade com que enviamos e recebemos mensagens é assustadora. A rede mundial acessível por computadores e telefones móveis possibilita-nos manifestar as mais inesperadas e variadas opiniões uma vez que podemos estar inseridos num acontecimento e ao mesmo tempo digitando em nosso smartphone nossas impressões, a todo momento espalhando-as via Twitter, Facebook, Orkut e demais redes sociais ou campos de interação na internet. O gerenciamento da informação e da comunicação torna-se assim o campo que exige maior atenção e cuidado.
A maioria das pessoas ainda não sabe muito bem como gerenciar comunicação e informação em tempo real. Há nisso alguns problemas. O primeiro está, em outras palavras, no que o pensador canadense Mcluhan denuncia na epígrafe acima: com a velocidade e a concomitância, nós que fomos treinados anos a fio dentro de um modus operandi que alinha os acontecimentos em sequência e num encadeamento previamente esterilizado para evitar ruídos ideológicos indesejáveis, nos vemos perdidos no universo de abundância informacional acessível a todos os sentidos, de igual descartabilidade, que a alta tecnologia passou a permitir em todos os campos, sobretudo no das comunicações.
Quem acompanhou a recente cobertura da operação da marinha americana que culminou na morte do líder da Al Qaeda, Osama Bin Laden, assistida em tempo real pela cúpula da Casa Branca, como se fosse um filme de guerra daqueles protagonizados por Sylvester Stallone, pôde notar quantas vezes as informações foram ditas e desditas em um mesmo dia. Ocorre que a vida real, o acontecer não segue necessariamente nosso treinamento mental para ajustar o que se materializa diante de nossos sentidos em uma sequência linear e lógica. Testemunhar algo no momento em que está acontecendo e de imediato transformar a movimentação da realidade em informação geral, apropriada ao consumo de todas as pessoas do planeta, quando estas ou testemunharam em tempo real, por meio de seus equipamentos de mídia, o mesmo evento ou o resgataram em algum vídeo do You Tube não é algo simples. O dizer e desdizer praticado pelo governo americano, com respeito à morte de Bin Laden, é exemplo de tal complexidade. Como ajustar as informações sobre o acontecimento a uma linha de pensamento favorável aos interesses de Washington perante a comunidade mundial e local?
Mais uma vez relendo Marshall Mcluhan, o mesmo que em 1964 anteviu que a evolução tecnológica iria transformar o mundo em uma aldeia global, poderíamos dizer que a rede mundial de informação e comunicação chamada de internet é um espaço de alta temperatura. Mcluhan dizia ser um meio quente aquele com excesso de informação, saturado. A internet encarna perfeitamente esse raciocínio, pois atinge temperaturas tão altas diariamente que de acontecimentos explosivos alçados ao seu forno pela manhã às vezes só restam cinzas no final da tarde.  Basta aparecer um assunto polêmico ou inusitado, todo mundo quer lançar uma achazinha na fogueira. E o volume de impressões e imprecisões faz crescer ao redor do assunto uma miríade de imagens, montagens audiovisuais, mitos e teorias, algumas totalmente absurdas que persistem e se fixam como se fossem verdades absolutas.
Outro problema é que cada vez mais as pessoas de posse das tecnologias e expostas a elas enrolam-se com a publicação de informações mal expressas que acabam causando na rede uma reação contrária à esperada. Muitas vezes as intervenções individuais são traídas por memórias de ideologias nefastas e o resultado é a proliferação em rede do linchamento simbólico de tal indivíduo, invariavelmente sem o letramento necessário para filtrar informações e policiar seus modos de expressão. Há abundância de exemplos a esse respeito. O caso mais recente foi o do vereador de Anápolis que solicitou ao presidente da câmara um minuto de silêncio em respeito à morte do, como ele disse, “companheiro Bin Laden”. As imagens do vereador em ação espalharam-se pelo mundo negativamente, mas não menos feio fez o presidente da câmara que autorizou o pedido: ao ser questionado sobre o ocorrido, afirmou que cometeu um ato falho. Não precisa ser freudiano para saber que um ato falho é a manifestação de um desejo reprimido. O presidente quis dizer então que, no seu íntimo, desejava também homenagear Bin Laden?
O gerenciamento de informações e comunicação torna-se desse modo algo que não pode ser negligenciado. Em um mundo monitorado incessantemente por câmeras de celulares, gravadores minúsculos embutidos nos mais variados objetos de uso cotidiano, adequar o que se diz e faz à pluralidade de auditórios é um desafio. O dizer e desdizer, reformular e readequar, ensaiar, ensaiar, ensaiar, deixa de ser algo restrito ao exercício solitário de escritores, jornalistas e atores para constituir uma exigência a qualquer pessoa que queira destacar-se e influenciar no movimento do desejo humano, o que pelo visto é anseio geral.
Há, desse modo, que se retomar a preocupação com a Retórica não apenas no que tange ao seu aspecto epidíctico, mas no seu aspecto argumentativo e persuasivo. O novo momento permeado e, de certa forma, dirigido pelo avanço e massificação dos aparatos tecnológicos de comunicação presume essa necessidade. A educação formal, é evidente, ainda não está preparada para essa tarefa. Como explicava há bastante tempo Marshall Mcluhan, a quem homenageamos com este texto, em seu livro Revolução na Comunicação: "Em nossas cidades, a maior parte da aprendizagem ocorre fora da sala de aula. A quantidade de informações transmitidas pela imprensa excede, de longe, a quantidade de informações transmitidas pela instrução e textos escolares".
        Devemos começar nossa tarefa de integração total aos novos tempos levando o que está fora da sala de aula para seu interior, como forma de exercitar o pensamento crítico e de elaborar instrumentos sólidos que permitam ao futuro cidadão interagir no mundo de modo mais independente e construtivo. É pertinente que nos dias atuais as crianças e jovens saiam da escola sabendo como administrar informações, ou seja, como materializá-las de modo a atender aos propósitos oriundos do universo de seus desejos e como filtrá-las quando vinda de outros universos. Adquirir domínio sobre o gerenciamento de informações redunda em domínio de comunicação.  A fornalha da rede mundial que consome boas reputações e funde falsos ídolos também pode ser hegemonicamente aquela que assa os melhores pães para saciar o desejo da humanidade.    
 Prof. Alan Oliveira Machado, maio 2011.

segunda-feira, abril 11, 2011

A HISTÓRIA ORAL NA ATUALIDADE


Tradicionalmente, a História é feita com base no uso de documentos, artefatos e obras de arte ficando esquecida ou sendo pouco aproveitada a vertente estabelecida pelo conhecimento oral. Por outro lado há grupos acadêmicos de pesquisa que se dedicam ao estudo e análise da história preservada na memória popular, repassada oralmente de geração a geração. O trabalho desses grupos imprimiu o caráter científico à História Oral e se reflete na existência das diversas associações de estudo da história oral e na realização de importantes eventos nacionais e internacionais.

Ainda há muita controvérsia com respeito ao que venha a ser História Oral e quanto à validade científica de seus métodos. Como todo campo de atividade que busca a legitimação científica do seu fazer, o campo da historia oral tem suas fragilidades que decorrem às vezes do pouco domínio da metodologia outras vezes da complexidade do evento estudado que não raro exige conhecimentos que precedem o método ou o limitam.

A história oral pode ser entendida como o arquivamento das experiências de uma sociedade preservando o conhecimento e os costumes de determinado agrupamento humano. No uso das atribuições desse recente fazer científico, técnicas de coleta de dados devem ser respeitadas. Nesse sentido, três aspectos estarão presentes na coleta para produzir história oral: primeiro o entrevistador deve seguir um roteiro previamente estabelecido, em seguida ele deverá ter clareza a respeito do entrevistado, aquele que é portador de um determinado conhecimento e por último, deverá ter em conta a aparelhagem, de áudio ou audiovisual, e as condições de gravação. Esses três pontos são fundamentais para a produção do conhecimento científico tendo como matéria a oralidade.

Toda essa preocupação metodológica deve seguir critérios rígidos. As entrevistas, por exemplo, devem ser conduzidas sem induzir o entrevistado. Esse cuidado deve ser seguido principalmente no processo de degravação, ou seja, na produção do documento impresso a ser analisado pelo pesquisador, já que a distorção da informação compromete a fidelidade da produção do conhecimento conduzindo o pesquisador muitas vezes a erros graves. 

Existem três modos diferentes de se produzir História Oral. Pode-se produzi-la a partir de um relato individual de vida, história oral de vida; Pode-se chegar a sua constituição a partir de um tema específico, por exemplo: culinária, dança, religião, entre outros, que podemos chamar de história oral temática e, por último, pode-se produzir história a partir do que está consolidado pela oralidade, aí estar-se-ia trabalhando com a variante chamada de tradição oral

Desde 1947 até a atualidade a história oral vem se destacando enquanto produção científica.

Emerson Adriano Sill – historiador, Mestre em Educação pela UTP-PR.

Referências para Leitura
Manual de História oral – José Carlos Sebe Bom Muhy
Memória, Esquecimento, silêncio – Michael Pollak
História e Memória – Jacques de Le Goff


domingo, abril 10, 2011

OPERÁRIO DAS RUÍNAS


Conforme um amigo de ofício acadêmico, a poesia de Augusto dos Anjos traça uma descenção. Sua tese fala de uma "descenção poética " na obra do poeta paraibano que grotescamente chamam de simbolista, parnasiano, pré-modernista. Pré-modernista por quê? Por que produziu antes da semana de 1922? Tenham dó! Quer dizer que Charles Baudelaire é um arauto da modernidade e Augusto apenas um pré-modernista?  Esse é o mal de quererem fechar a Literatura em forminhas lineares e cronológicas. Fico pensando no  que restaria de Cervantes na mão desses estabelecedores de reputações literárias. Mas, voltemos ao que interessa.
 Na poesia anjelina  pode-se vislumbrar uma descida, do homem ao verme. Resumindo melhor:  homem-morte-coveiro-verme. O verme é o último no declive material da existência. O homem nessa poesia se sobressai principalmente como matéria. Não há metafísica aí; e se houver, nela o grande Deus é o verme: o eterno, o indestrutível, o primeiro e o último na escala da composição e decomposição da matéria. Essa onipotência divina vemos no poema Deus-vermeFator universal do transformismo./Filho da teleológica matéria,/Na superabundância ou na miséria,/Verme - é o seu nome obscuro de batismo. Como vemos, o verme é um operário de labor eterno na transformação de tudo que tem vida. Assim, a escatologia, intrínseca ao mundo da decomposição da matéria, atravessa essa poesia, mas, aristotelicamente falando,  em estado de arte seu impacto é atenuado: Já o verme — este operário das ruínas —/Que o sangue podre das carnificinas/Come, e à vida em geral declara guerra,/Anda a espreitar meus olhos para roê-los, /E há-de deixar-me apenas os cabelos, /Na frialdade inorgânica da terra! Eis a modernidade de Augusto dos Anjos. Sua poesia nos traz uma reflexão sobre a vida em seu estado de desintegração e alça o verme, esse elemento baixo,esse tema sem nobreza, com sua crônica da degradação ao centro da poesia. E não podemos duvidar de que o verme é um ser  misterioso que na escala montada pelo poeta nascido no Engenho Pau D´arco assume deveras a mais relevante, a mais poderosa posição. Há braços! Alan Machado

sexta-feira, abril 08, 2011

NO LEITO DAS RELEITURAS


Aos poucos venho tornando cotidiano o exercício da releitura. A certa altura da vida  assalta-nos o sentimento de que releituras são mais importantes do que leituras. Talvez isso ocorra quando a gente se dá conta de que a memória sabe mais das leituras do que das próprias obras lidas. Aí é hora de voltar aos textos, às fontes das memórias. E quão maravilhoso é constatar que na verdade não existe releitura, pois quando a gente volta ao texto ele abre-se como um leque de novidades e surpresas. Aqui vale reinventar a máxima de Heráclito de que o homem não toma banho duas vezes no mesmo rio,  porque  ao fazê-lo nem ele e nem o rio serão mais os mesmos. Pois então, ao reler nem o leitor e nem o livro serão mais os mesmos. 
A volta ao texto revela-se assim como a ida a outro texto. Eis um dos mistérios da linguagem: os mesmos signos com outros sentidos! Estão os sentidos, afinal, no homem, no texto e no mundo que o cerca . A dinâmica simbólica que altera a todo momento a cognição humana lança seus fios e raízes sazonais nos acontecimentos, nos eventos e nos signos espalhados ao longo da existência e tudo se decompõe e se recompõe de modo às vezes imperceptível. Quando voltamos ao livro sobre o qual nos debruçamos há alguns anos sentimo-nos surpresos com as novidades que a leitura fresca vai apresentando ao nosso entendimento. Acodem-nos inesperados sentidos, muitas vezes em franco desencontro com a nossa memória. Há braços! alan machado

SOBRE MAIS UMA FOTO DE ANAIRAM



Diz muito o contraponto da menina com a árvore morta na praia deserta da Ilha do Mel. Os extremos da natureza: há sempre algo que brota e algo que morre!O novo é sempre solitário, tanto quanto o velho. O aspecto sombrio do céu enfatiza essa atmosfera. Grande foto! Profissionalíssima! Parabéns!

quinta-feira, abril 07, 2011

SOBRE UMA FOTO DE ANAIRAM GAMPER









Quem decide o meu destino,
sinuoso e incerto
não tão duro e direto
como a linha do trem?
Se cheio de curvas e atalhos é o destino,
há um lançar de dados contínuo,
há mais hesitação do que caminho,
 há pouco  que se falar:
*caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.

alan machado

* Versos de um poema do poeta espanhol Antonio Machado que nasceu em 26 de julho de 1875, em Sevilha e aos oito anos mudou-se para Madrid. Poeta e prosista, pertenceu ao movimento literário conhecido como “geração de 98″. Provavelmente, ainda é o poeta  mais lido de sua época .