quarta-feira, março 12, 2008

FAMÍLIA



Estas duas moças bonitas são a minha família. Há um bom tempo eu não as via e agora estou feliz por estar novamente unido a elas. Se depender do meu amor, vamos viver unidos e felizes para sempre.

sábado, dezembro 15, 2007

OS POLÍTICOS, A CPMF E O POVO

A briga entre governo e oposição, que resultou na rejeição da CPMF no Senado, se bem entendida, não passou de teatro de ambas as alas, com o fim de demarcar território e gerar assunto para o iminente ano eleitoral. Esse entendimento se baseia em alguns dados óbvios omitidos pelos participantes do debate em determinadas circunstâncias e pelo rearranjamento que estão fazendo após a queda do imposto.

Para compreender o jogo que se estabeleceu dentro do Senado entre os governistas e os oposicionistas, devemos levar em conta, primeiro o cenário. É certo que a oposição já tinha em mãos o resultado da última pesquisa que avaliava a credibilidade de Lula. A pesquisa demonstrava uma subida na avaliação do presidente, entre bom e ótimo. Juntando-se isso ao cenário mundial favorável ao crescimento continuado da economia, a oposição, liderada pelo PSDB e DEM, se viu forçada a um ataque feroz e à defesa intransigente da queda do tal imposto, aliás, “impostaço” que transfere para os cofres do governo cerca de 40 bilhões por ano. Caso não derrubassem a CPMF, os setores oposicionistas se veriam pulverizados pela conjuntura cada vez mais favorável ao governo. A briga, por parte dos Tucanos e Demos, era uma oportunidade de por os políticos da situação na berlinda e mostrá-los ao povo nas suas contradições, como fez o senador Heráclito Fortes, dos Demos, ao ler um discurso de 1996, do senador Paulo Paim do PT, atual defensor da CPMF, pedindo o fim do “perverso imposto”.

Em princípio, não haveria motivos para PSDB e DEM lutarem contra a CPMF. Aliás, seria uma contradição, já que esses setores se beneficiaram desse imposto durante os dois mandatos de FHC, o que por si só já anularia quase todos os argumentos utilizados contra essa contribuição financeira. O primeiro argumento é o de que onera o povo, depois o de que era para a saúde e estava sendo desviado para outras finalidades. Vejam bem, se onera o povo, onerou durante os dois mandatos de FHC, se era para a saúde, imaginem 40 bilhões mensais aplicados em saúde nos oito anos de governo FHC, daria para cada rua do país ter um mini-hospital, com médicos e tudo. No entanto, os tucanos entregaram o país, no final dos dois mandatos, a um passo do naufrágio social e econômico.

Os argumentos da bancada governista não foram menos dignos de descrédito. Primeiro defendiam que os programas sociais bancados pela CPMF iriam entrar em falência, depois diziam que para o país não entrar em crise profunda teriam que aumentar outros impostos. Aqui, o que entrega a encenação é que, na beira da votação, o governo enviou uma carta ao congresso se dispondo a aplicar toda a CPMF, se aprovada, em saúde. Ora, e os programas sociais, como ficariam? Ficariam como estão, pois já dá para perceber que os programas sociais não dependem dessa contribuição financeira. O arrocho financeiro de que se queixava a situação também é um blefe retórico, que muito bem poderá ser usado no ano eleitoral para demonizar ainda mais a demoníaca oposição. Com o fim do teatral duelo entre o governo e seus opositores, cada grupo pegou seu quinhão de informações a respeito do adversário para usar nas eleições do próximo ano e, em seguida, partiu para pensar a reaprovação da CPMF ou algo que o valha. É o que a matéria da Folha online, anuncia hoje, 14-12-2007: “O líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio Netto (AM), sugere que a CPMF seja recriada com um novo formato. Já a líder do PT na Casa, Ideli Salvatti (SC), reconheceu que a medida pode ser analisada na discussão da reforma tributária”.

No fim de tudo, dá para perceber que o interesse pelo povo não era o foco dos políticos, o interesse não era também reduzir os escorchantes impostos que mantêm na penúria os trabalhadores e propagam a miséria. Em nenhum momento se discutiu no senado por que ralo escorre tanto dinheiro de impostos no Brasil. Em nenhum momento se discutiu a importância de combater a corrupção, como forma de reduzir impostos ou em aprimorar a legislação para tal fim. Mas esperem o ano que vem para assistir à reprise desse duelo, dessa vez nos palanques eleitorais de ambos os seguimentos.

HÁ BRAÇOS! alan oliveira machado, em14-12-2007, alinguaviva@yahoo.com.br

terça-feira, dezembro 11, 2007

A EXTINÇÃO DOS ESQUERDOSSAUROS

Alan Oliveira Machado

“A pobreza da experiência não é expressão de uma carência, mas antes a expressão de uma arrogância, a arrogância de não se querer ver e muito menos valorizar a experiência que nos cerca, apenas porque está fora da razão com que a podemos identificar e valorizar.” (Boaventura Sousa Santos, 2006)


Não se trata necessariamente de voltar à esquerda. Voltar à esquerda, simplesmente, pode nos levar a entender que os métodos da esquerda sempre foram os melhores e sempre serão e que o retorno seria uma espécie de exorcismo para expulsar demônios capitalistas do corpo, o que não é verdadeiro. É preciso que se retorne à origem, não para ser autêntico ou puro, não para reproduzir a monocultura do saber, mas para se reposicionar na atualidade, de forma crítica e coerente, dentro de um campo de pensamento e prática de esquerda que se constrói cotidianamente na leitura e releitura das práticas e demandas que a contemporaneidade produz, sem necessitar de repetir fórmulas e práticas que já não se ajustam à realidade das lutas.

Sabemos que não é nada fácil se localizar dentro da esquerda sem cair numa lógica que está na base de todo o pensamento ocidental moderno, qual seja a mania de linearizar o tempo e a história e dicotomizar as relações. Esse vício mental funciona como uma rede que só captura o que é compatível com sua trama. É como se fôssemos pescadores que utilizassem uma rede de buracos muito grandes de forma que só conseguíssemos pescar tubarões, levando-nos a crer que no mar só existem tubarões, apagando, portanto, toda a diversidade. Assim funciona essa maneira de entender a realidade, como diria o sociólogo português Boaventura Sousa Santos, a reboque de uma razão metonímica, ou seja, que reduz o todo à parte, que reduz a realidade tão somente ao que conseguimos prender em nossa razão.

Em sua complexidade, historicamente, esquerda e direita são campos de interesses não muito bem demarcados, porque, erroneamente, demarcamos esses espaços por meio de estereótipos (há algo mais superficial?). No dia a dia, pessoas que se situam na esquerda desenvolvem novas práticas revolucionárias, fora da lógica linear e maniqueísta da esquerda e isso irrita e gera ódio, sobretudo nos esquerdossauros, naqueles que seguem apenas os estereótipos (aqui, esquerdossauro não é uma questão de idade, mas de mentalidade). Ou o militante se enquadra no perfil imaginário estereotipado, ou é rechaçado. Como se a vida e a realidade social tivessem dois lados fixos, um lá e outro cá e as pessoas se não estão cá inquestionavelmente estão lá. Nos anos sessenta muitos esquerdistas criativos foram tachados de reacionários e pelegos, em nome dessa compreensão redutora e equivocada, no que diz respeito ao que deveria ser o comportamento do esquerdista.

O que esses esquerdossauros não entendem é que o que se faz e se diz tem contexto e é preciso entender esse contexto antes de mobilizar a rede redutora, se é que precisamos de rede redutora. Como entender o movimento da realidade se recusando a enfrentá-la no seu movimento complexo? Os critérios superficiais para se decidir se alguém ou algum movimento é de esquerda ou direita são ridículos, não se sustentam na dinâmica da realidade, levando os esquerdossauros, feito alguns evangélicos, a se fecharem em um mundinho esquizofrênico e paupérrimo em quase todos os sentidos. Enfim, para combater a falsa esquerda, meus camaradas, não é preciso virar um fóssil vagando cegamente na tempestade cotidiana ou um membro de grupelho encolhido sob o guarda-chuva da mediocridade. HÁ BRAÇOS! (5-10-07)

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

TUDO QUE QUER SER SE DEGENERA

Tudo que quer vencer o tempo é contra a natureza. Tudo que deseja duração e permanência, apressa o seu fim, se desvirtua, se degenera. Toda permanência cega, porque o mundo é inconstância, trânsito, caos... Toda forma empobrece a realidade, porque fixa apenas um minúsculo aspecto da vida, em detrimento de sua dinâmica. HÁ BRAÇOS! alan

segunda-feira, dezembro 18, 2006

LITERATURA E INTERAÇÃO

Desarticular un poema como se desarticula un
sistema es un delito, por no decir un sacrilegio
.
(Cioran, Esse maldito eu, 1987)


Evitando discussão técnica ou teórica, se tivesse que dizer qual a função da Literatura, diria que é emocionar. Não entendam emocionar apenas como sentimento positivo. Nojo, ódio e desprezo, por exemplo, também são dimensões da emoção. A Literatura, vista assim, é a arte de criar, por meio da linguagem, a sensação de verossimilhança ou de estranhamento, que produz em nós humanos um processo de empatia, purgação e catarse. A importância de tudo isso é que a Literatura gera alguma forma de prazer ou alívio, seja porque nos vemos melhores do que somos na criação literária, ou piores do que somos, como dizia Aristóteles, ou ainda porque temos muitas vezes a nossa inteligência posta em xeque no jogo de ocultação ou na desfiguração da lógica engendrada pelo tecido literário, tramado fio a fio pelos mais diversos escritores de todos os tempos.
Talvez essa primeira especulação sobre literatura tenha mais a ver com a posição do leitor leigo. Aquele leitor que se atira à fantasia criada pela atmosfera do texto e sofre, sorri, irrita-se, apaixona-se. Independente de qualquer sofisticação, todos nós temos a natureza desse tipo de leitor, porque somos humanos e, como tais, carecemos de sonhos e de fantasias para seguir a jornada da existência. Em princípio, a Literatura não deveria pretender mais do que isso. A gente escreve para atingir a alma do leitor em algum ponto e realmente o faz, mesmo quando toca menos do que o desejado ou apenas o indesejado.
Existem, imbricadas ou paralelas, outras formas de entender ou se relacionar com o texto literário. Quem faz Literatura, quem escreve pode muito bem ver o texto como uma estrutura formal, com arquitetura elaborada ao sabor da consciência. Há então quem faça Literatura escolhendo minuciosamente as palavras, montando cautelosamente a trama, manipulando o extrato sonoro e a cadência rítmica da língua. Para essas pessoas, o prazer está em desafiar a língua, em explorar suas potencialidades expressivas. Há, entretanto, boa literatura feita inconscientemente, a reboque da sensibilidade do escritor, de sua intuição e competência lingüística. É necessário lembrar que até mesmo os textos conscientemente arquitetados movimentam conteúdos simbólicos alheios ao controle do autor.
Outra maneira de encarar a Literatura é aquela difundida por professores e técnicos ligados à Teoria Literária. Esses profissionais muitas vezes, como numa aula de anatomia, dissecam o texto literário, procurando explicar sua composição e os processos de criação utilizados pelo escritor. A mistificação e vulgarização dessa prática têm tirado do leitor o direito ao sabor do texto, bloqueando-lhe a possibilidade do sonho e da fantasia. O leitor, esterilizado pelo aparato teórico, só consegue ver no texto, pleno de vida e emoção, o cadáver frio em que pretende contar as vértebras e músculos inativos.
O ideal é valorizar todas essas possibilidades de convívio com a criação literária sem que nenhuma delas se sobressaia às outras. Desde que bem situadas, as variadas formas de interagir com a Literatura são válidas. Particularmente, penso que, no convívio com o fenômeno literário, o primeiro passo é ir ao encontro do sonho, da fantasia, do sabor do texto. Depois, a quem interessar outros vôos, basta mergulhar em busca do saber do texto. Nesse caso, se precisar de companhia, os teóricos da Literatura serão amigos surpreendentes.
Prof. Alan Oliveira Machado.

quinta-feira, agosto 31, 2006

CONVENIÊNCIA IDEOLÓGICA

A maneira como o governo federal vem administrando certos problemas de ordem internacional tem gerado bastante preocupação. O problema básico está no fato de o governo Lula colocar interesses ideológicos acima da soberania nacional. Não é difícil perceber que atualmente há um alinhamento ideológico entre os governos do Brasil, da Venezuela, de Cuba e da Bolívia. Não há problema algum em governos executarem manobras estratégicas para fortalecer seus parceiros políticos. Porém, isso se torna preocupante quando, em nome dessas estratégias, esses parceiros tomam decisões que lesam seus países ou ferem automaticamente a soberania dos demais.
O caso da nacionalização das reservas de gás efetuada por Evo Morales é o mais atual exemplo de violação de acordos diplomáticos que deveriam ser respeitados. Afinal, quando o governo boliviano baixou o decreto de estatização das propriedades da Petrobrás em seu país, ele não estava lidando simplesmente com uma empresa multinacional, mas sim com uma empresa estatal brasileira que, para efetuar qualquer contrato internacional com a natureza do que foi efetivado na Bolívia, do porte de $1.500.000.000 (um bilhão e quinhentos milhões de dólares), teve de executar intensa negociação diplomática e cumprir regras internacionais de comércio.
Longe de nós achar que qualquer nação não tenha direito de proteger aquilo que considera patrimônio estratégico de seu povo. Há um porém, entretanto: se o contrato foi feito seguindo corretamente as regras de comércio internacional, na época com consentimento de ambos os governos, o mínimo que um chefe de estado ideologicamente contrário à sua existência deveria fazer era convocar o parceiro comercial para rever as regras e propor uma saída honesta. Mas não, no melhor estilo do populismo golpista, Morales rasgou as regras da OMC e golpeou a soberania brasileira.
Contudo, o grosseiro da situação não foi só o arremedo de ação chavista/castrista de Morales, o absurdo de tudo foi a reação do governo brasileiro e aqui entra o lado prejudicial da conveniência ideológica. Nosso governo agiu com naturalidade, como se o dinheiro da Petrobrás, o patrimônio do povo brasileiro, portanto, significasse menos para nós do que o gás para os bolivianos. Ora, se é direito e dever do chefe boliviano defender os bens de sua nação, como nos fez crer Lula, não seria também direito e dever de Lula defender os nossos bens? Os bolivianos têm mais razão do que os brasileiros? Que ideologia é essa para a qual um caloteiro vale mais do que um cidadão honesto? Que ideologia é essa em que o bandido vira mocinho e o mocinho tem de ficar calado sob pena de virar bandido? HÁ BRAÇOS! Julho de 2006

terça-feira, agosto 29, 2006

FLORESTA SEMIÓTICA


Tudo é uma questão de desejo. Vivemos em uma floresta semiótica e o nosso desejo, sobre o qual quase sempre não temos domínio, constrói e edita as semioses necessárias para compor os nossos sonhos, independente de seus duplos negativos, de modo a nos manter aptos a continuar acreditando que vale a pena a existência. Aqui, temos de esclarecer dois termos: Semiótica e Semioses.
A Semiótica é a teoria geral dos signos, aliás, esse nome vem do grego semeion que quer dizer signo. Mas qual a importância de uma teoria geral dos signos? O que justifica uma teoria geral dos signos é o fato de o ser humano viver em um mundo eminentemente simbólico, ou seja, em um mundo composto por elementos aos quais ele deu sentido. É da natureza do homem atribuir significados a tudo que o rodeia. Isso se dá talvez porque sua fragilidade animal o fez apurar os sentidos para se proteger das incertezas ou ameaças do mundo. Assim, o homem desenvolveu as linguagens mais complexas do reino animal e edificou o mundo como linguagem.
A Semiótica investiga tudo que tenha significado, o processo pelo qual se chega ao significado. Ela começa com o elemento mínimo de significação que é o signo e há vários conceitos de signo. Os mais utilizados são: signo é alguma coisa que significa algo para alguém; signo é algo que está no lugar de outra coisa; signo é a união de um significante com um significado.
O primeiro conceito, de extração pierciana[1], nos remete ao caráter individual do processo de criação de significados: se alguém atribuir algum valor específico a qualquer objeto do mundo, esse objeto passará a ser um signo particular, ou seja, o objeto remeterá esse alguém ao valor específico e o valor específico o remeterá ao objeto. Uma vez socializada essa relação entre o objeto e o valor específico, tal signo passará a fazer parte da língua.Se o primeiro conceito de signo se centra na relação entre um alguém e um objeto do mundo, o segundo conceito[2], por sua vez, enfoca a relação entre o objeto do mundo e o valor atribuído a ele. Quando se diz que um signo é algo que está no lugar de outra coisa, na verdade se está dizendo que é impossível comunicar coisas de natureza distinta da linguagem senão mediante uma operação abstrata na qual um elemento lingüístico ocupará o lugar do objeto não lingüístico. Se, por exemplo, alguém diz: cadê o lápis? Certamente, o nome e o valor lápis estão no lugar do objeto lápis que é de outra natureza.
O terceiro conceito, de extração saussuriana[3], concentra-se no aspecto estrutural do signo, ou seja, o signo, no plano da linguagem, é composto por um significante, ou melhor, por um nome ligado a um significado e significado aqui é o mesmo que um conceito, uma idéia, um valor. Essa junção de natureza arbitrária, já que é afetada por semioses, impõe-se como elemento primário na formação de qualquer processo significativo.
O processo de comunicação e de compreensão ganha rarefação ou densidade a depender do nível das semioses. A semiose, segundo Pierce, é o processo dinâmico, gerador da interpretação, desencadeado pelo signo na mente do receptor. Nesse processo, o signo tem um efeito cognitivo sobre o interprete. Esse efeito cognitivo, que muitas vezes começa numa relação direta com um objeto e se estende até a abstração completa, é que gera a ilusão de compreensão.
Dadas as devidas explicações, voltemos a nossa questão central, qual seja, a de que vivemos em uma floresta semiótica e que o nosso desejo constrói e edita semioses de modo a nos manter presos à existência. Sim, o que há em torno de nós que não está sob o crivo do nosso julgamento, da nossa interpretação? Nada! Porque tudo a que dirigimos os nossos sentidos acaba entrando num processo semiótico ilimitado, infinito como o desejo. A todo o momento, então, estamos derrubando ou plantando árvores, colhendo significados em outras árvores que se emaranham e se entrelaçam na densidade da floresta simbólica. Colhemos apenas signos e construímos significados que vão compor a nossa acolhedora gleba, que vão nos territorializar com certa segurança. Isso não implica que a todo o momento os frutos sígnicos de outras árvores não nos tentem, não nos provoquem, não sejam atirados em nossa cara por outros habitantes da floresta, causando-nos terrível mal-estar. É possível também que abocanhemos frutos que nos tirarão o solo arremessando-nos ao desencanto e ao desespero ou configurando a realidade simbólica de forma agradável.
O desejo parece uma espécie de guia independente que nos conduz nessa floresta semiótica. A partir dele, como vontade afirmativa, reunimos elementos emotivos, culturais, condicionamentos psicológicos e situacionais que vão alimentar o fluxo de semioses. Esses elementos dão o tom das particularidades do ato interpretativo, formatam os interpretantes, e as particularidades geram expressividade variada, polissemia e paráfrase, além de equívocos e falhas de entendimento, entre outros pontos de deriva. Isso nos faz pensar que não há como separar desejo de linguagem. A impossibilidade de fazer essa secção nos leva a crer que toda produção de sentido, portanto, será aberta.
Se toda intervenção semiótica, melhor dizendo, se toda produção de sentidos é aberta, seu fechamento só pode ocorrer no plano do imaginário. Sob a égide do imaginário, transitamos pela floresta semiótica. Ele é o instrumento do desejo que, contraditoriamente, nos ajuda a compor a ilusão de ordem, de completude e de certeza[4]. Essa ilusão determina nossas atitudes, nossos encantos e desencantos. Compomos o mundo então como uma imensa tela linear e nos recusamos, ou resistimos ou evitamos vê-lo estilhaçado o tempo todo pelas contingências e pelo caos que constituem a realidade.
Cá para nós, meus amigos, a quem dediquei este tortuoso e precário texto, em que beco sem saída estamos metidos! Mas, animemos, pois o mérito de um texto não está tanto nas informações que ele transmite, quanto nas estimulações que ele cria.Há braços! alan oliveira machado, 2005.
[1] PIERCE, C. Collected papers. USA: Harvard University Press, 1931-58.
[2] Idem
[3] SAUSSURE, F. Curso de Lingüística Geral. São Paulo: Cultrix, 1995.
[4] Pelo menos na visão lacaniana , é da natureza do imaginário o recorte, o fragmento, a variação.

sexta-feira, julho 14, 2006

FORA DA TEIA


FORA DA TEIA

Esta é a nossa resposta aos ideais: exercitar a existência fora da trama dos conceitos, fora das narrativas niveladoras, armadas para apagar as singularidades, senão o tempo todo, pelo menos em momentos cruciais. Procuramos deixar a força desterritorializada dos desejos furar as teias da normalidade, rasgando o manto de ilusão que acoberta ou sufoca as diferenças e as incertezas.

Somos a força que luta para desgarrar o rebanho. Amamos as ovelhas negras, os malditos, os odiados, os gauches, pois sabemos que algumas vantagens eles têm com relação à massa domesticada: burlam uma ou outra regra; quase sempre se negam a engrossar o coro dos satisfeitos e não embarcam facilmente em delírios coletivos, produzidos pelas máquinas publicitárias do poder.

Pois bem, voltem e releiam com calma o que escrevemos, reflitam com cuidado. O que estamos dizendo é muito grave. Estamos sugerindo que o grande problema é a crença incondicional na linguagem. É a devoção cega aos efeitos de identidade e permanência que ela instaura no real, deixando-o cada vez mais distante.

A linguagem é a nossa Matrix, guardadas as proporções, ela é a nossa Caverna de Platão, e tudo o que fazemos é mergulhar cada vez mais nas sombras das paredes, mantendo-nos de costa para o caos, para as contingências do mundo real.

alan oliveira machado

quarta-feira, julho 12, 2006

MENDIGOS

Hoje, na saída do supermercado, estava lá prostrada na porta do estabelecimento, uma senhora com toda aquela semiótica de pedinte: olhos baixos e sem brilho, boca descaída, corpo curvado. Dei uma esmola, mas não tive muita necessidade de acreditar na encenação. Afinal, no Brasil, a desgraça é a coisa mais fácil de ser imitada, haja vista a profusão de exemplos reais. Depois, para quem leu com certo apuro o Anti-Cristo, de Nietzsche, mesmo que a cena fosse real a comoção se daria de outro modo. Nietzschianos não dão esmolas, lutam pela vida, mediante a afirmação da vontade de potência.
O que me pergunto é se realmente a esmola que as pessoas costumam dar para pedintes em portas de supermercados é para o suposto desvalido que ali se encontra ou para si mesmas... Para seus espíritos cheio de culpas, carentes, mendigos de gente. A pergunta complexa é exatamente esta: a quem se quer salvar com uma esmola? A si mesmo ou ao necessitado?
Há braços! alan

segunda-feira, junho 19, 2006

OS CAÇADORES DE MODÃO

OS CAÇADORES DE MODÃO

Lembro-me de que na década de 80 surgiu um, por assim dizer, movimento de juventude bastante curioso em Uibaí: a caça aos “modão”. Não houve canabrabeiro com hormônio correndo nas veias que não participasse com alguma assiduidade da cruzada de combate ao uso do mode. Deixo logo claro que esse fenômeno, em meu ver, se restringiu à cidade, não se estendeu, por conseguinte, ao município, felizmente.
O Mode é um vocábulo corrente em Uibaí, que muitas vezes funciona como elemento interrogativo (advérbio interrogativo): mode que tu num ganhou? Como indicador de causa (conjunção subordinativa causal): não teve festa mode a chuva! Outras vezes, como mera preposição: olha o menino mode o cachorro não morder! Não só o mode, mas o pissuir, o dispois, o muntcho, dentre uma série de termos ainda em uso na Canabrava, são remanescentes do Português falado no Brasil Colônia. Muitos desses termos foram preservados em alguns falares locais do país, devido ao isolamento de que gozavam esses logradouros, com relação aos grandes centros. Graças a esses rincões do país, que mantiveram vivas algumas marcas do falar colonial, é que a Universidade de São Paulo, unida a outros centros de pesquisa, vem conseguindo fazer a reconstituição do português falado no Brasil Colônia.
Não tenho certeza quanto à origem do movimento de combate ao mode. Tenho para mim que, influenciado pelo convívio com a variação lingüística da capital e pela recente entrada no mundo educacional da grande urbe, Celito levou esse (como diria Flávio) batismo civilizador para o Pé da Serra Azul. Era um escárnio atrás do outro. Na Rua Grande, diariamente se via Merica gritar para Celito do outro lado, na esquina de Diniz:- Acabei de pegar um modão aqui! Aí a molecada corria em direção a Merica para comentar e dar risadas do modão que Gilo, Zezim, Luis Binha, Maria de Alite ou qualquer outro que fosse soltara, numa infeliz distração. Infeliz porque falar um mode tornara-se crime punido com pesada gozação de modo que as pessoas afetadas pelos pegadores de modão vigiavam a própria fala o tempo todo.
Eu fazia parte da cruzada do modão e regularmente estava junto com a turma infernizando a vida dos conterrâneos. Uma vez Pichiro (irmão de Celito) chegou esbaforido lá na casa de Mariinha de Leandro, onde a turma se reunia para jogar aquele jogo com apenas uma trave, no qual Konan e Tinho eram campeões, só para dizer que presenciara Domingão soltar logo foi uma arrouba de modão. Todo mundo queria pegar um modão de tal forma que a brincadeira passou a ficar grosseira e desrespeitosa. Até os velhos estavam sendo perseguidos pela turma do modão. Com eles, a coisa era demasiado indelicada. Mas menino não leva muito em conta esses “detalhes”. Na mesma época dessa inquisição lingüística, Tinho de Mariinha, que externava certo desagrado com a perseguição dos mode, inventou uma moda de colocar a sílaba “pi” antes de tudo quanto é nome próprio. Era um tal de PiMérica pra cá, PiÁlan pra lá, PiCélito pra acolá... Ele só recuou de empregar o tal “pi” em Konan, nosso musculoso amigo. Também, ficava desajeitado chamar o cara de PiKonan.
Olhando a distância, com a maturidade trazida pelo tempo, diria que toda aquela implicância com o mode tinha dois lados: por um, não passava mesmo de algazarra típica de adolescentes, por outro, era uma versão agressiva do fenômeno de atualização da língua, que, no caso, deveria ir sendo estabelecido, não a troco de pressão e zombaria, mas paulatinamente com a renovação dos falantes, pela convivência com outras variantes do falar brasileiro e por intensas interferências culturais de ordens diversas. É isso, a língua muda com o tempo, e ainda bem que a gente também muda. Hoje, por exemplo, creio que, como eu, os colegas perseguidores dos modão sentem certo prazer em ouvir uma seqüência de mode brotar daquela forma gostosa, simples e natural que nosso povo tem de falar.
Enquanto ponho fim a esta curta ponta de memória, fico pensando no que a juventude anda aprontando nos tempos de agora em Uibaí. Será que são tão inocentes quanto nós fomos, hein, Celito? (alan oliveira machado)

sexta-feira, abril 28, 2006

MEMÓRIAS DE UMA RUA ABANDONADA



Aos eternos moradores do Cascalho

O Cascalho é uma rua curiosa. Por um momento a gente pensa que ela é extensão da Rua Grande, já que o leito do Riacho Canabrava atravesa a Matinha e segue sinuoso pelos fundos dos quintais até despontar lá adiante próximo à entrada do Cancarote. Se realmente fosse a continuidade da Rua da Igreja teríamos de dizer, para fazer justiça, que ela é a continuidade abandonada em todos os sentidos. Entretanto, como todo abandonado aprende a sobreviver, a gente vai ver que o Cascalho sempre teve abundância de vida e de tudo.
Até os anos oitenta, quando o candeeiro ainda era uma necessidade para muitos, o cidadão podia encontrar na esquina do prédio velho, a fábrica de seu Zuza Flandeiro sortida de vários modelos dessas rústicas luminárias. Podia também encomendar roupas da moda à costureira Bernadete. Descendo mais um pouco, ao lado de Belita de Ricarte, quem precisasse de algum móvel poderia encomendá-lo na marcenaria de Argeu. Passando uma ou duas casas havia a sapataria de Mané Sapateiro, aliás, a rua contava ainda com a sapataria de Garibalde, em frente à casa de Sinezão.
Tamboretes tembém você encomendava no Cascalho, lá na tamboreteria de Deblande, em frente á casa de Dona Maroca. Ali se encontravam os mais resistentes tamboretes feitos de são joeiro maduro. Deblande, com mais de um metro e noventa de altura, nas horas vagas atuava como juiz de futebol, no único campo da cidade, também privilégio do Cascalho. (nessa época ainda nem existia o Betonicão, lá na saída pra Hidrolândia) O filho da velha Cândia era um juiz desprovido de apito, mas durante o jogo carregava uma peixeira feita de Corneta engastaiada na cintura, proporcional ao seu tamanho. Mediante aquela prova concreta de autoridade, ninguém questionava a arbitragem. Quem teve o prazer de assistir aos sensacionais jogos do Fluminense de Uibaí, com Chiquinho de Jaime no gol, Sinozinho, João de Odetina, Quinquinha no ataque e Chiquinho de Paulo zagueirão, principalmente aos treinos, sabe do que eu estou falando. Suspeito que Deblandão só atuava nos treinos.
Desculpem-me a irresistível digressão, estava falando de tamboretes. Pois bem, quem não quisesse os tamboretes de Deblande poderia encomendá-los em Leno Sanfoneiro, mais embaixo, próximo à casa de Domingo Dodô, este, um maluco que descia o cascalho com uma bicicleta barra circular em toda a velocidade, atravessando tudo quanto é batume de mato, indo parar na porta da casa de Leno, com os dois pneus furados, cravejados de espinhos de malva de garrote. Era uma diversão meio sem lógica, mas a gente sabe que maluquice dispensa lógica. Voltando novamente aos tamboretes, Leno, além de fabricar esses importantes utensílios, ainda fazia a fezinha na sanfona, animando uma ou outra farra.
Tanto da casa de Dona Maroca quanto do ranchinho de enchimento de Jubilino, criador de toda espécie de pássaro canoro, dava pra ver quase que frontalmente, entre a saída para o Janjão e a entrada para a Veredinha, a venda de Dona Antônia, mãe de Marinezão e Tineco, entre outros. Era uma birosquinha, mistura de venda e bar. A velha administrava a família com pulso firme, num sistema de matriarcado absoluto. A ela pertencia ainda a única casa de farinha da cidade, também no Cascalho, pouco abaixo do Curral da Matança, do outro lado da rua.
O Curral da Matança era um curral velho feito de madeira de lei no qual os bois ficavam recolhidos esperando o abate. Dia de abate dava uma mistura de medo, prazer e aventura ver aqueles bichos furiosos, como que pressentindo a morte, sendo laçados pelos vaqueiros Jaimim e Domingo Paieiro. A meninada ficava atônita diante de homens domando a força bruta, com igual brutalidade. Tudo ali no Cascalho, o bicho imobilizado levando uma machadada no cachaço ou um tirão de rifle bem no meio da testa.
Subindo a rua, a partir do Curral da Matança, ao lado da casa de Deblande, havia o chiqueiro de Verneú, um criatório grande que misturava caprinos, ovinos e porcos de raças variadas: Duróc, Piau, Baé, Beradeiro. O cheiro não era dos mais agradáveis, porém, em manhã de venda e capa de porco era divertido ficar trepado na cerca de sisal vendo os homens estabanados atrás dos bichos. João Capa Porca afiando o canivete e os gritos do suíno sendo emasculado ou esterilizado.O porco sem bagos saia meio envergonhado e a porca sem ovários meio esguia e acanhada. Na pesagem havia cada porcona de quinze arroubas desafiando os pesos da balança que era de se admirar. Hoje, a travessa que liga o Cascalho àquela construção faraônica inacabada, que dizem ser de um ex-padre, ocupa exatamente parte do espaço do antigo Chiqueiro de Verneú.
Mais acima, muito depois da casa de Dona Nair de Valdivino, onde de manhã cedo se buscava o leite fresquinho saído da ordenha, quase no meio da Rua do Cascalho, tínhamos o mais generoso pomar de Uibaí, a casa de Dona Mariinha de Leandro, com um cercado imenso sortido das mais variadas fruteiras. Na casa da bondosa e paciente Dona Mariinha sempre era tempo de alguma coisa. Quando não era de manga, era de pinha, quando não tinha pinha, tinha caju ou serigüela ou côco. A meninada se fartava em cima dos pés de manga-mamão, nos pés daquela manguinha miúda fiapenta e deliciosa, debaixo dos cajueiros ou atirando pedras nos coqueiros muito altos, em busca de cocos velados.
Para quem achava que a vida não deveria ter muita graça numa rua abandonada como aquela, aviso agora que nem falei do parque de vaquejadas que existiu por ali, nem do alarido de carros e cavalos com toda sorte de gente vinda dos povoados no dia da feira. Nem das manadas bovinas que se encontravam a caminho do pasto, obrigando os marruás dos rebanhos a encenarem um espetacular duelo de chifres e forças em plena manhã de primavera. Nem das vacas paridas escorraçando transeuntes desavisados e botando gente nos pára-peitos de portas e janelas; nem em Zé de Nica cantarolando pela rua suas canções de Roberto Carlos, alheio a tudo e a todos ou em Hora é Esta, saudoso personagem, entoando diuturnamente seu refrão, como um relógio cuco: -A hora é esta! Ou em Seu Genéis, pai de Dona Zilda e de Dimari, um homem de força descomunal que, já sexagenário, arrastava Cascalho acima uma árvore seca inteira, trazida sabe-se lá de qual distante capoeira, para cortar no machado diante do ranchinho em que morava; ou no negro Soizinha, pagodeiro, cheio de manha africana e superlativos, figura simpaticíssima. Muito há do que se falar sobre aquela rua de minha infância e adolescência, a única atualmente a contar com juazeiros frondosos a derramar suas sombras frescas sobre o abafado da tarde.
O nome pomposo de general, o povo rejeitou e fez bem. Rua que tem vida não merece nome de general, a bem da verdade, nome nenhum que cheire a imposição. Rua que tem vida se autonomeia. E é isso que acontece, não se vê gente falando na rua General Costa e Silva. Prefere-se a metonímia feita da matéria que talvez mais importuna o povo: o cascalho pedregoso que levanta uma poeira branca e incômoda, a medida em que os carros vão passando. Eis a Rua do Cascalho que também aceita ser chamada de Rua Pé de Galinha, nome inventado por Ri de Valdivino, quando este observou corretamente que a rua se abria como um pé de galinha: um dedo seguindo em direção ao Mane Janjão, outro seguindo para a Veredinha e um último indo rumo a Boca Dágua.
(alan oliveira machado, abril de 2006)

domingo, abril 16, 2006

VIVA A INQUIETUDE!

ALAN OLIVEIRA MACHADO A SEU DISPOR!

Meus amigos, afetos e desafetos, neste momento abro mais um espaço para a agitação, porque quem fica parado é poste ou mijador de cachorro. O objetivo deste espaço é criar uma interação mais íntima como meus amigos, amigas e conterrâneos. Criar uma interação que, pontuada por questionamentos, dúvidas, perturbações de ordem variada, acirre em nós os conflitos, gerando teses, antíteses e sínteses ou simplesmente linhas de fuga, tangentes, intensidades, nomadismos, bricolagens... Este espaço é pra pulsar! latejar! ferver, fazer máscaras balançarem ao sabor da existência e de todas as facetas que ela nos oferecer.... HÁ BRAÇOS alan

quinta-feira, abril 13, 2006

BAR CULTURAL (12 de abril de 2006)

BAR CULTURAL

Para Helga Oliveira Machado.

Esta é uma daquelas idéias que a gente se sentiria feliz se alguém copiasse e saísse à frente para realizá-la. Imaginem comigo a existência de um singelo imóvel na Praça Velha ou Nova de Uibaí com o nome Bar Cultural, acompanhado das subscrições: Aqui você pode encher a cara de conhecimento! Aqui você pode indagar o quanto quiser sobre a existência, sobre o mundo, a vida, o amor, a arte... E não precisa pagar a conta!
O bar seria tradicional, quer dizer, com um vão cheio de mesas, tendo ao fundo o balcão. Por trás do balcão, o atendente pronto a servir os freqüentadores. Nas paredes, no lugar de cartazes de loiras oferecendo cervejas, teríamos cartazes de escritores e escritoras das mais distintas lavras. Nas prateleiras, em vez de bebidas variadas, livros e mais livros. Livros, livros, livros... De todos os calibres! Literatura: poesia, romances, teorias literárias; Filosofia em variadas correntes, Política, Antropologia, Psicologia, Psicanálise Lingüística, Semiótica e demais ciências humanas; curiosidades, cultura mundial, e mais e mais e mais...
Então, me acompanhem, caros leitores, nessa viagem imaginária: entra um velho freguês no bar e o atendente corre ao encontro dele:
- Vai de que hoje, seu Gleissom?
-Hoje não estou bem, quero encher a cara de Fernando Pessoa. Traga aí uma dose bem grande do Livro do Desassossego e uma porçãozinha de Cioran para tirar o gosto!
Aí o atendente, como todo bom barman, dá aquela sugestão eivada de experiência:
- Pelo seu estado, eu recomendaria uma talagada sarada de O Guardador de Rebanhos! E Cioran já foi servido na mesa de dona Daiane, ao lado. Temos como alternativa As Dores do Mundo, de Schopenhauer, que está desocupado ali na mesa de Popoca. Se não for do agrado, o senhor poderá escolher aqui no nosso cardápio algum escritor ultra-romântico como acompanhamento.
No Bar Cultural seria assim, no dia em que o Clube Canabrava anunciasse uma Noite de Seresta, o bar anunciaria uma Noite de Machado de Assis. Na semana em que o Voz do Povo anunciasse o Baile da Saudade, o bar anunciaria o Corpo de Baile, de Guimarães Rosa. Na medida em que nos outros bares se toma uma ordinária Seleta, no Bar Cultural se consumiria a melhor Seleta de Drummond, a Seleta de Bandeira, a de Ruben Braga, a de Mário, a de Oswald, a de Manoel de Barros, a de Leminski, entre muitas opções. Lá estaria sempre acessível a melhor safra de Cecília, Clarice, Raquel, Lígia, Ana Cristina César... Isso sem contar com as Raízes locais: Pita, Enoch, Valmir, Bebeto, Pedro Lopes e aqueles miseráveis do Boca do Inferno entre tantos.
Esse bar seria a salvação? Claro que não, mas muita gente sairia Em Busca do Tempo Perdido ao descobrir que Proust cura qualquer dor da alma, que Cecília faz flutuar, que Manoel de Barros nos recriancifica. Que Dostoiévski limpa mais o espírito do que uma garrafa de Chave de Ouro. Aliás, chaves de ouro só estariam mesmo à disposição nos sonetos parnasianos oferecidos de brinde aos freqüentadores da casa.
Aí, todo dia teríamos o bar cheio. O enleio, o eu leio. As mesas propagando doces e barulhentas indagas; e recitais e happenings e delírios e risadas e suspiros... Nos arranca-rabos, muitos palavrões e quão divertidos de se ouvir: Seu sartriano maluco! Sai pra lá com sua ambigüidade machadiana, liliputiano duma figa! Não suporto esse seu bovarismo! Trator cartesiano! Niilista! Balzaquiana indigesta! Desapareça com esse caráter macunaímico! Isso é um delírio foucaultiano, uma fraqueza pós-estruturalista! Uma frigidez positivista. Filhote de Maquiavel, terrorista bakuniniano! Macaquinho pós-moderno, pereba edipiana! Isso é delírio interpretativo... Seria divertido sim, porque as pessoas certamente não seriam mais as mesmas e toda a hostilidade não passaria obviamente de um jogo: o gozoso jogo do saber, do saber-se. O Ensaio Sobre a Cegueira. O ir do verme ao ver-me, o transver, o desver... Seria um sonho muito bom.
Pois bem, amigos leitores, antes de escrever este texto havia tomado uma boa dose de Eça de Queiroz. Tinha consumido avidamente o conto José Matias. Sei que não tem muito a ver (ou teria?), mas experimentem. Se for convincente a gente coloca no cardápio do Bar Cultural.
Há braços! (alan oliveira machado)

sexta-feira, abril 07, 2006

COMIDA DE ONTEM - I

SORRISO NEGRO (Cartas escritas a Lívia, Aline e Flávia em 1996)

Certo dia, aqui no quarto da Ceu-3, afagávamos idéias despropositadamente quando um colega me presenteou com uma investida interessante. Ele falava: Você já reparou no sorriso dos negros? Os negros sabem sorrir. Quando sorriem, suas almas como incenso mágico exalam e contagiam tudo ao redor. Não consigo captar isso nos brancos. Eles sorriem em parcela, como se estivessem perdendo uma parte de si. O sorriso dos brancos denota avareza...
Eu guardei isso na cabeça, até que comecei a reparar no sorriso dos negros africanos com os quais convivo na universidade. Fiquei perplexo. É verdade. Há algo de mágico no sorriso negro. Num primeiro momento quis me enganar achando que podia ser o contraste de cores entre a pele e os dentes brancos, o motor de tal impressão. Desisti, não podia ser isso. Concluí, ao resgatar na memória o sorriso de Grande Otelo nas chanchadas de Atlântida, o sorriso de quem agradece aos céus de Stevie Wonder, as eventuais gargalhadas de Ray Charles ao piano... Não, não podia ser. O sorriso dos negros tem uma totalidade mística. É onipotente assim como Deus. Quando eles sorriem Deus se manifesta.
Estive constatando, na convivência com os africanos, que as religiões “antigas” da África, aquelas que elegem o corpo humano como a casa dos Deuses, têm uma influência muito grande, apesar das colonizações, sobre a vida deles. Eles tratam o corpo como se fosse uma coisa sagrada, uma igreja. São sempre bastante vaidosos: andam bem alinhados, com uma elegância em cores, penteados e indumentárias que chega a soar esquisito para nossas paupérrimas cabeças, acostumadas a associar negro à pobreza e marginalidade. Mas, pouco importando o que os outros (nós) podem pensar, estão eles assim, sempre imponentes nas suas excentricidades.
Do mesmo modo que as igrejas de Salvador comunicam a imponência do Deus Cristão, os corpos negros africanos, opulentas esculturas de ébano, são frutos – quem sabe – dessa religiosidade ancestral e atual que resistiu a todo o processo de colonização da África. E eu me pergunto, onde entra o riso nesta história? Justamente aqui: tudo que vem de Deus tem que ser poderoso, infalível, perfeito, contagiante. Daí aquele riso sagrado de Louis Armstrong ser o que é. Se avaliarmos a totalidade, não só o riso, mas a música negra, a dança, os rituais e demais manifestações são inefavelmente belas e fortes. São experimentações do êxtase divino.
Aquieta diacho com tanta puxação de saco! (há, há, há, há,). Eu brinco, porém falo de coisas que volta e meia ascendem a sensibilidade. Não são só os africanos que têm essas coisas culturais (o que todo mundo sabe). Esses dias estava lendo sobre os Etruscos e inclusive me identifiquei demais com os costumes. Era um povo muito corporal, pelo que parece vivam o presente com intensidade. Assim como os Etruscos, existiam os Trácios, povo festivo e somático. Há até suspeitas de que o mitológico culto a Dionísio (Baco) surgiu com os Trácios: eles faziam constantes festas com cantos, músicas, comidas e sexo rolando a torto e a direito. A maior orgia. Dizem que essas celebrações eram realizadas em cumes de montanhas, durante todo o dia. No frenesi as pessoas alcançavam uma espécie de transe. Atribuíam esse transe à manifestação do Deus Dionísio no corpo das pessoas.
Mudando de pau pra cacete, recebi sua carta minutos após terminar a leitura de Metamorfose, de Kafka. Porra o livro é angustiante, mas nunca vi leitura tão instigante. O interessante é que a carta coincidiu com o clima do livro: solidão e miséria existencial. Na novela de Kafka, Gregor Samsa, o personagem central, é um caixeiro viajante mecanizado do qual depende uma família ociosa: mãe, pai e irmã. Certo dia esse tal Gregor acorda metamorfoseado em um grande e repugnante inseto, ao que parece, uma barata. A partir desse momento a família se põe a trabalhar já que não tem o filho para a sustentar. Gregor não perde a sua consciência humana o que gera um conflito terrível com a sua asquerosa condição de barata. Na verdade são dois conflitos. Um interno e o outro externo, com a família que o isola no quarto, na mais profunda solidão. Kafka narra de forma cruel e implacável a história da família de Samsa.
No embalo da leitura de Metamorfose, quando li no primeiro parágrafo da sua carta aquela descrição dos “ripongas” no quarto, só consegui imaginar o quarto de Gregor cheio de baratonas iguais a ele, refugiadas na impossibilidade de se relacionar com o mundo humano. Impotentes e absurdamente perdidas em seus medos. Já havia inclusive tentado refletir sobre isso. O Movimento Hippie teve cabeças e idéias brilhantes. Cabeças e idéias que mudaram o nosso modo de ver o mundo. Só que, como todo movimento, quando atingiu a massa, apodreceu. Tudo quanto é doente, tudo quanto é burguesinho revoltado quis ser hippie. Não por convicção ou por ideologia, mas por incompetência para enfrentar seus problemas, para resolvê-los. Por covardia, quem sabe.

O Movimento Hippíe virou um grande “sanatório” e até hoje tem gente que foge dos seus problemas num estilo de vida semelhante. O pior é que esses pobres diabos não sabem nem o que é Beat Generacion end Drop Out.

Nada me preocupa tanto no momento quanto a situação de Zé Ipê*. Não que eu queira fazer alarde, é que a gente sempre quer ver o pessoal que a gente ama numa boa. Fiquei sabendo que ele caiu fora de Salvador. A família canabrabeira, não obstante a boa aparência, tem uns problemas de formação de personalidade fodidos, que a gente precisa estar prestando um pouco mais de atenção.
O pessoal cresce e continua convivendo com conflitos edipianos. Se a gente for pensar pela ótica de Félix Guattari e Gilles Deleuze em o Anti-Édipo, nosso pessoal que sem cessar põe panca de progressista, e outros istas, cai numa tremenda contradição. Guattari e Deleuze sustentam em o Anti-Édipo ao contrário de Freud, que o triângulo edipiano não é uma coisa natural da formação humana. Mas sim da formação burguesa. Acaba sendo um mecanismo de formação do comportamento do indivíduo ideal do sistema. Para os dois filósofos, então, o Anti-Édipo seria o tipo de indivíduo autenticamente revolucionário. Ele não faz as coisas porque a mãe quer, o pai quer, o Estado ordena, a igreja, a escola... E sim porque sente necessidade interior, vontade própria. O Anti-Édipo seria o esquizofrênico. Não aquele que está fora da realidade porque é doente, porque não tem capacidade para enquadrar-se nela e sim aquele que está fora dela porque quer estar, porque satisfaz seus desejos próprios; vive em consonância com seus impulsos e não alimenta os conflitos criados pelo policiamento da sociedade burguesa.
O que eu imagino é que o nosso pessoal avança, mas na hora em que surgem os conflitos morais burgueses, que inclusive boa parte das vezes são inconscientes, ele não consegue compreendê-los, e não tem clareza suficiente para enfrentá-los. E aí começa a depressão seguida de fuga para outra forma de vida que acredita ser diferente ou que alivia: o colo da mãe, o mato, Uibaí... Alguns, sem muito sufoco, enquadram-se de vez no Sistema. Outros ficam estilo Paula Bela*, um tempo santa e um tempo puta... (eterna oscilação). O que é pior de tudo isso eu não sei.
Quando em perguntam qual é a saída eu respondo sem titubear: autoconhecimento meu velho, autoconhecimento! As pessoas nunca vão saber combater ou lidar com a moral burguesa (e tudo de comportamentos nocivos que ela gera) sem saber o que é moral burguesa neles mesmos. Os conflitos edipianos, enfim os valores familiares são cristalizadores dessa moral, desse Sistema. A gente precisa saber o que há de nocivo no Sistema e quanto dessa nocividade trazemos em nós, para podermos ir superando aos poucos, sem nos violentar, não é?
Há tantos exemplos disso. Vejamos um: a necessidade de ser aceito pelos outros é normal, mas temos que nos auto-regular, regular a ansiedade, aprender a nos ver, a ver quem é o outro para que nossa necessidade não se torne uma obsessão, uma patologia tal como a gente vê por aí: um monte de vermes, se submetendo a qualquer coisa para ter a atenção de alguém. Algumas obsessões também produzem uma necessidade de privatizar as coisas, sejam elas pessoas ou objetos, gerando em conseqüência um autoritarismo e um abuso de poder tão desgraçados, não é mesmo?
Por fim, escrevo apenas conjecturas, indagações sem nenhuma preocupação teórica. Acho que isso precisa ser feito. Temos que correr o risco de pensar sobre isso constantemente. O contrário nos aproxima da possibilidade de perder a saúde e vermos, sobretudo, nossos amigos, nossos queridos amigos se perderem na depressão e no desvario. Ninguém, isso é certo, quer repetir aquela velha declaração de Allen Ginsberg: “Vi as melhores cabeças da minha geração serem destruídas pela loucura.”
alan oliveira machado, junho de 1996.

OS OUTROS, O INFERNO
Caras amigas, aqui estou novamente, no exercício da escrita. Desta vez, no entanto, despreocupado com os rótulos de pessimismo ou otimismo. Rótulos são apenas rótulos, quando se quer. Preocupo-me tão somente em externar minhas inquietações. Talvez isso não interesse a vocês, mas como vinha refletindo tempos atrás: nesses dias de hoje o refúgio de quem pretende ser ouvido ou lido é a carta. Pelo menos que eu saiba, as pessoas ainda não se negam a ler uma carta recebida. Negam-se a escrever, mas ler, ainda o fazem com alguma satisfação ou ao menos por curiosidade.
Antes de mais anda gostaria de dizer que estou um pouco atordoado, é que o quarto ao lado roda música sertaneja em alto volume boa parte do dia. Neste período de greve, então, o agroboy vizinho se entrega a sua bitolação sonora e a violência agride triplicadamente os meus tímpanos. Como é triste a massificação. Essa massificação é a coisa mais agressiva que eu já experimentei aqui por essas terras de pequi, arroz e bosta de vaca. (o exagero faz parte do momento). Pode ser a música mais agradável do mundo, se repetida de forma tão exaustiva como o faz a mídia, a porra se torna tediosa e repugnante. Nesse caso minha tendência é agir quase como aquela criança que ganha o brinquedo novo, usa, abusa, desmonta, se diverte com os pedaços e depois os abandona em qualquer lugar, saindo em seguida a caça de novos prazeres. Obviamente não é o que acontece com o meu vizinho. Depois disso fica fácil entender porque. Sartre disse que “o outro é o inferno”. Ele devia ser vizinho de algo semelhante ao agroboy aqui do lado. Falo assim, mas quem me garante que eu não sou o inferno de um monte de gente por aí? Na verdade todos nós trazemos conosco uma infernidade: nossas peculiaridades, essas fagulhas que fazem com que os humanos não sejam nunca iguais. Os vírus que “adoecem” por dentro as idéias totalizantes, as massificações, as idealizações que criam uma falsa realidade. Esses dias eu vi um exemplo disso lá em Brasília. O governador no meio do povo com aquele acesso de populismo: um abraça-abraça, um pega-pega, “governo popular”. Uma velhinha sexagenária, sabe-se lá como, ao abraçá-lo quebrou um ovo podre na cabeça do homem e o sacana virou para a câmera com um sorriso amarelo e disse: “ovo é bom pro cabelo”. Mas ele se esqueceu, na hora da desculpa, de que era careca. E eu penso cá comigo: essa velhinha sexagenária não é única e original? Ela, botando sua infernidade para fora, não se tornou o inferno do governador? É evidente que sim. Ela não é pior nem melhor do que ninguém, como todos nós ela é única.
Tudo isso é vulnerável a discursos moralizantes. Tudo isso dá espaço para quem quer destilar um pouco de moral, nem que seja clandestinamente escondida nas gavetas das palavras, frases e orações. Minha desconfiança não é gratuita. Ultimamente ando meio arredio á “moral”. Todo tipo de moral. Seja moral dos instintos, budista, cristã, islâmica. Mas devo reconhecer que minha recusa maior pousa sobre a moral cristã. Não sei aonde encontro tanta energia para pisoteá-la. A moral é um dos refúgios da decadência. O decadente é niilista, não no sentido comum, ou seja, aquele que não acredita em mais nada, mas no sentido filosófico, quero dizer, aquele que não crê no que está aqui, no real, no que se oferece. Nesse sentido, as religiões, a moral, as utopias são niilistas na medida em que idealizam o mundo, a vida, o ser humano. O homem, por exemplo, deixa de ser carne e osso e passa a ser conceitos morais, virtudes, espiritualidade. Já que o homem é isso, o que não tiver esses atributos de humanidade pode ser dizimado, hajam visto os Carandirus, as Candelárias, para não falar dos sem-terras, das Bósnias e Chechênias da vida. Quem não sabe que o mito religioso do paraíso sempre foi um grande motor da negação da realidade crua e nua? Tem coisa mais desgraçada do que "trabalhar, pensar, sentir, sem necessidade interior, sem uma profunda eleição pessoal", sem prazer, como autômato do dever? Isso é a cara da decadência. Mais precisamente, a receita para a imbecilidade. Fernando Pessoa não me deixa mentir, (esse poeta genial sabia muito bem o que estou falando). Basta ler a poesia Tabacaria que ele escreveu, vocês perceberão. Transcreverei apenas um pequeno fragmento: “Escravos cardíacos das estrelas, conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama; Mas acordamos e ele é opaco. Levantamos e ele é alheio. Saímos de casa e ele é a terra inteira. Mas o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.” Tudo é tão grande que há tanta concretude, mas por força de alguns “valores” (o valor: mais uma vez uma coisa intocável, impalpável, abstrata.) nos recolhemos como caramujos para dentro de nossas mansardas e ali alimentamos o medo da nossa transitoriedade. Ficamos esperando a eternidade e fenecemos como tudo fenece, mas não igual a tudo que fenece. Heráclito tem a mais bela e irrefutável premissa: “A única coisa permanente no universo é a mudança.”A decadência nossa reside também em esquecer essa lição sábia. Pois eu digo o seguinte: tem horas que eu não consigo me ver (ou nunca consegui) . Essas horas são o espaço da transição. Diante disso posso me intitular como habitante da transitoriedade e com isso inauguro a impossibilidade de me conhecer senão como processo. Nietzsche chama corrompido, seja um animal, seja uma espécie, a um indivíduo que perde os seus instintos, que escolhe e prefere aquilo que lhe é prejudicial (...) Para ele a própria vida é o instinto de crescimento, da duração, da acumulação de forças,... Está coberto de razão, talvez se não tivéssemos Cristo como exemplo e o cristianismo como inspiração para viver, seríamos outra forma de gente, menos cabisbaixa, exaltadora da miséria como purificação. “Só os pobres irão para o céu”. Todo mundo brada isso por aí, pois neste caso não vejo a hora de ir para o inferno. (Amém, há, há, há, há, há,...). Beijos: alan, julho de 1996
OBS: os nomes com asterísco são fictícos e substituem os reais.

quarta-feira, março 29, 2006

BRIGA DE COMÉRCIO

BRIGA DE COMÉRCIO

(Essa é para o folclore canabrabeiro!)

Contam que lá pras bandas do Sobreira só tem um boteco. O incutimento dos pés-de-cana e até dos mais sérios homens do povoado é o bar do Quinca. Quinca, sempre atencioso, recebe diariamente seus fregueses: uns a caminho da roça, lascam uma pinguinha nos peito pra espantar o sono e ganhar disposição; outros, em retorno, quebram um venenozinho pra abrir o apetite e espantar o cansaço.
Falam as más línguas que Priquitim anda tocando uma roça nas imediações. Dizem ainda os que não tem mais o que fazer que ele bate perna diariamente pro bar do Quinca. E, desocupados de tudo, esses infelizes, que vivem dando conta da vida alheia, espalharam que Priquitim nem não acha ruim atravessar o asfalto pra saciar suas inquietações etílicas. O problema é quebrar carreiro de volta com o sol cozinhando o couro e o álcool fermentando nas veias.
É também narração de fofoqueiros que Priquitim, cansado de secar canela, indo pro Quinca, deu na cabeça que o Sobreira precisava de um boteco concorrente. Aí, no gozo da conveniência, montou estabelecimento na própria roça, beirando o asfalto e abriu letreiro: Bar do Priquitim. O empreendimento dividiu a freguesia do Quinca e gerou acirrada disputa publicitária entre os dois comerciantes. Priquitim, sujeito pacífico, tratou de baixar os ânimos, de selar a paz definitiva.. Mandou Nino Lima pintar uma grande placa na porta do bar, com os seguintes dizeres: SE NÃO QUISER TOMAR NO PRIQUITIM, VAI TOMAR NO QUINCA!
alan oliveira machado

sexta-feira, março 10, 2006

O ESCREVIVER DE VITOR HUGO MARTINS

inquieta serra azul

Segue abaixo o texto que escrevi para a orelha do livro do Prof.Vítor Hugo Martins. Vale a pena ler o premiado livro Contos Cardiais.



Vitor Hugo Martins, esta figura camoniana por trás dos óculos escuros, perspicaz, carioca, é uma personagem rara dentro do nosso mundo acadêmico. Conjuga o rigor teórico, apolíneo, do Doutor, com a embriaguez, o desprendimento dionisíaco, do artista. Com a existência e a persistência desse homem, a Academia, muitas vezes ascética, fria e fechada, ganha por dois lados: por um, o professor competente e cativante, demasiadamente humano; por outro, a literatura refinada, de alta qualidade. Quem até então só conhecia o professor, a pessoa, verá, neste CONTOS CARDIAIS, o criador, o homem que luta com as palavras, luta vã, diria o poeta das epígrafes, mas infinda, inquietante e necessária como a vida.
Vitor Hugo é um flâneur, bem no sentido que dá João do Rio ao termo. É aquele andarilho inteligente, com o coração aberto ao mundo, às singularidades das vivências. Esse vagamundear certamente se reflete neste seu bem tramado livro de contos. Aqui, um périplo pelos cantos cardeais do Brasil se converte em CONTOS CARDIAIS, referentes ao coração. E este às vezes se avoluma, outras se apequena diante da força existencial de suas personagens, predominantemente gauches, de têmpera sangüínea, dionisíaca. Assim, vai-se enfileirando de conto a conto, de canto a canto, esta gente excluída, esta gente carnal, esta gente da margem: Divino, Diana, Gringo, Bonito, Bernadete, Ancila...
Porém, mais do que um desfile de almas, temos em CONTOS CARDIAIS o saboroso texto de um exímio escritor, de um perito na lida com a língua. No contato com o escreviver deste mestre, nos damos conta de que a verve, o estilo vitor-huguiano é fruto de profunda consciência de linguagem, da palavra, diga-se. Isso é o que denuncia a sua prosa paratática, picada, que se esquiva dos verbos, forçando o substantivo, o nominal, a ganhar efeitos inusitados, mediante hábil manipulação metabólica ou semântica. Ademais, com a mesma perícia que atribui ao seu “Divino 45” no estudo das vítimas, o autor se apropria, ainda, na medida certa, de bossas e tiques que dão a cada narrativa, situada regionalmente, um agradável colorido local.
Um livro de primeira, vibrante, rápido, é o que este deambulador (insaciável) nos entrega. E aqui temos, muito mais que o deleite, a sorte de apre(e)nder o mundo, a língua... Viva, vivíssima.

Alan Oliveira Machado
Poeta e professor

Goiânia, 14 de novembro de 2005.

sexta-feira, março 03, 2006

SÓ SE FOR ROUBADO!

( pra lembrar os velhos tempos!)

Guardo comigo a impressão de que os anos oitenta foram o auge daquela juventude universitária, inclinada ao copo, que atravessava as férias enxugando umas pelos butecos da Canabrava. Volta e meia essa estudantada se reunia em um barzinho específico, proseando sobre política, cultura entre outras variedades. Os estudantes, uns vindos de Salvador outros de Brasília, formavam uma verdadeira irmandade, com muita alegria, discussão e praticamente nenhuma desavença.
Houve um final de ano, especialmente, em que tava na moda roubar galinha pra fazer farra. Fato é que esses jovens adotaram tal prática e quase toda noite, lá pras tantas, a coisa se concretizava. Era assim, a turma se encontrava numa dessas biroscas pra tocar violão e comer água; prosear e contar causos, molhando a palavra e estalando os beiços, segundo alguns. A certa altura, um pouco depois das 23 horas, 32 pingas e algumas dezenas de cerveja, escolhiam a casa da vítima. Em seguida, determinavam quem iria seqüestrar irreversivelmente os galináceos e os que preparariam o banquete, a farofada de feijão verde ou andu. É de se imaginar o cheirinho de coentro e cebolinha roxa que exalava misturado ao aroma da penosa devidamente preparada. Isso tudo bem mexido numa bacia de tamanho razoável, com o grupo em volta comendo, feito tapuia, bolinhos amassados à mão e resenhando os incidentes e percalços do empreendimento bem sucedido.
Vale dizer que esses exímios ladrões de galinhas assaltavam geralmente suas próprias casas. Havia, porém, os que compravam as aves na feira, preparavam e levavam na noite seguinte já com o enredo do roubo inventado na cabeça. Sem contar que determinadas mães, escoladas nas habilidades dos filhos, sutilmente deixavam as galinhas amarradas pra facilitar o furto.
Vai que um dia eu, menino curioso, sempre na cola da novidade que eram os estudantes, testemunhei uma empreita desastrada. Lá pelas três da madruga, no calor da algazarra, neguim já cantando serenô eu caio, eu caiô, mais em espanhol que em português, como se diz: com bolas de gude debaixo da língua, um parente meu, cheio até a tampa, intimou o bando a roubar uns patos lá em casa. A intenção era comê-los no Banheirão. Ali num canto, apertando os olhos pra espantar o sono, eu ouvia o planejamento da turma numa linguagem meio babelesca, ao que parece, bem entendida por quem encontrou a molhação. Moleque. Ignorado. Um cisco... Ainda assim, por trás da leve cortina de sono, eu não ignorava o belo sorriso maroto de uma certa Lúcia.
Não durou muito, a cambada desceu o Cascalho chutando pedras, equilibrando-se entre soluços, risos bacantes e muita indaga. Lá atrás, um sujeito da CEU, estreitando a rua, gritava com voz mole: - Bebo porque é líquido! Mais adiante, outro da Ceubras, trocando as pernas, respondia com dionisíaca entonação: - Se fosse sólido eu comeria! O barulho, se brincar, dava pra ouvir na Lagoinha. É assim mesmo, bêbado só se dá pela necessidade do silêncio quando já acordou meio mundo. Nisso foi que chegando à porta lá de casa veio uma chuva de –Psiu, fala baixo! Seguida de risinhos cujo baixo volume só existia mesmo na cabeça daquelas almas recendendo a álcool.
Na ilusão do silêncio, entraram peitando tudo. E foi um fuzuê danado pra pegar esses patos. Bêbado enganchado em arame de cerca. Um tal de pega-solta... Cai-aqui-tropeça-acolá... Uns tentando achar o cerebelo... Pato escandalizando... Moça de pernas pro ar... Neguim espojando... Outros catando nica... Pena pra tudo quanto é lado... Aí pronto! Serviço terminado. O bando já ia saindo com dois patos bem apanhados quando deu de cara com Dona Maroca escorada na porta dos fundos. Ela, pelo visto, assistia há algum tempo a peleja dos meninos. E bota peleja nisso. A cambada nem percebeu que havia amanhecido. Fora eu, que permanecia como espectador, acompanhando o desenrolar da cena, o conjunto de bebuns lembrava a tela Os retirantes, de Portinari: todos sujos e mulambentos. Meu irmão na frente, já meio descachimbado, soltou o pato que trazia debaixo do braço. Aí minha mãe interveio, com um esboço de sorriso compreensivo: - Leva o pato, meu filho! No que meu irmão, mal disfarçando as involuntárias contrações diafragmáticas, respondeu com uma ponta de indignação etílica: - Agora não serve mais, só prestava se fosse roubado!
(alan oliveira machado)

sexta-feira, fevereiro 24, 2006

A IMPORTÂNCIA DA CRÍTICA

A IMPORTÂNCIA DA CRÍTICA
A gente sabe que não é fácil, na luta social por mudanças, fazer a parte crítica. A crítica está sempre exposta ao ódio e ao destempero emocional dos setores criticados. Às vezes ela é acusada de pessimista, outras vezes de inconveniente, de sabe tudo e ainda de pessoalizar a discussão. Aí sempre aparecem aqueles revoltados que falam do estrago causado pela crítica, dos prejuízos sociais... Em Uibaí, por exemplo, muitos desses tagarelas emocionais, feridos em suscetibilidades, tendo expostas as incoerências pela ação crítica do Boca do Inferno, insistem em abafar o que está na cara: a crítica tem um lado educativo, de formação da cidadania fortíssimo e que contamina rapidamente a comunidade.
Sob outro ângulo já nos havíamos referido ao poder da crítica no texto O OLHAR QUE INCOMODA, ali falamos do papel normalizador da crítica, ou seja, se algum grupo prega X e vem praticando Y, talvez até sem se dar conta, afetado pela crítica que aponta tal incoerência, esse grupo, pego em saia justa, vai tender a regular sua prática de modo a normaliza-la. Na Canabrava não é difícil exemplificar isso, vejam o caso da VIII Seac: a Seac, organizada em ano eleitoral, caminhava para ser palanque político explícito da “ex-querda” uibaiense. Ocorreu que o Boca do Inferno, percebendo essa tendência, denunciou-a de tal forma que a cúpula “ex-querdista” recuou enraivecida, moderando a interferência no evento. Que houve domínio “ex-querdeiro” na Seac, houve, mas o teatro da hegemonia e unidade política foi ao chão e muito sujeito arrogante e autoritário teve de baixar a bola.
Outro exemplo bom do papel educativo da crítica foi a recente denúncia que fizemos sobre o Jornalzinho da Ceubras. Estivemos na casa de estudantes em Brasília e solicitamos informações sobre um Jornal da Ceubras, de janeiro de 2006, que estava em cima da mesa. Um dos moradores disse que o referido jornal tinha sido enviado para Uibaí e nos autorizou a levar uma cópia. Quando vimos que o jornal estava desfigurado como se fosse um panfleto do PT criticamos severamente. O que aconteceu? O jornal reapareceu limpinho, com poucas referências ao PT e ainda, no texto que sobrou se referindo ao partido, uma nota no pé da página informava cautelosamente que aquele espaço era para a divulgação de textos de grupos políticos que realizam atividades para a melhoria de Uibaí (jogadinha justificativa mais antiga, estamos por ver). Aí vale dizer: eles vão cumprir isso tanto quanto o Fantoche do Boca do Céu, que alardeou que a “imprensa” é livre e vetou direito de resposta no jornalzinho dele. De qualquer modo vocês podem ver que a crítica conteve a sanha “vermelha” dos montadores do jornal da Ceubras. O que eles aprenderam? Exatamente que não se pode entregar o nome e a história de uma entidade como a Ceubras de modo tão escroto. Que eles ficaram bravos, claro que ficaram, mas aprenderam! HÁ BRAÇOS... alan

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

O INDIVIDUAL E O SOCIAL


Penso que duas coisas deveriam estar no foco da atenção deste espaço de debate. A uma já me referi aqui: a divisão do comportamento político humano em individual e social, o que Aristóteles chama de ethos individual e ethos político. Aristóteles diz, em outras palavras, que por ser o homem inevitavelmente gregário, o ethos político é mais importante do que o individual. Então, vejam bem, neste espaço penso que quando se faz referência a alguém, não se o faz levando em conta o ethos individual, mas sim o político. Por exemplo: não nos interessa se Hamilton (político uibaiense) é um pai amoroso, um amigo divertido e alegre, importa-nos apenas que ele faz política e quer ter acesso à administração do bem público e já sabemos por experiências anteriores que suas ações são lesivas à coletividade, ou seja, o ethos político dele é um antiethos, melhor dizendo, ele é antiético. O mesmo podemos dizer sobre qualquer pessoa seja de esquerda ou direita: não nos interessa a vida pessoal, mas se a pessoa sobe num palanque as atitudes dela passam a nos interessar e se sua encenação se nos parece incoerente, temos o direito de criticá-la, independente de ela ser nosso irmão, cunhado, mãe ou tia, pois é o bem da coletividade que está em jogo e qualquer desvio ético pode ser danoso. Outra coisa que está passando da hora de ser debatida aqui e a liberdade, acho que este espaço é para discussão e não convém excesso de reservas com respeito ao ethos político. (alan oliveira machado, uibaionline, abril de 2004)