quarta-feira, março 29, 2006

BRIGA DE COMÉRCIO

BRIGA DE COMÉRCIO

(Essa é para o folclore canabrabeiro!)

Contam que lá pras bandas do Sobreira só tem um boteco. O incutimento dos pés-de-cana e até dos mais sérios homens do povoado é o bar do Quinca. Quinca, sempre atencioso, recebe diariamente seus fregueses: uns a caminho da roça, lascam uma pinguinha nos peito pra espantar o sono e ganhar disposição; outros, em retorno, quebram um venenozinho pra abrir o apetite e espantar o cansaço.
Falam as más línguas que Priquitim anda tocando uma roça nas imediações. Dizem ainda os que não tem mais o que fazer que ele bate perna diariamente pro bar do Quinca. E, desocupados de tudo, esses infelizes, que vivem dando conta da vida alheia, espalharam que Priquitim nem não acha ruim atravessar o asfalto pra saciar suas inquietações etílicas. O problema é quebrar carreiro de volta com o sol cozinhando o couro e o álcool fermentando nas veias.
É também narração de fofoqueiros que Priquitim, cansado de secar canela, indo pro Quinca, deu na cabeça que o Sobreira precisava de um boteco concorrente. Aí, no gozo da conveniência, montou estabelecimento na própria roça, beirando o asfalto e abriu letreiro: Bar do Priquitim. O empreendimento dividiu a freguesia do Quinca e gerou acirrada disputa publicitária entre os dois comerciantes. Priquitim, sujeito pacífico, tratou de baixar os ânimos, de selar a paz definitiva.. Mandou Nino Lima pintar uma grande placa na porta do bar, com os seguintes dizeres: SE NÃO QUISER TOMAR NO PRIQUITIM, VAI TOMAR NO QUINCA!
alan oliveira machado

sexta-feira, março 10, 2006

O ESCREVIVER DE VITOR HUGO MARTINS

inquieta serra azul

Segue abaixo o texto que escrevi para a orelha do livro do Prof.Vítor Hugo Martins. Vale a pena ler o premiado livro Contos Cardiais.



Vitor Hugo Martins, esta figura camoniana por trás dos óculos escuros, perspicaz, carioca, é uma personagem rara dentro do nosso mundo acadêmico. Conjuga o rigor teórico, apolíneo, do Doutor, com a embriaguez, o desprendimento dionisíaco, do artista. Com a existência e a persistência desse homem, a Academia, muitas vezes ascética, fria e fechada, ganha por dois lados: por um, o professor competente e cativante, demasiadamente humano; por outro, a literatura refinada, de alta qualidade. Quem até então só conhecia o professor, a pessoa, verá, neste CONTOS CARDIAIS, o criador, o homem que luta com as palavras, luta vã, diria o poeta das epígrafes, mas infinda, inquietante e necessária como a vida.
Vitor Hugo é um flâneur, bem no sentido que dá João do Rio ao termo. É aquele andarilho inteligente, com o coração aberto ao mundo, às singularidades das vivências. Esse vagamundear certamente se reflete neste seu bem tramado livro de contos. Aqui, um périplo pelos cantos cardeais do Brasil se converte em CONTOS CARDIAIS, referentes ao coração. E este às vezes se avoluma, outras se apequena diante da força existencial de suas personagens, predominantemente gauches, de têmpera sangüínea, dionisíaca. Assim, vai-se enfileirando de conto a conto, de canto a canto, esta gente excluída, esta gente carnal, esta gente da margem: Divino, Diana, Gringo, Bonito, Bernadete, Ancila...
Porém, mais do que um desfile de almas, temos em CONTOS CARDIAIS o saboroso texto de um exímio escritor, de um perito na lida com a língua. No contato com o escreviver deste mestre, nos damos conta de que a verve, o estilo vitor-huguiano é fruto de profunda consciência de linguagem, da palavra, diga-se. Isso é o que denuncia a sua prosa paratática, picada, que se esquiva dos verbos, forçando o substantivo, o nominal, a ganhar efeitos inusitados, mediante hábil manipulação metabólica ou semântica. Ademais, com a mesma perícia que atribui ao seu “Divino 45” no estudo das vítimas, o autor se apropria, ainda, na medida certa, de bossas e tiques que dão a cada narrativa, situada regionalmente, um agradável colorido local.
Um livro de primeira, vibrante, rápido, é o que este deambulador (insaciável) nos entrega. E aqui temos, muito mais que o deleite, a sorte de apre(e)nder o mundo, a língua... Viva, vivíssima.

Alan Oliveira Machado
Poeta e professor

Goiânia, 14 de novembro de 2005.

sexta-feira, março 03, 2006

SÓ SE FOR ROUBADO!

( pra lembrar os velhos tempos!)

Guardo comigo a impressão de que os anos oitenta foram o auge daquela juventude universitária, inclinada ao copo, que atravessava as férias enxugando umas pelos butecos da Canabrava. Volta e meia essa estudantada se reunia em um barzinho específico, proseando sobre política, cultura entre outras variedades. Os estudantes, uns vindos de Salvador outros de Brasília, formavam uma verdadeira irmandade, com muita alegria, discussão e praticamente nenhuma desavença.
Houve um final de ano, especialmente, em que tava na moda roubar galinha pra fazer farra. Fato é que esses jovens adotaram tal prática e quase toda noite, lá pras tantas, a coisa se concretizava. Era assim, a turma se encontrava numa dessas biroscas pra tocar violão e comer água; prosear e contar causos, molhando a palavra e estalando os beiços, segundo alguns. A certa altura, um pouco depois das 23 horas, 32 pingas e algumas dezenas de cerveja, escolhiam a casa da vítima. Em seguida, determinavam quem iria seqüestrar irreversivelmente os galináceos e os que preparariam o banquete, a farofada de feijão verde ou andu. É de se imaginar o cheirinho de coentro e cebolinha roxa que exalava misturado ao aroma da penosa devidamente preparada. Isso tudo bem mexido numa bacia de tamanho razoável, com o grupo em volta comendo, feito tapuia, bolinhos amassados à mão e resenhando os incidentes e percalços do empreendimento bem sucedido.
Vale dizer que esses exímios ladrões de galinhas assaltavam geralmente suas próprias casas. Havia, porém, os que compravam as aves na feira, preparavam e levavam na noite seguinte já com o enredo do roubo inventado na cabeça. Sem contar que determinadas mães, escoladas nas habilidades dos filhos, sutilmente deixavam as galinhas amarradas pra facilitar o furto.
Vai que um dia eu, menino curioso, sempre na cola da novidade que eram os estudantes, testemunhei uma empreita desastrada. Lá pelas três da madruga, no calor da algazarra, neguim já cantando serenô eu caio, eu caiô, mais em espanhol que em português, como se diz: com bolas de gude debaixo da língua, um parente meu, cheio até a tampa, intimou o bando a roubar uns patos lá em casa. A intenção era comê-los no Banheirão. Ali num canto, apertando os olhos pra espantar o sono, eu ouvia o planejamento da turma numa linguagem meio babelesca, ao que parece, bem entendida por quem encontrou a molhação. Moleque. Ignorado. Um cisco... Ainda assim, por trás da leve cortina de sono, eu não ignorava o belo sorriso maroto de uma certa Lúcia.
Não durou muito, a cambada desceu o Cascalho chutando pedras, equilibrando-se entre soluços, risos bacantes e muita indaga. Lá atrás, um sujeito da CEU, estreitando a rua, gritava com voz mole: - Bebo porque é líquido! Mais adiante, outro da Ceubras, trocando as pernas, respondia com dionisíaca entonação: - Se fosse sólido eu comeria! O barulho, se brincar, dava pra ouvir na Lagoinha. É assim mesmo, bêbado só se dá pela necessidade do silêncio quando já acordou meio mundo. Nisso foi que chegando à porta lá de casa veio uma chuva de –Psiu, fala baixo! Seguida de risinhos cujo baixo volume só existia mesmo na cabeça daquelas almas recendendo a álcool.
Na ilusão do silêncio, entraram peitando tudo. E foi um fuzuê danado pra pegar esses patos. Bêbado enganchado em arame de cerca. Um tal de pega-solta... Cai-aqui-tropeça-acolá... Uns tentando achar o cerebelo... Pato escandalizando... Moça de pernas pro ar... Neguim espojando... Outros catando nica... Pena pra tudo quanto é lado... Aí pronto! Serviço terminado. O bando já ia saindo com dois patos bem apanhados quando deu de cara com Dona Maroca escorada na porta dos fundos. Ela, pelo visto, assistia há algum tempo a peleja dos meninos. E bota peleja nisso. A cambada nem percebeu que havia amanhecido. Fora eu, que permanecia como espectador, acompanhando o desenrolar da cena, o conjunto de bebuns lembrava a tela Os retirantes, de Portinari: todos sujos e mulambentos. Meu irmão na frente, já meio descachimbado, soltou o pato que trazia debaixo do braço. Aí minha mãe interveio, com um esboço de sorriso compreensivo: - Leva o pato, meu filho! No que meu irmão, mal disfarçando as involuntárias contrações diafragmáticas, respondeu com uma ponta de indignação etílica: - Agora não serve mais, só prestava se fosse roubado!
(alan oliveira machado)

sexta-feira, fevereiro 24, 2006

A IMPORTÂNCIA DA CRÍTICA

A IMPORTÂNCIA DA CRÍTICA
A gente sabe que não é fácil, na luta social por mudanças, fazer a parte crítica. A crítica está sempre exposta ao ódio e ao destempero emocional dos setores criticados. Às vezes ela é acusada de pessimista, outras vezes de inconveniente, de sabe tudo e ainda de pessoalizar a discussão. Aí sempre aparecem aqueles revoltados que falam do estrago causado pela crítica, dos prejuízos sociais... Em Uibaí, por exemplo, muitos desses tagarelas emocionais, feridos em suscetibilidades, tendo expostas as incoerências pela ação crítica do Boca do Inferno, insistem em abafar o que está na cara: a crítica tem um lado educativo, de formação da cidadania fortíssimo e que contamina rapidamente a comunidade.
Sob outro ângulo já nos havíamos referido ao poder da crítica no texto O OLHAR QUE INCOMODA, ali falamos do papel normalizador da crítica, ou seja, se algum grupo prega X e vem praticando Y, talvez até sem se dar conta, afetado pela crítica que aponta tal incoerência, esse grupo, pego em saia justa, vai tender a regular sua prática de modo a normaliza-la. Na Canabrava não é difícil exemplificar isso, vejam o caso da VIII Seac: a Seac, organizada em ano eleitoral, caminhava para ser palanque político explícito da “ex-querda” uibaiense. Ocorreu que o Boca do Inferno, percebendo essa tendência, denunciou-a de tal forma que a cúpula “ex-querdista” recuou enraivecida, moderando a interferência no evento. Que houve domínio “ex-querdeiro” na Seac, houve, mas o teatro da hegemonia e unidade política foi ao chão e muito sujeito arrogante e autoritário teve de baixar a bola.
Outro exemplo bom do papel educativo da crítica foi a recente denúncia que fizemos sobre o Jornalzinho da Ceubras. Estivemos na casa de estudantes em Brasília e solicitamos informações sobre um Jornal da Ceubras, de janeiro de 2006, que estava em cima da mesa. Um dos moradores disse que o referido jornal tinha sido enviado para Uibaí e nos autorizou a levar uma cópia. Quando vimos que o jornal estava desfigurado como se fosse um panfleto do PT criticamos severamente. O que aconteceu? O jornal reapareceu limpinho, com poucas referências ao PT e ainda, no texto que sobrou se referindo ao partido, uma nota no pé da página informava cautelosamente que aquele espaço era para a divulgação de textos de grupos políticos que realizam atividades para a melhoria de Uibaí (jogadinha justificativa mais antiga, estamos por ver). Aí vale dizer: eles vão cumprir isso tanto quanto o Fantoche do Boca do Céu, que alardeou que a “imprensa” é livre e vetou direito de resposta no jornalzinho dele. De qualquer modo vocês podem ver que a crítica conteve a sanha “vermelha” dos montadores do jornal da Ceubras. O que eles aprenderam? Exatamente que não se pode entregar o nome e a história de uma entidade como a Ceubras de modo tão escroto. Que eles ficaram bravos, claro que ficaram, mas aprenderam! HÁ BRAÇOS... alan

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

O INDIVIDUAL E O SOCIAL


Penso que duas coisas deveriam estar no foco da atenção deste espaço de debate. A uma já me referi aqui: a divisão do comportamento político humano em individual e social, o que Aristóteles chama de ethos individual e ethos político. Aristóteles diz, em outras palavras, que por ser o homem inevitavelmente gregário, o ethos político é mais importante do que o individual. Então, vejam bem, neste espaço penso que quando se faz referência a alguém, não se o faz levando em conta o ethos individual, mas sim o político. Por exemplo: não nos interessa se Hamilton (político uibaiense) é um pai amoroso, um amigo divertido e alegre, importa-nos apenas que ele faz política e quer ter acesso à administração do bem público e já sabemos por experiências anteriores que suas ações são lesivas à coletividade, ou seja, o ethos político dele é um antiethos, melhor dizendo, ele é antiético. O mesmo podemos dizer sobre qualquer pessoa seja de esquerda ou direita: não nos interessa a vida pessoal, mas se a pessoa sobe num palanque as atitudes dela passam a nos interessar e se sua encenação se nos parece incoerente, temos o direito de criticá-la, independente de ela ser nosso irmão, cunhado, mãe ou tia, pois é o bem da coletividade que está em jogo e qualquer desvio ético pode ser danoso. Outra coisa que está passando da hora de ser debatida aqui e a liberdade, acho que este espaço é para discussão e não convém excesso de reservas com respeito ao ethos político. (alan oliveira machado, uibaionline, abril de 2004)

O OLHAR QUE INCOMODA

Por que atualmente grande parte do pessoal que ocupa a posição de esquerda em Uibaí foge do debate? Não é difícil responder essa pergunta: por insuficiência disciplinar! Se é por uma questão de disciplina temos aí dois problemas: ou a ação desse pessoal, que deveria ser disciplinada, é reflexo da medíocre formação teórico-ideológica que permite a qualquer debate esfacelar suas bases e desmoralizar seus líderes, uma vez que sua conduta redunda em contradições grosseiras entre comportamento e ideologia; ou a própria prática cotidiana desse pessoal se direciona a interesses sabidamente contraditórios que estrategicamente precisam ficar distantes da qualquer discussão para não despedaçarem o manto ideológico que sustenta a aparência de normalidade. Em suma, ou eles ignoram a incoerência ou, conscientes dela, procuram disfarçá-la. Evitar o debate pode ser uma ação estratégica: o olhar do outro certamente exerce algum controle sobre nós, o crivo do olhar induz à disciplina, portanto, um olhar competente lançado sobre o comportamento de um grupo incoerente, ao passo que exporá suas contradições, incomodamente forçará ocontrole de sua prática. O olhar só incomoda quem alimenta demasiadas ilusões sobre si mesmo, ou quem sabe que o que esconde pode ser mais desprezível do que o que mostra; quem sente que corre o risco de haver em si mesmo muito mais o que esconde do que o que mostra. A exposição desconfortável ao olhar perscrutador possivelmente provocará, num plano público, reações hostis. É provável que o grupo focado procurará desqualificar e desautorizar a fonte do olhar, no afã de se proteger. Se o olhar expôs o comportamento atípico desse segmento é natural que ele(o segmento) evite esse olhar, fuja dele o mais que puder. Se num primeiro momento é natural que se fuja ou evite o olhar que nos desnuda, por outro lado é pouco educativo cobrir os equívocos da nossa prática com o véu imaginário da indiferença. A única forma franca de neutralizar o olhar disciplinador seria aceitá-lo abertamente como instrumento para a nossa auto-regulação. Aceitar a forma franca de atenuar a força normalizadora do olhar exige habilidade política, capacidade de entender as forças que estão em jogo.
HÁ BRAÇOS: alan oliveira machado

terça-feira, fevereiro 21, 2006

MACAQUINHOS PÓS-MODERNOS

Dura essa cultura da aparência. Tão rasa como uma poça de lama. Desejo volatilizado, disperso numa superfície eterna, profunda como a limpeza do OMO, pois só OMO limpa profundamente o que não tem profundidade. Parecer é Ser e assim segue a vida desse macaco em pedaços. Dessa alma da superfície arrebatada insistentemente por ventos contrários... Torvelinho sem rumo próprio, mas em constante direção ao consumo desenfreado, sobretudo o da imagem. Pareço ergo sum! Aí basta montar um visual de artista, de herói, de intelectual e tutti quanti para Ser e sangrar ou fazer sangue em causa própria. Mesmo que o artista não passe de imitação tosca e dasafinada, o herói não seja mais que um cagão omisso, o intelectual não passe de um plágio, de uma fachada sem escoras. Aos mais engomadinhos, basta abrir um flog, flog, flog, plantar a cara vazia e morta, cheia de mega pixels, de vento e de flato, cheia do que não tem raíz e oferecer o nada envolto na mais enganadora cosmética de sorrisos, poses e grunhidos idiomáticos:"-vc fkou linduxa nssa ft. tb naum pudia ser #!" Eis o primata civilizado, bitzado, pulverizado eletronicamente, simulacro de simulacro, desejo e ansiedade, implodido em mil pedaços... Link dentro de link... Mise en abyme...Melancólico, sombrio, frio e mórbido como um anoitecer no deserto. Ah, esses macaquinhos pós-modernos, exímios imitadores, símios imitadores, porque viver é imitar:ctrl/c, ctrl/c...ad infinitum. Aí bate aquela saudade de Aristóteles: " O imitar é congênito no homem (...)os homens se comprazem no imitado.". Em Aristóteles antes do imitar está o homem e após, está o prazer. Nos dias hodiernos, antes do imitar só há o vazio, o oco e depois a vaidade, a ansiedade crônica, o desespero interminável. HÁ BRAÇOS!

CEUBRAS NO FUNDO DO POÇO


Desculpem-me os novos moradores da Ceubras, mas espanto e perplexidade foi o que senti após Ter feito rápida leitura de um suposto Jornal da Ceubras, número 01 de 2006. Na verdade, depois da leitura voltei à primeira página para me certificar de que realmente estava lendo o modesto Jornalzinho da Ceubras. O fato é que da primeira a última página do referido boletim o assunto era o PT e o Núcleo de mentirinha de apoio ao PT de Uibaí. Há momentos em que o jornal, cujos textos curiosamente não são assinados, fala do PT como “nosso partido”. Aí eu pergunto: “nosso” de quem, cara pálida? Da Ceubras? E por acaso casa de estudantes tem partido? Ou a Ceubras já não é mesmo uma casa de estudantes e portanto sua história pode ser transformada em peça publicitária e seu espaço em comitê de partido, visando garantir o emprego de uma meia dúzia de uibaienses que vivem pendurados em bicos de sindicatos e gabinetes políticos de Brasília? Mas se isso for a realidade, devemos aceitar?
Os canabrabeiros que têm garantido seus empregos políticos às custas do nome da Ceubras, basicamente do nome, porque a casa há tempos não tem expressão coletiva alguma, nada fazem para reverter o quadro de abandono que aquela coletividade enfrenta. Entra ano sai ano os poucos uibaienses residentes quase nada aprendem sobre o que realmente significa uma moradia estudantil, sobre a autonomia e o caráter político desse tipo de coletividade.
A história da Ceubras inquestionavelmente está ligada à esquerda. Seus moradores desde a primeira geração sempre optaram, apesar das contradições, por atividades e discussões que ressaltassem a necessidade de combate às desigualdades sociais. Porém, a maioria dessas gerações, embora conscientes de suas opções políticas, jamais deixaram que o nome da casa se vinculasse a siglas partidárias. Em nosso entendimento, essa particularidade confirma a compreensão de que casa de estudantes é espaço de diversidade, debate de idéias, de convivência com diferenças, conflitos sociais e subjetivos os mais variados, sendo isso o motor do processo educativo que propicia o crescimento da consciência e naturalmente o fortalecimento da cidadania. Não convém a esse tipo de moradia assumir partido algum. Como espaços educativos, as Ceus devem se manter abertas, pois não existe processo educativo em espaços ideologicamente fechados, existe sim domesticação, bitolação, embrutecimento mental. O que se confirma, contudo, pela leitura do desfigurado Jornal da Ceubras-1 2006 é o contrário: a casa como rebanho uniformizado, com a consciência neutralizada, rotulada e carimbada com a sigla do PT. Creio que ninguém esperava ver uma entidade com a história da Ceubras reduzida a uma fachada, utilizada a bel prazer por oportunistas como os tais que são citados, salvo uma ou outra exceção, no correr da prosa panfletária e mal escrita do equivocado Jornal da Ceubras-1, 2006.
Nem as Ceus de Salvador e Feira, que receberam uma significativa verba, via gabinete do Deputado Zé das Virgens, tiveram coragem de fazer um jornal tão descaradamente petista. O Jornal Tribuna Estudantil, pelo menos o número a que tivemos acesso, manteve o nível de independência que convém a informativos de qualquer entidade que se pretende educativa. Exatamente essa deveria ser a atitude tomada pelo pessoal da Ceubras. Mas não, a Ceubras deve ter alcançado um novo patamar, o patamar da inexpressividade, da massa de manobra e que patamar, heim? Tomara que os novos moradores, nos quais sempre depositamos esperança, caiam a ficha e retomem o rumo da casa, sua autonomia política e seus projetos, dispensando a farisaica simpatia e boa intenção de certos uibaienses que dela se aproximam tão somente para poder associar o nome e a história de lutas da entidade a seus atuais interesses políticos particulares. (alan oliveira machado)

FORISMO E FANTASIA: February 2006

Embora escrito há praticamente 1ano, ainda acho válida a seguinte provocação:

Olha, penso que a gente tem que parar com esse papinho cheio de compaixão, cheio de laivos cristãos com respeito a quem está em Uibaí. O povo de Uibaí já se preocupou com alguma porrada, gás lacrimogêneo, processos judiciais, perseguições etc, problemas pelos quais passamos em nosso cotidiano de luta, com o fito de melhorar o país, nos exílios onde vivemos? Ou eu estou enganado e as pessoas que estão discutindo aqui (no uibaionline) não cultivam uma prática política cotidiana?
Esse tipo de fragilidade do povo, subentendida aqui em vários textos e apregoada em outros tantos, reflete a meu ver mais uma construção imaginária de quem enuncia do que do povo de Uibaí. Não estou querendo com isso dizer que não haja problemas e perigos em Uibaí. Penso apenas que os há em qualquer espaço social. E é ingênuo (para não dizer algo mais pesado) achar que iremos resolvê-los. Nós não somos salvadores de Uibaí, isso é um titanismo romântico que invariavelmente engendra autoritarismo nas relações com o povo. Não raro, as pessoas que se intitulam salvadoras de outras tendem a infantilizá-las, a dar-lhes ordens e cercear-lhes os gestos e desejos. Tendem a ser mais normativas do que construtivas. E não raro também são vítimas da transferência negativa, ou seja, o grupo “salvo” explode o vínculo com o “salvador”, produzindo neste o desencanto: "o povo é traíra; esses desgraçados merecem é sofrer mesmo." Assim ouvi muitos desabafarem, salvo engano até mesmo neste espaço, na ocasião da última derrota eleitoral.
Quero apontar, com esta rápida reflexão, a necessidade de uma estratégia de ação que não configure ação para o povo nem ação sobre ele, mas ação com, ação entre. Não se leva consciência a ninguém. Ouvi por muito tempo meus chegados de esquerda com esse papo de "vamos conscientizar o povo". Consciência se constrói no cotidiano, no embate, na relação franca e honesta no meio social. Temos então que preparar a horta para que nasça a consciência. E o que é isso? No plano pragmático estamos no caminho certo: fazendo eventos sociais e culturais, publicando informativos para gerar debate e discussão, oferecendo a nossa formação intelectual à comunidade etc. O que temos que corrigir a meu ver então são esses hábitos titânicos que trazemos interiorizados e que sabotam nossas boas intenções. Quando a gente do Boca do Inferno, por exemplo, se desdobra para refletir, para tocar em feridas e em hábitos nefastos, fazemos isso exatamente com a consciência de que precisamos manter o ambiente uibaiense em constante ebulição. A inquietude e o mal-estar que a crítica gera, fazem pensar, fazem circular idéias, fazem surgir alternativas de ação e de resistência.
(alan oliveira machado, uibaionline, 11 de abril de 2005)

viva a inquietude

AQUI: ALAN OLIVEIRA MACHADO
Meus amigos, afetos e desafetos, neste momento abro mais um espaço para a agitação, porque quem fica parado é poste ou mijador de cachorro. O objetivo deste espaço é criar uma interação mais íntima como meus amigos, amigas e conterrâneos. Criar uma interação que, pontuada por questionamentos, dúvidas, perturbações de ordem variada, acirre em nós os conflitos, gerando teses, antíteses e sínteses ou simplesmente linhas de fuga, tangentes, intensidades, nomadismos, bricolagens... Este espaço é pra pulsar! latejar! ferver, fazer máscaras balançarem ao sabor da existência e de todas as facetas que ela nos oferecer.... HÁ BRAÇOS alan