quinta-feira, junho 16, 2016

MESMO SEM SABER, OS EXTREMOS ANDAM COM O MAL NO BOLSO
                                     Alan Oliveira Machado

Eu sou meio desconfiado de gente que elege extremos como lugares de permanência e de partida para a ação. Os extremos são bordas e a história não nos cansa de ensinar que quase sempre as bordas são bordas de uma ordem civilizada além das quais existe algo que pode muito bem saltar para dentro dessa ordem e corroê-la como um câncer maldito até só restar a barbárie. Nesse sentido, não existem extremos diferentes: todo extremo convive, pela proximidade com a borda da ordem, com esse algo perigoso, resto, rebotalho caído do processo civilizatório, que, como sombra, ameaça a civilização. Os extremos também podem servir de suporte para esse algo nocivo e quando assim o fazem, abrem o trilho da devastação dos valores que garantem o contrato mínimo de civilidade.
Quando o extremismo logra êxito na condição de suporte do perigo? Ora, suponho que seja quando as redes simbólicas que amarram e garantem os sentidos de civilidade se afrouxam ou sofrem perdas de pilares de referência e de sentido que suportam, equacionam e até mesmo disciplinam os desejos humanos. Isso pode ser notado agora mesmo no Brasil, momento em que os espaços de poder mais importantes e as figuras que os representam estão quase que completamente desmoralizados. A persistência da desmoralização associada à crise econômica e à insolúvel permanência da pobreza e da degradação educacional faz os extremos se levantarem como caminho ético, trazendo no bolso o mal que atravessou as bordas da ordem.
A aparição e o crescimento do bolsonarismo é um exemplo do extremo passeando pelos indícios de ruina da ordem, levando no bolso o rejeito da civilização com seu poder destrutivo. Certos absurdos que saltam da boca de Bolsonaro, como a recente apologia ao coronel torturador Brilhante Ustra, são restos de coisas ruins que comumente ficam de fora de qualquer ordem civilizada. E o que dizer de políticos que insistem no contraponto tête-à-tête com Bolsonaro senão que estão localizados também em extremos e que, portanto, de certa forma, atuam como um duplo da mesma coisa, igualmente visitados pelos rejeitos do fora da ordem e infelizmente também seus possíveis portadores?
Mas, ao contrário de muitos que localizam o perigo apenas na pessoa ou em grupos isolados, gostaria de reforçar que o perigo está no que eles portam, no que os visita e os toma pela voz e pela ação. E o que os visita, o que eles portam é o resto, o rebotalho que não cabe numa ordem civilizada e do qual temos agora uma pequena mostra posta à vista como saída para o descalabro político, econômico e social em que nos encontramos. O que é lastimável. E por que gente como Bolsonaro cresce neste momento? Certamente porque todos nós civilizados carregamos esses rebotalhos e na falha da ordem, das referências, muitos, desreferencializados, sem acuidade e capacidade de discernimento, se veem tentados, hipnotizados pela coisa estranha que não pode entrar na civilização, como se fosse civilização.  Não custa muito imaginar que grande parte desses está deslumbrada, cheia de intenções humanitárias, bem como o doutor Joseph Ignace Guillotin se sentiu em relação à guilhotina, que mais à frente decepou a cabeça de milhares de inocentes.



A BURRICE SUICIDA A SERVIÇO DA ELITE CORRUPTA
Alan Oliveira Machado*

Fiquei sabendo que semana passada, em Uibaí, um rapaz tomou uma facada devido a uma discussão sobre a desonestidade ou não de Lula. Não sei quem defendia ou quem ofendia a honra do líder petista, nem se quem esfaqueou era defensor ou detrator do político em questão, mas o nível da discussão, culminada com a materialização do desejo de eliminar o outro é um sintoma gritante dos últimos tempos. É um sintoma da burrice que tomou conta do País. Que eu saiba nenhum dos contendores era empresário defendendo seus interesses, nenhum deles era político de alta cúpula atuando para se manter no poder; mesmo se fossem, que direito um teria de eliminar literalmente o outro?
Mas essa impossibilidade do debate, de aceitar opiniões contrárias, de tolerar divergências virou a regra do jogo nos últimos anos no Brasil. Não se discutem mais projetos, ideias e caminhos que melhor atenderiam à coletividade, à vida comum, ao desenvolvimento do País, do município, da educação, da saúde etc. A discussão, na fina membrana emocional da superfície coletiva, dá a entender que só existe uma verdade, a do senhor, e se não houver acordo sobre ela, aqueles que discordam devem ser eliminados. Ou seja, cresce no Brasil o ethos fascista, que conjuga a intolerância à divergência com a necessidade de eliminação do opositor. E, no fundo, a agressividade desse tipo de ímpeto reacionário é vazia, não corresponde materialmente à realidade cotidiana da maioria daqueles que se atiram vorazmente no combate político, digo, no falso combate político que se alastra pelas terras tupiniquins.
A arena política brasileira tornou-se um vale tudo acirrado, voltado para interesses de uns poucos ricos que insuflam e se beneficiam do debate selvagem e sem princípios, para esconder suas falcatruas, proteger seus aliados corruptos e se perpetuar no poder. Os dois sujeitos de origem humilde que se agrediam na defesa de um desses ricões são a pobre massa de manobra, peões do xadrez que têm de entregar cegamente suas vidas por aqueles que perpetuam no Brasil a própria desgraça desses pobres diabos. Eles me lembram os “Imaculados”, soldados castrados de Games of Thrones, morrendo estupidamente por aqueles que eles têm por seus donos. Não há coisa mais melancólica. Os Imaculados são castrados, há sinal mais violento de que serão escravos para sempre, de que serão inférteis, incapazes de construir um futuro no qual entrem como protagonistas? Não, o falo estará sempre com os seus senhores e com estes a colheita do futuro.
Uma facada em quem diverge de mim é um tijolo a mais no alicerce do totalitarismo. É um sinal de que já não me vejo espelhado no meu semelhante e se isso não ocorre, não me vejo também destruir a mim mesmo como ser gregário, de civilidade quando atento contra a vida do outro em função de uma opinião. Pior, de uma opinião que protege os senhores e mantem os escravos eternamente como escravos. De uma opinião que me perpetuará como serviçal de interesses de uma pequena elite cínica e debochada. Toda essa história me lembra, como metáfora ilustrativa, as rinhas de galo que existiam em Uibaí na década de 1980. Ali donos de galos de raça, uma pequena elite, se divertiam ao ver os galos se ensanguentarem na arena até que um corresse impingindo vergonha no dono ou morresse com uma espora de ferro enfiada no crânio. Não é a isso que estão condenando a participação política?  Em Uibaí (e no Brasil), pelo jeito, a lógica da rinha de galo é o que tem vigorado, uns poucos levam suas vidas de privilégios numa boa enquanto botam uma maioria cega para se matar a seu serviço.

*Alan Oliveira Machado é professor do Curso de Letras da Universidade Estadual de Goiás. Poeta, contista e cronista. Autor de PRA DIZER QUE FOI ASSIM (Ibicaraí: Via Litterarum, 2015).


segunda-feira, julho 08, 2013

O MAL-ESTAR VAI ÀS RUAS

Alan Oliveira Machado*

Em 1992, depois de uma série de escândalos de corrupção, pressionado pela oposição, por sindicatos e movimentos ligados à esquerda, o então presidente Collor de Mello foi à televisão pedir ao povo para que saísse de verde e amarelo no dia seguinte em apoio ao seu governo. O que se viu como resposta foi a eclosão, em todo o país, à revelia do que pedia o presidente, de manifestações populares nas quais as pessoas se vestiam de preto, numa espécie de luto por tudo o que vinha acontecendo na política brasileira. O discurso do presidente em cadeia nacional foi a faísca que faltava para fazer explodir uma onda de mal-estar, num primeiro momento impulsivo e sem controle, que mais a frente encontrou acolhida nas representações de partidos políticos, sindicatos, centrais sindicais, entidades estudantis e do movimento social. O que antes era apenas espontaneísmo se institucionalizou por meio dessas representações, minou e sufocou as bases do governo a ponto de materializar o impeachment do presidente.
Depois desse processo, o país começou a encontrar o caminho da reestruturação e da estabilidade econômica com os dois governos de FHC, gestados dentro das equipes incorporadas ao resto do mandato de Collor assumido pelo vice-presidente Itamar Franco. O que nos parece óbvio nessa trilha que vai da queda de Collor até o atual momento é que até o último mandato do PSDB, o Brasil contava com partidos de esquerda, sindicatos e representantes de movimentos sociais e estudantis que funcionavam bem ou mal como forças políticas de pressão e fiscalização do poder instituído, inibindo os excessos do governo em articulações políticas e nas alianças que promoviam certa licenciosidade no trato da coisa pública, degeneradas em corrupção. Os excessos ensaiados eram prontamente denunciados por esses movimentos e a luta dentro do poder ganhava seus tons e alternâncias.
Com uma conjuntura econômica mundial favorável e com investimentos consideráveis na expansão de programas sociais, o clima de bonança econômica veio à tona de vez nos mandatos de Lula, mas algo de estranho acompanhou esse momento. Desde o primeiro mandato do PT, tudo que representava pressão social e fiscalização do poder nos mandatos anteriores desapareceu. O petismo incorporou esses segmentos ao seu governo e o sentimento de revolta do cidadão comum com a corrupção e os desmandos perdeu seus espaços de acolhida na institucionalidade política. Sem quem os fiscalizasse ou pressionasse, os esquemas do poder ultrapassaram os limites e o que se viu foi um processo de escancaramento e tentativa de naturalização da licenciosidade dos políticos no trato da coisa pública.
A partir daquele momento, os escândalos não eram mais motivo de intensas movimentações e protestos revoltados de entidades como CUT, UNE etc. Quando não estavam completamente silenciosas, como no atual momento, essas organizações estavam protestando em defesa de causas estranhas ao povo. Quem não se lembra da manifestação de dezembro de 2008, na frente do Congresso Nacional, promovida pela CUT, pela Força Sindical e demais aliados, no dia em que o Conselho de Ética da Câmara dos Deputados estava votando a cassação do deputado Paulo Pereira (PDT), o tal Paulinho da Força? Qual a finalidade daquela manifestação? Pressionar o Congresso por um aumento de salário para o trabalhador brasileiro? Pedir redução de impostos ou redução de juros etc, coisas que afetam a vida de todos os trabalhadores brasileiros? NÃO! A manifestação das centrais era para pressionar os deputados a votarem contra a cassação do tal Paulinho da Força, pego no esquema de propinas ligadas ao BNDES. E a pressão das centrais sindicais valeu a pena? CLARO! Paulo Pereira não foi cassado e comemorou com muita cerveja ao lado dos amigos e aliados políticos.
Até a eclosão das atuais manifestações, o povo brasileiro dividia-se entre o mal-estar com os escândalos de corrupção e a euforia de consumo produzida pela estabilidade econômica. A volta da inflação, no entanto, transformou a euforia em dívidas e angústia restando apenas o mal-estar que encontrou como estopim e faísca o aumento das passagens de ônibus. As manifestações seguem errantes pelo país e são palco de toda sorte de reivindicações. Tudo quanto é excesso político que ficou entalado na última década transforma-se em lemas de cartazes e faixas e em ataques a espaços que simbolizam de certo modo esses excessos: prefeituras, sedes de governos, casas legislativas e bancos. Grupos de esquerda tentam desesperadamente se encaixar como campo de acolhimento e condução do sentimento que toma as ruas, mas enfrentam óbvia rejeição.
O fato é que a partir dos anos de 1980 foi o PT quem se consolidou no imaginário popular como aquele campo da política que fiscalizava o poder exigindo ética e respeito ao patrimônio público, mas sua chegada ao comando político do país e o modo como administra o poder não se diferenciou do dos gestores a que fazia feroz oposição, alguns deles, como Sarney, Collor e Maluf, são hoje aliados inestimáveis. Em função disso provavelmente o sentimento da multidão repele tais representações. Se no movimento cara pintada de 1992 o mal-estar recalcado que foi às ruas encontrou nas representações institucionais de esquerda a guarida fundamental para a sua conversão em ação política, unificada na pauta do impeachment, agora o mal-estar que persiste nas ruas, em plena Copa das Confederações, campeia solto em busca de algo novo, de representações sem identificação com as oferecidas pela arena política atual. Tomara que o mal-estar das ruas propicie o surgimento de um novo modo de fazer política antes que degenere em repetição ou algo pior.

quinta-feira, abril 18, 2013

VELHAS FORMAS DE APRENDER E ENSINAR



                                              Prof. Alan Oliveira Machado

Tenho acompanhado as discussões sobre educação e novas tecnologias com certo ceticismo. A impressão que fica quase sempre é a de que as perguntas feitas a esse respeito estão mal formuladas ou fora do lugar. Quando alguém pergunta, por exemplo, como as tecnologias afetam a educação não faz uma má pergunta embora, no caso, o termo afetar esteja vago. O melhor a fazer seria especificá-lo, de modo a direcionar o questionamento à demanda que precise de respostas emergenciais. Mas quando perguntam se os tablets substituirão o professor fico pensando em até que ponto a retórica não continua sendo a tônica da discussão. Não é difícil imaginar que tablets não são professores. Que são apenas plataformas para aplicativos que buscam e armazenam conteúdos permitindo, a quem souber usar, um grau de interatividade mais diversificado do que um livro, não necessariamente do que uma boa aula. Que a tecnologia acelerou o acesso e o modo de acesso a conteúdos não podemos duvidar, mas as incertezas são abundantes quanto à assimilação ou à qualidade da interação com esses conteúdos disponibilizados de modo tão fácil e farto.
Até então, o que a tecnologia muda é o modo de acesso não propriamente o resultado do acesso aos conteúdos. Ela reduz espaço e tempo, tornando disponível, de forma rápida, a teia de convergências e de divergências necessária para se verticalizar a compreensão do conteúdo. O que em outros tempos demandava meses para ser feito, em termos de pesquisa de conteúdos, faz-se em um dia com custo mínimo. Essa, por enquanto, é a maior virtude dos recursos tecnológicos aplicados à educação. Mesmo assim, isso não quer dizer que todos conseguem lidar de forma pertinente e produtiva com a quantidade imensa de dados e informações que podem receber em uma busca instantânea no banco de dados de um tablet ou netbook conectados na rede. Desse modo, o percurso da aprendizagem ainda precisa do fio de objetividade estendido por um bom mestre.
Há quem evoque uma entidade supostamente criada pela era tecnológica, muito na moda hoje em dia, chamada inteligência coletiva e colaborativa como a força motriz de um modo novo de aprender. No entanto eu pergunto: a inteligência que sempre serviu à educação não é coletiva e colaborativa? De onde um professor tira o conteúdo de suas aulas? Posso inferir que tal apego ao conceito de inteligência em questão tenha a função de questionar aquele depreciado papel do professor como o único detentor do saber. Tudo bem, mas, em tese, qual saber o professor encarna? Não seria o coletivo? Ora, se é coletivo não é único. É óbvio que não podemos negligenciar a forma veloz, densa e concentrada que as redes online conseguem imprimir ao conhecimento organizado de forma  coletiva e colaborativa, na verdade existente como prática desde que o homem inventou o signo. Mas é necessário entender também que o modo equivocado como certos professores tratam o conteúdo não impedirá que ele (o conteúdo) continue a existir e não eliminará sua natureza coletiva e colaborativa.
Bons professores e maus professores sempre existiram e o giz, o livro didático, o data-show, ou o tablet não vão necessariamente mudar isso. O livro didático, por exemplo, surgiu como uma ferramenta, um roteiro de apoio para o professor. Os bons professores nunca deixaram de tratá-lo como tal, como apenas mais um objeto acessório a seu serviço. O que fizeram os maus professores? Transformaram o livro didático em uma entidade regente. O referido livro que era para ser coisa do professor, pelo modo como foi tratado, transformou o professor em sua coisa. Para muitos que o usam de forma submissa, tal material, que servia de roteiro, desde sempre serve como fonte única de conteúdo. A autoridade da sala de aula desses docentes passou a ser o livro didático com sua natural superficialidade. O mesmo pode acontecer com qualquer suporte tecnológico e o efeito disso vem explícito nos resultados catastróficos da educação.
 Resta dizer que não é benéfico discutir a influência das novas tecnologias na educação tendo como base mistificações a priori. É preciso antes testar tais tecnologias, ter clareza dos seus limites e das funções que podem desempenhar no processo educacional. Do contrário, o prejuízo com a educação pode ser maior do que o imaginado e os resultados pífios como sempre.


sábado, dezembro 29, 2012



MONTEIRO LOBATO E A PATRULHA BOCÓ 

Prof. Alan Oliveira Machado

            Há pouco tempo houve uma polêmica envolvendo o MEC e o Conselho Nacional de Educação com respeito ao conteúdo racista de algumas passagens do livro Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato. Um ativista do movimento negro encaminhou denúncia a instâncias do governo pedindo a retirada do livro da lista de obras do MEC e cobrando seu banimento das salas de aula.
            Imediatamente, comandos ideológicos do movimento negro iniciaram uma patrulha para excomungar a obra de Monteiro Lobato. E o que se viu foi gente que nunca leu uma página da literatura lobatiana alimentando certo apedrejamento simbólico e insano do escritor.
            Monteiro Lobato é, sem dúvidas, o maior escritor de literatura infantil das Américas. Talvez o único que desde os anos 20 do século XX se comprometeu em produzir uma obra exclusivamente para as crianças, mas sem a visão distorcida da infância reinante na literatura voltada ao universo infantil daquela época. A obra de Lobato, nesse quesito, é plural, criativa e educativa. Tanto é que faz sucesso em muitos países. Em alguns, como a Argentina, é mais lida e reverenciada do que no Brasil. Mas, inevitavelmente, em certos aspectos, a criação infantil desse escritor é produto de uma época. Isso não diminui sua inventividade e nem o seu valor, porém nos força a ser criticamente mais cuidadosos com certos aspectos ao empreender sua leitura. E não é assim mesmo que se deve proceder com qualquer leitura?
            No livro Caçadas de Pedrinho, algumas expressões com negativa tintura racial utilizadas por Lobato, ao se referir à personagem Tia Nastácia, soariam com naturalidade nos anos de 1930, quando o livro em questão foi escrito. Entretanto, para os padrões culturais contemporâneos tais expressões são grosseiras e visivelmente desrespeitosas com o negro. Mas isso não justifica o banimento do livro. Não se pode ignorar as muitas virtudes da obra infantil desse escritor paulista em função de um aspecto negativo. A educação que prepara o ser humano crítico não exclui as falhas humanas do espaço de formação da criança, pelo contrário, as traz para a arena da sala de aula e as transforma em conteúdo educativo. Se não fosse assim, a obra do filósofo grego Aristóteles que reproduz uma visão terrível da mulher para os padrões de hoje, aspecto do seu pensamento perfeitamente comum no contexto grego de sua época, lhe tiraria a posição de maior pensador do mundo ocidental de todos os tempos e isso ninguém com neurônios funcionando cogitaria imaginar.
            As patrulhas ideológicas são vozes críticas e contrárias em plena ação. Se fosse só essa sua natureza seria uma maravilha, contudo patrulhas não raro boiam na superficialidade, são indissociáveis de comportamentos autoritários e invariavelmente adeptas da monocultura do saber, no caso o seu próprio. Assim, tendem a querer eliminar o conteúdo que contraria o seu posicionamento em vez de transformá-lo em objeto de formação crítica. O MEC e o CNE não cederam a esse lado bocó das patrulhas. Optaram acertadamente por manter o livro Caçadas de Pedrinho na lista das escolas, orientando os professores a debaterem seu ponto negativo e assegurando aos alunos o convívio com suas muitas virtudes.
            Em virtude dessa polêmica, aproveitei um tempinho à tarde e reli Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato. Foi bacana reencontrar o texto de Lobato com o mesmo sabor de infância de quando o li aos treze anos, numa leva de livros que minhas irmãs trouxeram para casa nas férias de final de ano. Fui reler  Caçadas de Pedrinho para tirar a limpo a conversa de um desses militantes negros que tentou vender a história de que o livro era racista e coisa e tal. Se a gente fosse  dar crédito ao alarde que fizeram  era o caso de se imaginar que o livro é um manual de racismo. A lembrança que tinha da leitura dessa obra de Lobato não correspondia ao exagero do militante racialista, portando achei melhor voltar à história do inventor da boneca mais sabida da história da Literatura Infantil.
       O que constatei foi que só há duas míseras expressões dirigidas à personagem Tia Nastácia, em todo o livro, que podemos constatar como sendo de mau gosto pelo tom racial que pode aventar. Nesta fala de Emília: Não vai escapar ninguém - nem Tia Nastácia, que tem carne preta. E mais à frente, quando as onças atacaram o sítio de Dona Benta e Tia Nastácia subiu apavorada em um mastro, aparece a segunda expressão que os militantes negros consideraram a mais infeliz, descrevendo a ação da referida personagem: trepou que nem uma macaca de carvão pelo mastro...  Há quem conteste o conteúdo racial dessa segunda expressão afirmando que Lobato se referia ao modo hábil como Nastácia, movida pelo medo, escalou o mastro. Macaca de carvão não se refere à cor da personagem, mas a uma espécie ágil de primata conhecida como mono carvoeiro ou macaco de carvão. Tal espécie inclusive tem pelo dourado, conforme a foto. 
            Nas quarenta e três páginas da edição de Caçadas de Pedrinho que tenho aqui em casa, as duas expressões a que me referi são as únicas com tintura racial preconceituosa, se considerarmos a questionável segunda expressão. Mas o livro é tão interessante e a leitura flui com tanta naturalidade que as expressões perdem-se na névoa da insignificância em meio a uma reflexão atual sobre a relação do homem com a natureza que em certos momentos nem parece  feita no longínquo ano 1933: Os homens andam a destruir todas as matas, a queimá-las, reduzi-las a pastagens para bois e vacas
            Quanto à onça que a turma do sítio matou, motivo pelo qual os politicamente corretos condenam o livro por dar mau exemplo, a resposta sobre tal ato Monteiro Lobato põe na boca dos animais da mata: Ora, isto é crime que pede a mais completa vingança. Guerra, pois! Guerra de morte a essa ninhada de malfeitores. Essa capacidade de interpretar a realidade de modo crítico, mas sutil nas histórias para criança que o criador do Sítio do Pica-pau Amarelo dilui em sua obra parece não estar ao alcance das patrulhas ideológicas, quase sempre patinando no grosso da superfície. O conteúdo de Caçadas de Pedrinho não é racista e qualquer ser inteligente pode constatar isso a menos que esteja entorpecido por uma cegueira racialista muito distante do bom senso.

sábado, dezembro 15, 2012


BOBAGENS LOGICISTAS
                        
            Outro dia li um artigo do simpático professor Pasquale Cipro, na Folha de São Paulo, no qual ele tratava de algumas expressões a que chamava de bobagens. Dizia Pasquale que “correr atrás do prejuízo”, forma cristalizada na fala cotidiana do brasileiro, é uma bobagem porque ninguém corre atrás de prejuízo, mas sim de lucro. O professor apega-se a um princípio lógico básico para se posicionar contra tal uso popular, qual seja: julgar os elementos do plano da expressão pelo sentido referencial que eles adquirem dentro do estrito campo de combinação do enunciado. Mas vejamos: se é tão óbvio que ninguém corre atrás do prejuízo, não daria para o professor Pasquale, usando a mesma lógica, concluir que a expressão “correr atrás do prejuízo” veicula outro sentido, pelo que se pode observar, próximo ao contrário do significado literal de “correr atrás do prejuízo”? Pelo que pude constatar, numa rápida pesquisa, “correr atrás do prejuízo” parece significar, para os usuários de tal expressão, algo como “se apressar em resolver problemas pendentes de modo a evitar um prejuízo ou para amenizar os efeitos de um prejuízo”.
            O que o ilustre professor Cipro faz é usar um raciocínio bobo para julgar certos usos linguísticos como bobagem. Na verdade, não há nada de bobagem em usar tais expressões. A língua está cheia delas. Se formos dar crédito para a lógica rasa do professor, teremos que deixar de usar uma série de catacreses e formas linguísticas cristalizadas no português brasileiro porque elas não têm o sentido que se poderia depreender de sua observação literal. Teríamos que abandonar, por exemplo, o uso da expressão “via de regra” uma vez que literalmente quer dizer “canal por onde passa a menstruação”. Bobagem! Bobagem! Bobagem!
            Na mesma toada logicista já havia presenciado, num seminário de comunicação, o jornalista Alexandre Garcia, da Rede Globo, falar com certo orgulho, como se tivesse feito uma descoberta maravilhosa, que não se deve falar “correr risco de vida” e sim “correr risco de morte”. Que eu saiba, não há como colocar a morte em risco. Por outro lado, não posso falar a mesma coisa da vida, pois são incontáveis os vacilos que podem colocá-la em risco. Não fica difícil então concluir que é a vida que se pode por em risco, não a morte. Mas naquele seminário, o jornalista expressava-se com uma ênfase tal que parecia querer passar sermão na plateia incauta, certamente usuária de mais esse “abuso de linguagem”.
            Saí do auditório em que o loquaz jornalista pregava e fui consultar o povo que transitava pelo pátio da universidade para saber o significado de “correr risco de vida”. Não foi surpresa constatar, depois de perguntar a várias pessoas, que “correr risco de perder a vida” tenha sido a resposta predominante. Pelo menos uma coisa pode-se postular a partir da resposta mais escolhida pelos transeuntes: “correr risco de vida” é nada mais que “correr risco de perder a vida” depois de sofrer o processo de elisão do sintagma verbal “perder a”. O lamentável mesmo é constatar que essa tolice propagada pelo jornalista global ganhou crédito de muita gente de jornal e televisão. O que tem de gente correndo risco de perder a morte por aí, ou expondo a morte em risco não se conta.
            O que eu sei mesmo é que, via de regra, temos que dar um chega pra lá nesse tipo de argumento que gruda numa lógica claudicante e se esquece de enxergar a língua vivinha passeando pela boca do povo. Prof. Alan Oliveira Machado

sábado, dezembro 01, 2012




DO OUTRO LADO DA RUA

O nome do bar era Aula Vaga, mas, com justiça, bem poderia ser chamado de Qualquer Aula... Ficava numa esquina a uns trinta metros do portão da universidade e num fim de tarde de muitos, durante o horário das aulas de Teoria da História e Filosofia Contemporânea, lá estavam duas almas solitárias no puxado do boteco, separados por copos cheios de cerveja e unidos em divagações. Um da Filosofia, com cabeça raspada e um forçado e juvenil bigode nietzschiano enfeitando o semblante romântico melancólico, o outro mal barbeado e com longos cabelos heavy metal meio pastosos era da História e gesticulava enquanto enforcava um cigarro de bali entre o dedo indicador e o polegar. -O tempo é uma ficção, velho! Só há linhas de fuga e tangentes e máquinas de linguagem reinventando o nada sobre o nada, saca!! Desabafou o estudante de bigode nietzschiano.
-Nada a ver, disparou o Hobsbawn roqueiro de araque: -Esse é um papo homem bomba! E eu posso muito bem datar esse engodo metafísico ao longo dos anos! E ali ficaram os dois atirando farpas lambuzadas de cerveja e defumadas pelas piores cigarrilhas do campus. Então desabou um aguaceiro forte. A chuva formava como que uma cortina de ferro entre o puxado do bar e a portaria da universidade, o tempo feio separava aquela metafísica etílica da outra concomitantemente semeada do outro lado da portaria do campus, como se fossem duas ideologias antagônicas. Foi então que o homem bomba da filosofia deixou despencar o ar melancólico do rosto e danou a babar a chuva: -Veja aí, velho, essa chuva é uma dádiva, saca! É algo que suspende o deserto niilista da existência e impõe o tumulto verde da vontade de potência... Essa coisa que faz a gente assoviar sem saber por que e gargalhar para o mato molhado, saca!! A chuva é o melhor... É a afirmação... É a volta por cima dos desvalidos, saca!! Sorria, velho, sorria!!! E deu uma gargalhada e quis dançar pelo puxado do bar lembrando Zaratustra. O historiador roqueiro apenas olhava e sorvia longas tragadas do décimo cigarro. Aos poucos, a chuvarada recuou fazendo uma ou outra estrela furar o turvo do céu e então o bar se encheu de mariposas, aleluias e formigas de asas e a luz decadente que pendia sobre a mesa dos dois pensadores virou uma festa caótica de insetos que fez o tal filósofo amaldiçoar a chuva com os piores palavrões. 19-11-2012

sábado, outubro 27, 2012

sexta-feira, agosto 03, 2012


SOBRE LEITURA E BIBLIOTECAS

                                    Prof. Alan Oliveira Machado

Entre outras coisas, o ser humano desenvolveu a escrita porque um dia teve necessidade de preservar sua memória, de forma que pudesse consultá-la a qualquer momento. Isso permitiu a ele transmitir suas experiências e conhecimentos às gerações posteriores. A partir do momento em que começou a acumular conhecimento e a utilizar esse saber acumulado, a humanidade tornou-se dominante no planeta e toda a sofisticação tecnológica de que dispomos hoje é fruto do uso crítico desse conhecimento guardado.
 Atualmente, há várias formas de armazenar o conhecimento: livros, CDs, fitas, softwares, pen drives, chips etc. Todas essas modalidades de suportes, de certo modo, podem ser encontradas em bibliotecas. Dentre elas, sabemos que o livro é a mais tradicional forma de preservar o conhecimento. Embora o livro seja a forma que concentra maior simbologia, todos os outros recursos trazem um ponto em comum com o livro: eles são materiais de leitura, repositórios de linguagem. A linguagem e a leitura então são os elementos mais importantes de todo esse processo. Nenhum desses instrumentos faz sentido sem linguagem e leitura. Afinal eles não são apenas depósitos de informação e sabedoria, são instrumentos que devem ser utilizados num processo de interlocução que vise dar condições ao usuário de interagir com o mundo de forma a transformá-lo, a protegê-lo, a torná-lo melhor.
A biblioteca então é esse espaço sagrado que permite ao ser humano o acesso a sua história, a sua linguagem, a seu fazer e a seu saber. O acesso a esse universo é fundamental para a compreensão do próprio homem e do meio em que vive. Assim, ler é um exercício de descoberta do mundo. Por meio da leitura o ser humano se desentorpece, abre-se para o mundo e passa a vê-lo de forma mais sensível, mais crítica. A partir da leitura, ele pode avaliar melhor suas ações cotidianas e a si mesmo, já que, em grande medida, é constituído pela linguagem, por aquilo que lê. Isso quer dizer que, em certo grau, deixamos de ser aquilo que não lemos.
No mundo atual, onde predominam a informação rápida e a alta tecnologia, é inconcebível ainda haver pessoas que não consigam se situar no universo da linguagem, que não saibam ler ou que não gostem de ler. Essas pessoas, à medida que estão afastadas da leitura, do conhecimento, tornam-se reféns do meio social e reagem inconscientemente a essa condição de forma equivocada, às cegas, provocando situações que ajudam a atrapalhar o bom desenvolvimento da sociedade como um todo. Inaptas para fazer uma leitura de mundo, crítica e eficaz, elas seguem como bois dependentes das rédeas, a maioria das vezes opressivas, do meio em que vivem.
Paulo Freire nos ensina que "a leitura de mundo precede a leitura da palavra" e aqui precisamos acrescentar que a leitura da palavra atualiza a leitura de mundo, tornando-a critica e renovadora. Ler, portanto, é um gesto revolucionário que garante ao leitor o acesso ao plural mundo da linguagem, à diversidade da realidade e por isso mesmo amplia as possibilidades de escolha do leitor, sua liberdade de decisão, enfim, sua cidadania.
A biblioteca deveria ser um bem fundamental, imprescindível em municípios, cidades, escolas, casas de família, clubes etc. O conhecimento nos humaniza. Em consequência disso, nos autodenominamos homo sapiens, ou seja, o homem do saber. Essa consciência básica, do que somos e de quem somos, nos leva a inferir que onde não há bibliotecas há desigualdades, há processos de desumanização, há pouco desenvolvimento, pouco senso crítico, pouca sensibilidade estética etc. E a superação desses problemas é inseparável do acesso aos livros e demais suportes de linguagem e de conhecimento.

domingo, julho 22, 2012

QUANDO A INTENÇÃO É SÓ DOUTRINAR

            Na atividade de analista de discurso, aprende-se a lidar tanto com o silenciado quanto com o dito. Ocorre que toda materialização de linguagem se dá por meio de escolhas, conscientes ou não, e essas escolhas silenciam outras possibilidades do dizer que insistem em rondá-lo (nem sempre em boa hora) de tal forma que o sentido do dito tem sua constituição fundada nessa relação entre o que se disse e o que se calou. Todo esse jogo faz muitos sentidos circularem, mas os usos que se fazem deles nem sempre correspondem ao contexto imediato no qual circulam.
            Outro dia presenciei um professor de história advertindo um seu interlocutor, de forma inadequada, sobre o uso do termo “denegrir”. O uso do termo “denegrir” utilizado na discussão pelo interlocutor não estava referencialmente sendo tomado no sentido racista com o qual foi muitas vezes empregado no séc. XIX. O alerta do professor de história é que forçava essa interferência, forçava essa relação com a memória.
            A palavra denegrir, originada da raiz latina niger que significa “negro”, foi difundida dentro da mentalidade escravocrata que, para justificar a escravidão, classificava os negros escravizados como animais, sujos e degenerados. Assim, denegrir, que etimologicamente significa sujar, manchar até ficar com cor escura, negra, sem qualquer tintura racial, naquela época (institucionalmente escravista), ganhou uma oportunista conotação étnica e passou a ter o significado de tratar alguém como se fosse negro, ou seja, “sujo, degenerado, animalizado”. Isso quer dizer que a palavra tem esse lastro na memória, mas quer dizer também que a memória traz consigo as condições de produção do sentido da palavra para a época e que na atualidade essa memória não cabe em qualquer contexto. Há inclusive quem conteste a conotação racista do lexema “denegrir”. O escritor Eduardo Martins, por exemplo, ao defender que nem todas as expressões se referem ao negro como etnia, diz que a palavra denegrir surgiu no século XV, portanto, antes da escravidão no Brasil. A informação é correta, embora não sirva aqui como argumento.
            Em Semântica, disciplina ainda ligada à visão imanentista da linguagem, o que aconteceu com tal vocábulo seria chamado de mutação semântica diacrônica, isto é, quando a palavra muda de sentido com o passar do tempo, chegando a um novo momento histórico com uso e sentido distintos do original. Foi o que aconteceu com o termo “amante” que até início do século XX referia-se positivamente a alguém que ama e hoje se refere a alguém que participa de uma relação adúltera.
            Assim como o uso do termo "amante" não permite atualmente entendê-lo como "aquele que ama", sob pena de se criar sérias indisposições sociais, o mesmo pode-se pensar sobre "denegrir" quando rotulado como termo racista. Por essas e outras razões deve-se fazer uso cuidadoso das palavras, mas não necessariamente condená-las com base em seu passado infeliz, ainda que verdadeiro. Do contrário, teríamos que abandonar grande parte do vocabulário em uso na atualidade. Vejamos, a título de exemplo, o étimo de algumas palavras bem populares: trabalho, do Latim, tri paliu, ou seja, três paus, castigo imposto pelas tropas romanas aos exércitos derrotados, que consistia em fazer os membros desses exércitos rastejarem sob um estrado feito com sequências de três lanças romanas. Dócil, doçura, do Latim, docere, aquele que se deixa submeter, qualidade de quem é submisso. Cretino, proveniente de um dialeto franco-provençal dos Alpes Suícos, cretin, referente a cristão, pessoa aparvalhada, de raciocínio lento, tola. O sentido se deve ao fato de os vários cristãos fugidos de regiões com baixa taxa de iodo no sal terem desenvolvido uma espécie de tireoidismo que os deixava com aparência de tolos, tontos... Agora, raciocinem comigo: faz sentido apelar para a origem dessas palavras como forma de repreender seu uso, taxando-o de preconceituoso etc., etc., etc.?
            Se em termos de linguagem não faz sentido esse tipo de perseguição a palavras, seria essa uma prática fundamentalmente ideológica? Seria uma muleta de discussão com a finalidade de exercer controle sobre os outros? Seria uma forma de criar argumentos para rotular adversários? Se for é ridículo, é coisa realmente de quem não tem argumento, de quem não tem interesse algum em enriquecer a discussão, mas tão somente dominar o adversário.
            A esse respeito, lembro-me de que, outro dia, estando presente ao lançamento da biografia de um advogado ilustre, por mim revisada, um professor chegou a dizer que eu, como um dos revisores, deveria ter corrigido a expressão “anos negros da ditadura”, constante no tal livro, porque o vocábulo, “negros”, fazia referência pejorativa a cor. Tem dissimulação de ignorância mais estranha do que essa? Todo mundo sabe que a expressão, “negro”, no sentido de cor, tem histórico negativo milenar. Está lá nos bestiários medievais, nos textos pré-socráticos, nos textos de origem persa, egípcios, chineses e indianos. Assim, o termo está apropriado ao contexto em que foi posto. Não fere a ninguém além dos ditadores. Estou vendo a hora de esse pessoal começar a discriminar pessoas que botam luto pela morte de algum ente querido por estarem associando a cor preta à morte, à tristeza e à dor. Ainda bem que a língua não se submete facilmente a esses delírios de milícia.
            Simbolicamente, vê-se que a expressão, “negro”, foi utilizada em “anos negros da ditadura” com o mesmo sentido que a cor aparece no "luto" acima referido, ou seja, com sentido de tristeza, dor e perda. Mais que isso, como ausência de luz, contrário ao dia, levando-se em conta o dia como sinônimo de vida, uma vez que o sol é responsável pela progressão e sustentação do ciclo vital. Esse uso insinua que a vida foi podada no período militar, que aquele período foi de tristes perdas. A simbologia, embora tendenciosa, é coerente. Seu uso se deveu à necessidade de marcar um posicionamento ideológico com relação às práticas do regime militar. E esse uso é visceralmente humano. Agora, despropositado é querer fazer hegemonia discursiva, “patrulha ideológica” com esse tipo de argumento. Banalizar o sentido do que se diz com cerceamentos ideológicos é querer instituir a incapacidade de pensar. Se a intenção for mais discutir do que doutrinar, é melhor procurar entender a expressão dentro do contexto em que foi usada.
            O lamentável de tudo isso é ver que há pessoas que caem irrefletidamente nessas armadilhas retórico-doutrinárias. Sob a faceta do politicamente correto certas pessoas se põem a restringir impropriamente os usos na língua com intenções menos educativas do que doutrinárias e assim procedem rotulando de forma negativa qualquer pessoa que faça uso de expressões que, do raso de seus entendimentos, são condenadas como impróprias.  Foi triste ver o pobre interlocutor do professor de história desamparado, sentindo-se (ironicamente) a ovelha negra do rebanho, achando que cometeu um pecado terrível, pedindo desculpas e lamentando o seu infortúnio.

Prof. Alan Oliveira Machado


terça-feira, maio 15, 2012

UM QUINTO, DOIS QUINTOS E O MESMO INFERNO



                                      Professor Alan Oliveira Machado

É mais que comum dentro do processo de movimentação das línguas vivas o enunciado em dado momento perder a enunciação. Em decorrência disso, o enunciado sobrevive à medida que em torno dele se forma outra enunciação cujos sentidos possíveis  nem sempre têm a ver com os outrora a ele atribuídos. Os ditos populares constituem um campo fértil  para a observação desse fenômeno. Tomemos como exemplo o dito  “feito nas coxas”. Esse dito, segundo o escritor e etimologista Deonísio da Silva, vem dos tempos do Brasil colônia, época em que as telhas eram modeladas tendo como suporte a coxa dos escravos. Como havia escravos com tamanhos e larguras distintas de coxas, as telhas e os telhados ficavam tortos e irregulares. Mais a frente, com o surgimento das telhas moldadas em fôrmas de tamanho único, as telhas feitas nas coxas e os telhados feitos com elas passaram a ser considerados coisas ruins, sem qualidade. Hoje, a expressão “feito nas coxas” cabe sem problemas em contextos situacionais que a evocam com o sentido de coisa ruim, mal acabada e mal feita.
Pois bem, o que me fez refletir sobre essa questão foi o fato de ter lido, no último número da revista Cotoxó, periódico cultural de Jequié-Ba, um pequeno texto que, a pretexto de falar da tradição brasileira de manter o valor dos impostos sempre nas nuvens, acabava historiando sobre uma expressão ainda muito popular em nosso cotidiano, qual seja: “quintos do inferno”.  Diz o texto que a expressão remonta aos tempos do Brasil colônia quando o governo português taxava as riquezas exploradas nas terras tupiniquins com um imposto que consumia um quinto de tudo que se extraia ou produzia. Segundo o autor do texto, já indignados com a extorsão do império lusitano, os grandes proprietários brasileiros passaram a se referir ao imposto como o “um quinto dos infernos”. A revolta com o tal “um quinto” foi tanta que a certa altura, num episódio conhecido como “Derrama”, fez irromper a Inconfidência Mineira. Ao que parece, o “um quinto” era um inferno na vida daqueles brasileiros, era uma coisa do cão, era o quinto dos infernos.
Mas a curiosidade que conduziu meu interesse à origem da expressão “quinto dos infernos” vai um pouco além: é de viés linguístico, especificamente semântico. O fato é que o “quinto dos infernos” tem cunho matemático, porém o uso em alguns lugares deu-lhe um sentido geográfico. Creio que não é difícil encontrar alguém que  presenciou ao longo dos anos muitas pessoas em meio a desentendimentos mandar o desafeto para o “quinto dos infernos”. Nesses casos, o referido “quinto dos infernos” ganhou status de lugar apropriado para enviar alguém que nos enche a paciência, que nos tire do sério. Geograficamente falando, “o quinto dos infernos” deve ser algum lugar, mais inóspito do que conseguimos imaginar, situado no inferno.
Ao comparar os dois usos da expressão, nota-se que a operação diacrônica de mudança de sentido fez uso da metáfora. Percebe-se aí um deslocamento do campo de referência do conjunto significante, como depreendemos do sentido tradicional de metáfora.  A metáfora é um fenômeno semântico corrente no uso diário da língua, quando estão em funcionamento os seus (da língua) inseparáveis mecanismos de produtividade e de economia. O referido fenômeno caracteriza-se como uma transposição, ou melhor, ocorre quando uma palavra ou expressão é transposta para um campo semântico que não é  propriamente o do objeto que ela designa. No caso em questão, “quinto”, que inicialmente apontava para um número fracionário condenado socialmente,  passou a ser um lugar, o pior dos lugares e ao ser usado de tal forma tendeu a uma duplicidade metafórica. Isso quer dizer que primeiro “quinto” é fração, mas está figuradamente desempenhando função de lugar e “infernos”, que metaforicamente funcionava como qualificativo negativo de “quinto” fração, passou metaforicamente a substantivo, denominativo geográfico do lugar “quinto”. Constituída a transposição obtém-se  o todo figurado em “vá pro quinto dos infernos” que está no lugar de “desejo-lhe o pior”. Sendo assim, a fração negativa “quinto dos infernos” passou a significar um lugar ruim e o lugar ruim a significar um desejo negativo.
Resta dizer que é enriquecedor observar esses movimentos singulares operados pela língua. Eles são provocadores de mudanças de sentido, no tecido significante, que vão saltando de lugar a lugar e de época a época, reaproveitando enunciados como um combustível que  faz girar a incansável roda da produção de sentidos com a qual os súditos da língua, os usuários, têm de lutar no dia a dia. Essa luta, como diria o poeta Carlos Drummond, é uma luta com palavras, uma luta para expressar; é luta vã, uma vez que a roda gira continuamente. Por falar nisso, retomando o assunto dos impostos extorsivos, se os habitantes do Brasil colônia achavam o imposto de um quinto uma violência, o que dizer dos impostos de hoje que correspondem a dois quintos? Seria o caso de mandar os governantes para o quinto dos infernos?

sábado, abril 21, 2012

PELA MORALIZAÇÃO DAS CARTEIRINHAS DE ESTUDANTE



                                                                           Alan Oliveira Machado*

            O Movimento Estudantil (ME) no Brasil é protagonista de muitas lutas importantes. Suas ações atravessaram períodos democráticos, períodos de exceção e suas bandeiras modularam a estampa sempre oscilando entre as macropolíticas e as micropolíticas, mas invariavelmente atravessadas pela preocupação social, pela preocupação com a inclusão de todos os participantes do processo democrático que constitui o tecido social brasileiro.
            Nos seus contornos internos, o ME travou muitos embates no interior da universidade país afora. Em Goiás,  o ressurgimento, em 1980, das organizações estudantis estranguladas anos antes na luta contra o regime militar  possibilitou a retomada não apenas de grandes pautas políticas, como a legalização dos partidos comunistas, mas a retomada do debate sobre direitos dos estudantes que ainda não haviam sido concretizados pela movimentação política dos estudantes. Nesse período de restabelecimento do ME em Goiás surgiram muitas frentes importantes. Na faculdade de História da UFG, por exemplo, o jovem estudante Gilvani Felipe, então presidente do CA de História, e Romualdo Pessoa empreendiam uma significativa movimentação em busca de garantir, no meio acadêmico, mais espaço para a reflexão sobre a memória dos movimentos de resistência ao regime militar. A partir daí fortaleceram-se iniciativas sobre a memória das lutas no campo, sobre a Guerrilha do Araguaia e sobre a memória das lutas estudantis.
            Nesse clima de consciência política aguçada, as reivindicações por passe estudantil livre e mais a frente pela instituição da meia entrada em eventos culturais e cinemas, mediante a apresentação da carteirinha de estudante, ganharam força. A luta pela meia entrada via carteirinha, por exemplo, mostrou dois importantes pontos positivos que valiam a sua defesa a qualquer custo: primeiro formatava-se como uma prática  inclusiva uma vez que instituída, a meia entrada garantiria a milhares de estudantes o acesso a importantes expressões culturais do país, disponíveis apenas sob o pagamentos de caros ingressos;  depois o dinheiro da venda das carteirinhas garantiria fundos indispensáveis à organização das lutas dos estudantes espalhados por DCES, CAs, DAs, já que tal renda seria distribuída em forma de cotas para todas as entidades estudantis, incluindo a UNE e as UEEs.
            Os estudantes venceram a luta pela meia entrada. Segundo a associação de donos de salas de cinema, por exemplo, 40% dos ingressos vendidos representam a meia entrada. Mas como o direito de emitir carteirinhas não é um privilégio apenas das entidades estudantis, sua dupla finalidade inicial foi alterada. A renda que antes se destinava à organização das entidades estudantis agora pode ser abocanhada por donos de escolas, por professores e todo tipo de comerciante que pouco se importa com o movimento estudantil, sua organização e suas lutas. Hoje em dia, há professor efetivo no Estado que entra nas escolas da rede estadual pra fazer carteira de estudante contrariando inclusive o estatuto do magistério. Pululam pelos meios escolares verdadeiros camelôs de carteirinhas, imprimindo-as  sem qualquer critério, com o único fim de extrair lucro. A seriedade das carteirinhas cuja expedição exigia preenchimento de formulário, cópia do comprovante de matrícula foi substituída até por serviço delivery. Há empresas atuando em Goiânia que aceitam pedidos por telefone e entregam a carteirinha em casa como se fosse uma pizza. Tudo isso tem gerado suspeitas sobre a idoneidade dos expedidores de carteirinhas e angariado prejuízos para as entidades e para os estudantes. Muitas empresas de eventos culturais ou criam constrangimentos aos estudantes nas suas portarias ou aumentam os preços dos serviços e espetáculos tornando o acesso à cultura ainda mais inviável.
            Está passando da hora de o Movimento Estudantil retomar a discussão sobre o uso da carteirinha. Até porque entidades representativas dos estudantes como a UEE-GO, os DCEs, DAs, CAs começam a sofrer não apenas por causa do excesso de emissores de carteirinhas descompromissados, mas pela baixa de credibilidade, pela desmoralização que a mercantilização desordenada dessas identidades estudantis vem causando, coisa que desvirtua as finalidades do benefício. Associações de entidades promotoras de eventos culturais são  unânimes em afirmar que o volume alto de falsificações os obriga a aumentar o preço dos ingressos,  que pelo menos 20% dos bilhetes de meia entrada nesses eventos são irregulares. Isso é grave e começa a transformar algo que era um benefício em uma larga vala de exclusão. Por isso mesmo que providências precisam ser tomadas. Nesse sentido, um  dos caminhos seria acionar o Ministério Público para que fiscalize as empresas e entidades responsáveis pela emissão das carteirinhas no estado, para que investigue as irregularidades e ajude os estudantes a por fim na farra em que se transformou a emissão de carteirinhas no Estado de Goiás de modo a preservar o direito à  meia entrada conquistado pelos estudantes à custa de muita luta. 

*Professor e Coordenador de Assuntos Estudantis da UEG/ Iporá.

quarta-feira, abril 18, 2012

GRAMÁTICOS E GRAMATIQUEIROS


    Gramáticos não são cientistas da linguagem.  Quando muito são estudiosos que detém certo acúmulo de conteúdo sobre língua, mas genericamente baseado em uma visão completamente equivocada do que seja Língua.  Geralmente os gramáticos reduzem a língua a sua variante padrão ou, como preferem alguns deles, sua forma culta. Quase nunca questionam que essa forma defendida por eles com unhas e dentes  é apenas uma variação de uso.
    Como se não bastasse, além dos gramáticos há os gramatiqueiros. Os gramatiqueiros são arremedos de gramáticos. Formam  uma espécie de seita de adoração da gramática. Não conhecem o assunto, mas se opõem  ferrenhamente a qualquer desvio que se faça da variante padrão como se fosse um sintoma de agressão à língua, um pecado mortal.  O fato de não saberem bulhufas de ciência da linguagem os torna meros professores de etiqueta da variante padrão.

   Os jornais e meios de comunicação estão cheiinhos de gramatiqueiros propalando o que é certo e o que é errado no uso da língua, emitindo opiniões fantasiosas como se fossem a verdade e fazendo perseguições ao que eles mesmos desconhecem. Há braços!

terça-feira, novembro 15, 2011

MEU MUNDO

Sou do mundo da linguagem, acho que já disse isso por aqui em algum lugar. Pensar por esse caminho quer dizer um monte de coisas. Para mim, em princípio, quer dizer que a linguagem ( linguagem em sentido bem lato) estabelece a ordem num mundo sem ordem. Se a ordem do mundo é uma construção, o que move o meu espírito é a preocupação constante de saber como se vai montando a ordem ao longo do jogo simbólico ininterrupto. Quem atribui sentidos a determinados signos e quem organiza os sentidos em redes de significação que vão constituindo campos ideológicos? Sim, porque só há ordem se houver sentido. Importa-me saber e perscrutar, e entender como esses campos vão capturando indivíduos e sujeitando-os, melhor, transformando-os em sujeitos. Ou mesmo, como os indivíduos, com os desejos dispersos na massa simbólica e movediça, vão se territorializando, se fazendo sujeitos em zonas de intensidade. alan machado

quarta-feira, outubro 26, 2011

EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA, DO TRIPÉ AO TRONCO



                                                                   Prof. Alan Oliveira Machado

Como elaborar um conceito de extensão que fuja das práticas tradicionais e resistentes que ainda hoje dominam as discussões e emperram a materialização de uma política extensionista plena na universidade? Para responder a esse questionamento precisamos situar as duas práticas tradicionais.
Primeiramente, não é raro encontrar no ambiente acadêmico a ideia de que a extensão é um trabalho assistencialista que busca socorrer nichos sociais afetados pela exclusão e pela pobreza. Em conformidade com esse entendimento, naturalizou-se, em certos espaços da academia, quando diante de alguma demanda social dessa natureza, encaminhá-la para a Pró-Reitoria de Extensão resolver. A compreensão da extensão como assistência, do modo como apontamos acima, é equivocada. O imediatismo da remissão de tais problemas para a extensão implica certa ausência do tato científico com o qual a universidade precisa tocar tudo que a constitui e que a rodeia.
No afã de dar respostas a essa falta de tato científico de alguns setores da academia, há quem norteie a discussão sobre extensão dividindo o fazer acadêmico em três partes ordenadas da seguinte maneira: ensino, pesquisa e extensão, para em seguida sustentar que tais partes são indissociáveis. A questão é: se são indissociáveis por que dissociá-las antes de dizer que são indissociáveis? O que há de impropriedade em falar de tripé, em idealizar três coisas é que a universidade acaba tendendo a pensá-las sempre de forma separada para só depois procurar conexões com as demais partes. E quando chega a tais conexões muitas vezes enfrenta resistências internas tanto por parte das áreas de pesquisa quanto das de ensino.
Quando se pensa pelo viés do tripé, invariavelmente elabora-se uma falsa segmentação de algo que em sua natureza não é segmentado. O sentido do fazer acadêmico, seu núcleo existencial é a pesquisa. Desde a antiguidade, as instituições, se assim podemos dizer, que mais se aproximaram do que hoje denominamos como universidade se pautaram pela investigação da realidade, da matéria com o fim de torná-la cognoscível, manipulável e aplicável. Esse modus operandi sofisticou-se e diversificou-se na modernidade ganhando perenidade sob a alcunha de pesquisa científica.
Não existe de fato universidade onde não há produção de pesquisa. E o certo mesmo é pensar que a academia só produz pesquisa. Antes de provocar qualquer desconforto a esse respeito com afirmações tão diretas é importante dizer que ensino e extensão são estágios da produção de conhecimento. Se há instituições de ensino superior que se concentram apenas no ensino e na extensão, não custa nada perguntar sobre a qualidade de tal ensino e tal extensão quando se compreende que ambos são desdobramentos de uma única prática: a pesquisa.
No princípio, a pesquisa busca cercar o objeto, inquiri-lo, conhecê-lo e constatar suas possibilidades. Após essa primeira fase, ou no decorrer dela, a pesquisa ganha status de conhecimento e já pode ser situada num estágio cuja função principal é a sua disseminação. Nesse estágio, ela vira ensino, ocupa as salas de aula, por meio do exercício docente/discente, e concomitantemente alcança seu último estágio que se efetiva predominantemente fora dos muros da academia: a extensão.
Não sem razão qualquer um poderá apontar como linear demais a sequência acima: pesquisa, ensino e extensão. Antes que isso aconteça convém afirmar que não existe projeto de pesquisa, mesmo da mais pura pesquisa, sem finalidade e sem objetivos. Se há finalidade e objetivos é porque é inerente ao ato de pesquisar as preocupações com a produção de algum conhecimento, a divulgação dele e sua conversão em desenvolvimento tecnológico, social e econômico. Se isso é inseparável da natureza da pesquisa, as práticas que segmentam o fazer acadêmico em pesquisa, ensino e extensão não podem fazê-lo sem um grande cuidado. Negligenciar qualquer um desses estágios da pesquisa, promover o desequilíbrio entre eles enfraquece a universidade, porque em suma fragiliza a prática da pesquisa. 
Tendo em vista o que foi discutido até o momento, não custa concluir que no lugar da analogia do tripé, encontramos mais pertinência ao empregar a ideia do tronco. O grande tronco que sustenta a árvore do conhecimento e do desenvolvimento humano chamada Academia é a pesquisa. Como todo tronco, a pesquisa tem seu cerne, seu "mesocarpo" e sua casca, ou seja, desdobra-se naturalmente em três fases inerentes: a relação solitária do pesquisador com o objeto, o ensino e a extensão. E toda essa estrutura do fazer acadêmico indiscutivelmente sustenta-se no solo e no emaranhado de raízes que constituem a sociedade, com seus acúmulos históricos e suas demandas presentes. 

domingo, agosto 28, 2011

ATIRE O PAU NO GATO, EM VEZ DE ATIRAR NO PRÓPRIO PÉ



Esta semana vi uma pedagoga repreendendo um estagiário que cantava com criancinhas do pré a música  “Atirei o pau no gato”.  Segundo ela, que se dirigiu cheia de delicadeza  ao estudante em estágio , seria mais interessante cantar “Não atire o pau no gato”.  E entoou, no mesmo ritmo, uma versão politicamente correta da referida cantiga infantil: “Não atire o pau no gato... to/ por que isso... so/ não se faz... faz... faz/ o gatinho...  nho é nosso amigo... go/ não devemos maltratar os animais”.  Fiquei assistindo à cena: o estagiário ouviu atento a orientação pedagógica e, logo após, incitou a criançada a repetir com ele a versão politicamente correta da cantiga infantil.  Sentindo-se atendida, a pedagoga retirou-se satisfeita com sua intervenção revolucionária.
Nada contra a escola ensinar a criançada a não maltratar os bichinhos, entretanto fiquei pensando em por que não existe uma música “Atirei o pau no cachorro”? Afinal, cachorros são tão presentes na vida da meninada quanto gatos. Em busca de resposta, meu raciocínio mergulhou em  uma divagação de ordem semântica a respeito de gatos e cachorros que esbarrou na seguinte conclusão: cachorros são domésticos e gatos domesticados.
Se a explicação para minha pergunta está no fato de cães serem domésticos e gatos domesticados, qual a diferença entre doméstico e domesticado? Diria que domesticado é o animal independente, com o grosso dos instintos preservados, porém adaptado ao convívio humano; e doméstico é aquele bicho que já não consegue sobreviver sem a presença humana. Cachorros não raro morrem de fome e sede se o dono não os alimentar. Cachorros são domésticos. Gatos se viram. Saem à caça se lhes faltar ração ou água. Seguindo por esse caminho, no feixe de sentidos do termo doméstico diria que há o sema “mais dependente” e todas as convergências de sentido advindos de sua presença ao passo que em domesticado há o sema distintivo “mais independente” igualmente amarrado a uma trama de sentidos específicos . Tendo em vista tais especificidades posso dizer que gatos, no que tange à preservação dos instintos, geralmente são mais selvagens do que cachorros, portanto mais imprevisíveis.
Se gatos são mais presos às fronteiras de socialidade de suas origens é natural pensar que em algum momento eles poderão comportar-se de forma perigosa no ambiente doméstico, expondo a risco a integridade física de crianças que ainda não têm noção dos limites das relações com animais caseiros. Assim, não fica difícil imaginar porque a sabedoria popular investiu na criação da musiquinha “Atirei o pau no gato”. Desde cedo é bom que criancinhas saibam manter distância de um bicho que não vai entender, como os cães costumam entender, certas brincadeiras fora das proporções protagonizadas pela criançada.
Olhando por esse ângulo, o “Não atire o pau no gato”, com toda a simpatia preservacionista que encerra,  ignora um saber do povo cuja finalidade é educar a criança para um distanciamento preventivo de um animal que bem poderá  ferir-lhe a qualquer momento. Há braços!