segunda-feira, julho 08, 2013

O MAL-ESTAR VAI ÀS RUAS

Alan Oliveira Machado*

Em 1992, depois de uma série de escândalos de corrupção, pressionado pela oposição, por sindicatos e movimentos ligados à esquerda, o então presidente Collor de Mello foi à televisão pedir ao povo para que saísse de verde e amarelo no dia seguinte em apoio ao seu governo. O que se viu como resposta foi a eclosão, em todo o país, à revelia do que pedia o presidente, de manifestações populares nas quais as pessoas se vestiam de preto, numa espécie de luto por tudo o que vinha acontecendo na política brasileira. O discurso do presidente em cadeia nacional foi a faísca que faltava para fazer explodir uma onda de mal-estar, num primeiro momento impulsivo e sem controle, que mais a frente encontrou acolhida nas representações de partidos políticos, sindicatos, centrais sindicais, entidades estudantis e do movimento social. O que antes era apenas espontaneísmo se institucionalizou por meio dessas representações, minou e sufocou as bases do governo a ponto de materializar o impeachment do presidente.
Depois desse processo, o país começou a encontrar o caminho da reestruturação e da estabilidade econômica com os dois governos de FHC, gestados dentro das equipes incorporadas ao resto do mandato de Collor assumido pelo vice-presidente Itamar Franco. O que nos parece óbvio nessa trilha que vai da queda de Collor até o atual momento é que até o último mandato do PSDB, o Brasil contava com partidos de esquerda, sindicatos e representantes de movimentos sociais e estudantis que funcionavam bem ou mal como forças políticas de pressão e fiscalização do poder instituído, inibindo os excessos do governo em articulações políticas e nas alianças que promoviam certa licenciosidade no trato da coisa pública, degeneradas em corrupção. Os excessos ensaiados eram prontamente denunciados por esses movimentos e a luta dentro do poder ganhava seus tons e alternâncias.
Com uma conjuntura econômica mundial favorável e com investimentos consideráveis na expansão de programas sociais, o clima de bonança econômica veio à tona de vez nos mandatos de Lula, mas algo de estranho acompanhou esse momento. Desde o primeiro mandato do PT, tudo que representava pressão social e fiscalização do poder nos mandatos anteriores desapareceu. O petismo incorporou esses segmentos ao seu governo e o sentimento de revolta do cidadão comum com a corrupção e os desmandos perdeu seus espaços de acolhida na institucionalidade política. Sem quem os fiscalizasse ou pressionasse, os esquemas do poder ultrapassaram os limites e o que se viu foi um processo de escancaramento e tentativa de naturalização da licenciosidade dos políticos no trato da coisa pública.
A partir daquele momento, os escândalos não eram mais motivo de intensas movimentações e protestos revoltados de entidades como CUT, UNE etc. Quando não estavam completamente silenciosas, como no atual momento, essas organizações estavam protestando em defesa de causas estranhas ao povo. Quem não se lembra da manifestação de dezembro de 2008, na frente do Congresso Nacional, promovida pela CUT, pela Força Sindical e demais aliados, no dia em que o Conselho de Ética da Câmara dos Deputados estava votando a cassação do deputado Paulo Pereira (PDT), o tal Paulinho da Força? Qual a finalidade daquela manifestação? Pressionar o Congresso por um aumento de salário para o trabalhador brasileiro? Pedir redução de impostos ou redução de juros etc, coisas que afetam a vida de todos os trabalhadores brasileiros? NÃO! A manifestação das centrais era para pressionar os deputados a votarem contra a cassação do tal Paulinho da Força, pego no esquema de propinas ligadas ao BNDES. E a pressão das centrais sindicais valeu a pena? CLARO! Paulo Pereira não foi cassado e comemorou com muita cerveja ao lado dos amigos e aliados políticos.
Até a eclosão das atuais manifestações, o povo brasileiro dividia-se entre o mal-estar com os escândalos de corrupção e a euforia de consumo produzida pela estabilidade econômica. A volta da inflação, no entanto, transformou a euforia em dívidas e angústia restando apenas o mal-estar que encontrou como estopim e faísca o aumento das passagens de ônibus. As manifestações seguem errantes pelo país e são palco de toda sorte de reivindicações. Tudo quanto é excesso político que ficou entalado na última década transforma-se em lemas de cartazes e faixas e em ataques a espaços que simbolizam de certo modo esses excessos: prefeituras, sedes de governos, casas legislativas e bancos. Grupos de esquerda tentam desesperadamente se encaixar como campo de acolhimento e condução do sentimento que toma as ruas, mas enfrentam óbvia rejeição.
O fato é que a partir dos anos de 1980 foi o PT quem se consolidou no imaginário popular como aquele campo da política que fiscalizava o poder exigindo ética e respeito ao patrimônio público, mas sua chegada ao comando político do país e o modo como administra o poder não se diferenciou do dos gestores a que fazia feroz oposição, alguns deles, como Sarney, Collor e Maluf, são hoje aliados inestimáveis. Em função disso provavelmente o sentimento da multidão repele tais representações. Se no movimento cara pintada de 1992 o mal-estar recalcado que foi às ruas encontrou nas representações institucionais de esquerda a guarida fundamental para a sua conversão em ação política, unificada na pauta do impeachment, agora o mal-estar que persiste nas ruas, em plena Copa das Confederações, campeia solto em busca de algo novo, de representações sem identificação com as oferecidas pela arena política atual. Tomara que o mal-estar das ruas propicie o surgimento de um novo modo de fazer política antes que degenere em repetição ou algo pior.

quinta-feira, abril 18, 2013

VELHAS FORMAS DE APRENDER E ENSINAR



                                              Prof. Alan Oliveira Machado

Tenho acompanhado as discussões sobre educação e novas tecnologias com certo ceticismo. A impressão que fica quase sempre é a de que as perguntas feitas a esse respeito estão mal formuladas ou fora do lugar. Quando alguém pergunta, por exemplo, como as tecnologias afetam a educação não faz uma má pergunta embora, no caso, o termo afetar esteja vago. O melhor a fazer seria especificá-lo, de modo a direcionar o questionamento à demanda que precise de respostas emergenciais. Mas quando perguntam se os tablets substituirão o professor fico pensando em até que ponto a retórica não continua sendo a tônica da discussão. Não é difícil imaginar que tablets não são professores. Que são apenas plataformas para aplicativos que buscam e armazenam conteúdos permitindo, a quem souber usar, um grau de interatividade mais diversificado do que um livro, não necessariamente do que uma boa aula. Que a tecnologia acelerou o acesso e o modo de acesso a conteúdos não podemos duvidar, mas as incertezas são abundantes quanto à assimilação ou à qualidade da interação com esses conteúdos disponibilizados de modo tão fácil e farto.
Até então, o que a tecnologia muda é o modo de acesso não propriamente o resultado do acesso aos conteúdos. Ela reduz espaço e tempo, tornando disponível, de forma rápida, a teia de convergências e de divergências necessária para se verticalizar a compreensão do conteúdo. O que em outros tempos demandava meses para ser feito, em termos de pesquisa de conteúdos, faz-se em um dia com custo mínimo. Essa, por enquanto, é a maior virtude dos recursos tecnológicos aplicados à educação. Mesmo assim, isso não quer dizer que todos conseguem lidar de forma pertinente e produtiva com a quantidade imensa de dados e informações que podem receber em uma busca instantânea no banco de dados de um tablet ou netbook conectados na rede. Desse modo, o percurso da aprendizagem ainda precisa do fio de objetividade estendido por um bom mestre.
Há quem evoque uma entidade supostamente criada pela era tecnológica, muito na moda hoje em dia, chamada inteligência coletiva e colaborativa como a força motriz de um modo novo de aprender. No entanto eu pergunto: a inteligência que sempre serviu à educação não é coletiva e colaborativa? De onde um professor tira o conteúdo de suas aulas? Posso inferir que tal apego ao conceito de inteligência em questão tenha a função de questionar aquele depreciado papel do professor como o único detentor do saber. Tudo bem, mas, em tese, qual saber o professor encarna? Não seria o coletivo? Ora, se é coletivo não é único. É óbvio que não podemos negligenciar a forma veloz, densa e concentrada que as redes online conseguem imprimir ao conhecimento organizado de forma  coletiva e colaborativa, na verdade existente como prática desde que o homem inventou o signo. Mas é necessário entender também que o modo equivocado como certos professores tratam o conteúdo não impedirá que ele (o conteúdo) continue a existir e não eliminará sua natureza coletiva e colaborativa.
Bons professores e maus professores sempre existiram e o giz, o livro didático, o data-show, ou o tablet não vão necessariamente mudar isso. O livro didático, por exemplo, surgiu como uma ferramenta, um roteiro de apoio para o professor. Os bons professores nunca deixaram de tratá-lo como tal, como apenas mais um objeto acessório a seu serviço. O que fizeram os maus professores? Transformaram o livro didático em uma entidade regente. O referido livro que era para ser coisa do professor, pelo modo como foi tratado, transformou o professor em sua coisa. Para muitos que o usam de forma submissa, tal material, que servia de roteiro, desde sempre serve como fonte única de conteúdo. A autoridade da sala de aula desses docentes passou a ser o livro didático com sua natural superficialidade. O mesmo pode acontecer com qualquer suporte tecnológico e o efeito disso vem explícito nos resultados catastróficos da educação.
 Resta dizer que não é benéfico discutir a influência das novas tecnologias na educação tendo como base mistificações a priori. É preciso antes testar tais tecnologias, ter clareza dos seus limites e das funções que podem desempenhar no processo educacional. Do contrário, o prejuízo com a educação pode ser maior do que o imaginado e os resultados pífios como sempre.


sábado, dezembro 29, 2012



MONTEIRO LOBATO E A PATRULHA BOCÓ 

Prof. Alan Oliveira Machado

            Há pouco tempo houve uma polêmica envolvendo o MEC e o Conselho Nacional de Educação com respeito ao conteúdo racista de algumas passagens do livro Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato. Um ativista do movimento negro encaminhou denúncia a instâncias do governo pedindo a retirada do livro da lista de obras do MEC e cobrando seu banimento das salas de aula.
            Imediatamente, comandos ideológicos do movimento negro iniciaram uma patrulha para excomungar a obra de Monteiro Lobato. E o que se viu foi gente que nunca leu uma página da literatura lobatiana alimentando certo apedrejamento simbólico e insano do escritor.
            Monteiro Lobato é, sem dúvidas, o maior escritor de literatura infantil das Américas. Talvez o único que desde os anos 20 do século XX se comprometeu em produzir uma obra exclusivamente para as crianças, mas sem a visão distorcida da infância reinante na literatura voltada ao universo infantil daquela época. A obra de Lobato, nesse quesito, é plural, criativa e educativa. Tanto é que faz sucesso em muitos países. Em alguns, como a Argentina, é mais lida e reverenciada do que no Brasil. Mas, inevitavelmente, em certos aspectos, a criação infantil desse escritor é produto de uma época. Isso não diminui sua inventividade e nem o seu valor, porém nos força a ser criticamente mais cuidadosos com certos aspectos ao empreender sua leitura. E não é assim mesmo que se deve proceder com qualquer leitura?
            No livro Caçadas de Pedrinho, algumas expressões com negativa tintura racial utilizadas por Lobato, ao se referir à personagem Tia Nastácia, soariam com naturalidade nos anos de 1930, quando o livro em questão foi escrito. Entretanto, para os padrões culturais contemporâneos tais expressões são grosseiras e visivelmente desrespeitosas com o negro. Mas isso não justifica o banimento do livro. Não se pode ignorar as muitas virtudes da obra infantil desse escritor paulista em função de um aspecto negativo. A educação que prepara o ser humano crítico não exclui as falhas humanas do espaço de formação da criança, pelo contrário, as traz para a arena da sala de aula e as transforma em conteúdo educativo. Se não fosse assim, a obra do filósofo grego Aristóteles que reproduz uma visão terrível da mulher para os padrões de hoje, aspecto do seu pensamento perfeitamente comum no contexto grego de sua época, lhe tiraria a posição de maior pensador do mundo ocidental de todos os tempos e isso ninguém com neurônios funcionando cogitaria imaginar.
            As patrulhas ideológicas são vozes críticas e contrárias em plena ação. Se fosse só essa sua natureza seria uma maravilha, contudo patrulhas não raro boiam na superficialidade, são indissociáveis de comportamentos autoritários e invariavelmente adeptas da monocultura do saber, no caso o seu próprio. Assim, tendem a querer eliminar o conteúdo que contraria o seu posicionamento em vez de transformá-lo em objeto de formação crítica. O MEC e o CNE não cederam a esse lado bocó das patrulhas. Optaram acertadamente por manter o livro Caçadas de Pedrinho na lista das escolas, orientando os professores a debaterem seu ponto negativo e assegurando aos alunos o convívio com suas muitas virtudes.
            Em virtude dessa polêmica, aproveitei um tempinho à tarde e reli Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato. Foi bacana reencontrar o texto de Lobato com o mesmo sabor de infância de quando o li aos treze anos, numa leva de livros que minhas irmãs trouxeram para casa nas férias de final de ano. Fui reler  Caçadas de Pedrinho para tirar a limpo a conversa de um desses militantes negros que tentou vender a história de que o livro era racista e coisa e tal. Se a gente fosse  dar crédito ao alarde que fizeram  era o caso de se imaginar que o livro é um manual de racismo. A lembrança que tinha da leitura dessa obra de Lobato não correspondia ao exagero do militante racialista, portando achei melhor voltar à história do inventor da boneca mais sabida da história da Literatura Infantil.
       O que constatei foi que só há duas míseras expressões dirigidas à personagem Tia Nastácia, em todo o livro, que podemos constatar como sendo de mau gosto pelo tom racial que pode aventar. Nesta fala de Emília: Não vai escapar ninguém - nem Tia Nastácia, que tem carne preta. E mais à frente, quando as onças atacaram o sítio de Dona Benta e Tia Nastácia subiu apavorada em um mastro, aparece a segunda expressão que os militantes negros consideraram a mais infeliz, descrevendo a ação da referida personagem: trepou que nem uma macaca de carvão pelo mastro...  Há quem conteste o conteúdo racial dessa segunda expressão afirmando que Lobato se referia ao modo hábil como Nastácia, movida pelo medo, escalou o mastro. Macaca de carvão não se refere à cor da personagem, mas a uma espécie ágil de primata conhecida como mono carvoeiro ou macaco de carvão. Tal espécie inclusive tem pelo dourado, conforme a foto. 
            Nas quarenta e três páginas da edição de Caçadas de Pedrinho que tenho aqui em casa, as duas expressões a que me referi são as únicas com tintura racial preconceituosa, se considerarmos a questionável segunda expressão. Mas o livro é tão interessante e a leitura flui com tanta naturalidade que as expressões perdem-se na névoa da insignificância em meio a uma reflexão atual sobre a relação do homem com a natureza que em certos momentos nem parece  feita no longínquo ano 1933: Os homens andam a destruir todas as matas, a queimá-las, reduzi-las a pastagens para bois e vacas
            Quanto à onça que a turma do sítio matou, motivo pelo qual os politicamente corretos condenam o livro por dar mau exemplo, a resposta sobre tal ato Monteiro Lobato põe na boca dos animais da mata: Ora, isto é crime que pede a mais completa vingança. Guerra, pois! Guerra de morte a essa ninhada de malfeitores. Essa capacidade de interpretar a realidade de modo crítico, mas sutil nas histórias para criança que o criador do Sítio do Pica-pau Amarelo dilui em sua obra parece não estar ao alcance das patrulhas ideológicas, quase sempre patinando no grosso da superfície. O conteúdo de Caçadas de Pedrinho não é racista e qualquer ser inteligente pode constatar isso a menos que esteja entorpecido por uma cegueira racialista muito distante do bom senso.

sábado, dezembro 15, 2012


BOBAGENS LOGICISTAS
                        
            Outro dia li um artigo do simpático professor Pasquale Cipro, na Folha de São Paulo, no qual ele tratava de algumas expressões a que chamava de bobagens. Dizia Pasquale que “correr atrás do prejuízo”, forma cristalizada na fala cotidiana do brasileiro, é uma bobagem porque ninguém corre atrás de prejuízo, mas sim de lucro. O professor apega-se a um princípio lógico básico para se posicionar contra tal uso popular, qual seja: julgar os elementos do plano da expressão pelo sentido referencial que eles adquirem dentro do estrito campo de combinação do enunciado. Mas vejamos: se é tão óbvio que ninguém corre atrás do prejuízo, não daria para o professor Pasquale, usando a mesma lógica, concluir que a expressão “correr atrás do prejuízo” veicula outro sentido, pelo que se pode observar, próximo ao contrário do significado literal de “correr atrás do prejuízo”? Pelo que pude constatar, numa rápida pesquisa, “correr atrás do prejuízo” parece significar, para os usuários de tal expressão, algo como “se apressar em resolver problemas pendentes de modo a evitar um prejuízo ou para amenizar os efeitos de um prejuízo”.
            O que o ilustre professor Cipro faz é usar um raciocínio bobo para julgar certos usos linguísticos como bobagem. Na verdade, não há nada de bobagem em usar tais expressões. A língua está cheia delas. Se formos dar crédito para a lógica rasa do professor, teremos que deixar de usar uma série de catacreses e formas linguísticas cristalizadas no português brasileiro porque elas não têm o sentido que se poderia depreender de sua observação literal. Teríamos que abandonar, por exemplo, o uso da expressão “via de regra” uma vez que literalmente quer dizer “canal por onde passa a menstruação”. Bobagem! Bobagem! Bobagem!
            Na mesma toada logicista já havia presenciado, num seminário de comunicação, o jornalista Alexandre Garcia, da Rede Globo, falar com certo orgulho, como se tivesse feito uma descoberta maravilhosa, que não se deve falar “correr risco de vida” e sim “correr risco de morte”. Que eu saiba, não há como colocar a morte em risco. Por outro lado, não posso falar a mesma coisa da vida, pois são incontáveis os vacilos que podem colocá-la em risco. Não fica difícil então concluir que é a vida que se pode por em risco, não a morte. Mas naquele seminário, o jornalista expressava-se com uma ênfase tal que parecia querer passar sermão na plateia incauta, certamente usuária de mais esse “abuso de linguagem”.
            Saí do auditório em que o loquaz jornalista pregava e fui consultar o povo que transitava pelo pátio da universidade para saber o significado de “correr risco de vida”. Não foi surpresa constatar, depois de perguntar a várias pessoas, que “correr risco de perder a vida” tenha sido a resposta predominante. Pelo menos uma coisa pode-se postular a partir da resposta mais escolhida pelos transeuntes: “correr risco de vida” é nada mais que “correr risco de perder a vida” depois de sofrer o processo de elisão do sintagma verbal “perder a”. O lamentável mesmo é constatar que essa tolice propagada pelo jornalista global ganhou crédito de muita gente de jornal e televisão. O que tem de gente correndo risco de perder a morte por aí, ou expondo a morte em risco não se conta.
            O que eu sei mesmo é que, via de regra, temos que dar um chega pra lá nesse tipo de argumento que gruda numa lógica claudicante e se esquece de enxergar a língua vivinha passeando pela boca do povo. Prof. Alan Oliveira Machado

sábado, dezembro 01, 2012




DO OUTRO LADO DA RUA

O nome do bar era Aula Vaga, mas, com justiça, bem poderia ser chamado de Qualquer Aula... Ficava numa esquina a uns trinta metros do portão da universidade e num fim de tarde de muitos, durante o horário das aulas de Teoria da História e Filosofia Contemporânea, lá estavam duas almas solitárias no puxado do boteco, separados por copos cheios de cerveja e unidos em divagações. Um da Filosofia, com cabeça raspada e um forçado e juvenil bigode nietzschiano enfeitando o semblante romântico melancólico, o outro mal barbeado e com longos cabelos heavy metal meio pastosos era da História e gesticulava enquanto enforcava um cigarro de bali entre o dedo indicador e o polegar. -O tempo é uma ficção, velho! Só há linhas de fuga e tangentes e máquinas de linguagem reinventando o nada sobre o nada, saca!! Desabafou o estudante de bigode nietzschiano.
-Nada a ver, disparou o Hobsbawn roqueiro de araque: -Esse é um papo homem bomba! E eu posso muito bem datar esse engodo metafísico ao longo dos anos! E ali ficaram os dois atirando farpas lambuzadas de cerveja e defumadas pelas piores cigarrilhas do campus. Então desabou um aguaceiro forte. A chuva formava como que uma cortina de ferro entre o puxado do bar e a portaria da universidade, o tempo feio separava aquela metafísica etílica da outra concomitantemente semeada do outro lado da portaria do campus, como se fossem duas ideologias antagônicas. Foi então que o homem bomba da filosofia deixou despencar o ar melancólico do rosto e danou a babar a chuva: -Veja aí, velho, essa chuva é uma dádiva, saca! É algo que suspende o deserto niilista da existência e impõe o tumulto verde da vontade de potência... Essa coisa que faz a gente assoviar sem saber por que e gargalhar para o mato molhado, saca!! A chuva é o melhor... É a afirmação... É a volta por cima dos desvalidos, saca!! Sorria, velho, sorria!!! E deu uma gargalhada e quis dançar pelo puxado do bar lembrando Zaratustra. O historiador roqueiro apenas olhava e sorvia longas tragadas do décimo cigarro. Aos poucos, a chuvarada recuou fazendo uma ou outra estrela furar o turvo do céu e então o bar se encheu de mariposas, aleluias e formigas de asas e a luz decadente que pendia sobre a mesa dos dois pensadores virou uma festa caótica de insetos que fez o tal filósofo amaldiçoar a chuva com os piores palavrões. 19-11-2012

sexta-feira, agosto 03, 2012


SOBRE LEITURA E BIBLIOTECAS

                                    Prof. Alan Oliveira Machado

Entre outras coisas, o ser humano desenvolveu a escrita porque um dia teve necessidade de preservar sua memória, de forma que pudesse consultá-la a qualquer momento. Isso permitiu a ele transmitir suas experiências e conhecimentos às gerações posteriores. A partir do momento em que começou a acumular conhecimento e a utilizar esse saber acumulado, a humanidade tornou-se dominante no planeta e toda a sofisticação tecnológica de que dispomos hoje é fruto do uso crítico desse conhecimento guardado.
 Atualmente, há várias formas de armazenar o conhecimento: livros, CDs, fitas, softwares, pen drives, chips etc. Todas essas modalidades de suportes, de certo modo, podem ser encontradas em bibliotecas. Dentre elas, sabemos que o livro é a mais tradicional forma de preservar o conhecimento. Embora o livro seja a forma que concentra maior simbologia, todos os outros recursos trazem um ponto em comum com o livro: eles são materiais de leitura, repositórios de linguagem. A linguagem e a leitura então são os elementos mais importantes de todo esse processo. Nenhum desses instrumentos faz sentido sem linguagem e leitura. Afinal eles não são apenas depósitos de informação e sabedoria, são instrumentos que devem ser utilizados num processo de interlocução que vise dar condições ao usuário de interagir com o mundo de forma a transformá-lo, a protegê-lo, a torná-lo melhor.
A biblioteca então é esse espaço sagrado que permite ao ser humano o acesso a sua história, a sua linguagem, a seu fazer e a seu saber. O acesso a esse universo é fundamental para a compreensão do próprio homem e do meio em que vive. Assim, ler é um exercício de descoberta do mundo. Por meio da leitura o ser humano se desentorpece, abre-se para o mundo e passa a vê-lo de forma mais sensível, mais crítica. A partir da leitura, ele pode avaliar melhor suas ações cotidianas e a si mesmo, já que, em grande medida, é constituído pela linguagem, por aquilo que lê. Isso quer dizer que, em certo grau, deixamos de ser aquilo que não lemos.
No mundo atual, onde predominam a informação rápida e a alta tecnologia, é inconcebível ainda haver pessoas que não consigam se situar no universo da linguagem, que não saibam ler ou que não gostem de ler. Essas pessoas, à medida que estão afastadas da leitura, do conhecimento, tornam-se reféns do meio social e reagem inconscientemente a essa condição de forma equivocada, às cegas, provocando situações que ajudam a atrapalhar o bom desenvolvimento da sociedade como um todo. Inaptas para fazer uma leitura de mundo, crítica e eficaz, elas seguem como bois dependentes das rédeas, a maioria das vezes opressivas, do meio em que vivem.
Paulo Freire nos ensina que "a leitura de mundo precede a leitura da palavra" e aqui precisamos acrescentar que a leitura da palavra atualiza a leitura de mundo, tornando-a critica e renovadora. Ler, portanto, é um gesto revolucionário que garante ao leitor o acesso ao plural mundo da linguagem, à diversidade da realidade e por isso mesmo amplia as possibilidades de escolha do leitor, sua liberdade de decisão, enfim, sua cidadania.
A biblioteca deveria ser um bem fundamental, imprescindível em municípios, cidades, escolas, casas de família, clubes etc. O conhecimento nos humaniza. Em consequência disso, nos autodenominamos homo sapiens, ou seja, o homem do saber. Essa consciência básica, do que somos e de quem somos, nos leva a inferir que onde não há bibliotecas há desigualdades, há processos de desumanização, há pouco desenvolvimento, pouco senso crítico, pouca sensibilidade estética etc. E a superação desses problemas é inseparável do acesso aos livros e demais suportes de linguagem e de conhecimento.