quinta-feira, abril 18, 2013

VELHAS FORMAS DE APRENDER E ENSINAR



                                              Prof. Alan Oliveira Machado

Tenho acompanhado as discussões sobre educação e novas tecnologias com certo ceticismo. A impressão que fica quase sempre é a de que as perguntas feitas a esse respeito estão mal formuladas ou fora do lugar. Quando alguém pergunta, por exemplo, como as tecnologias afetam a educação não faz uma má pergunta embora, no caso, o termo afetar esteja vago. O melhor a fazer seria especificá-lo, de modo a direcionar o questionamento à demanda que precise de respostas emergenciais. Mas quando perguntam se os tablets substituirão o professor fico pensando em até que ponto a retórica não continua sendo a tônica da discussão. Não é difícil imaginar que tablets não são professores. Que são apenas plataformas para aplicativos que buscam e armazenam conteúdos permitindo, a quem souber usar, um grau de interatividade mais diversificado do que um livro, não necessariamente do que uma boa aula. Que a tecnologia acelerou o acesso e o modo de acesso a conteúdos não podemos duvidar, mas as incertezas são abundantes quanto à assimilação ou à qualidade da interação com esses conteúdos disponibilizados de modo tão fácil e farto.
Até então, o que a tecnologia muda é o modo de acesso não propriamente o resultado do acesso aos conteúdos. Ela reduz espaço e tempo, tornando disponível, de forma rápida, a teia de convergências e de divergências necessária para se verticalizar a compreensão do conteúdo. O que em outros tempos demandava meses para ser feito, em termos de pesquisa de conteúdos, faz-se em um dia com custo mínimo. Essa, por enquanto, é a maior virtude dos recursos tecnológicos aplicados à educação. Mesmo assim, isso não quer dizer que todos conseguem lidar de forma pertinente e produtiva com a quantidade imensa de dados e informações que podem receber em uma busca instantânea no banco de dados de um tablet ou netbook conectados na rede. Desse modo, o percurso da aprendizagem ainda precisa do fio de objetividade estendido por um bom mestre.
Há quem evoque uma entidade supostamente criada pela era tecnológica, muito na moda hoje em dia, chamada inteligência coletiva e colaborativa como a força motriz de um modo novo de aprender. No entanto eu pergunto: a inteligência que sempre serviu à educação não é coletiva e colaborativa? De onde um professor tira o conteúdo de suas aulas? Posso inferir que tal apego ao conceito de inteligência em questão tenha a função de questionar aquele depreciado papel do professor como o único detentor do saber. Tudo bem, mas, em tese, qual saber o professor encarna? Não seria o coletivo? Ora, se é coletivo não é único. É óbvio que não podemos negligenciar a forma veloz, densa e concentrada que as redes online conseguem imprimir ao conhecimento organizado de forma  coletiva e colaborativa, na verdade existente como prática desde que o homem inventou o signo. Mas é necessário entender também que o modo equivocado como certos professores tratam o conteúdo não impedirá que ele (o conteúdo) continue a existir e não eliminará sua natureza coletiva e colaborativa.
Bons professores e maus professores sempre existiram e o giz, o livro didático, o data-show, ou o tablet não vão necessariamente mudar isso. O livro didático, por exemplo, surgiu como uma ferramenta, um roteiro de apoio para o professor. Os bons professores nunca deixaram de tratá-lo como tal, como apenas mais um objeto acessório a seu serviço. O que fizeram os maus professores? Transformaram o livro didático em uma entidade regente. O referido livro que era para ser coisa do professor, pelo modo como foi tratado, transformou o professor em sua coisa. Para muitos que o usam de forma submissa, tal material, que servia de roteiro, desde sempre serve como fonte única de conteúdo. A autoridade da sala de aula desses docentes passou a ser o livro didático com sua natural superficialidade. O mesmo pode acontecer com qualquer suporte tecnológico e o efeito disso vem explícito nos resultados catastróficos da educação.
 Resta dizer que não é benéfico discutir a influência das novas tecnologias na educação tendo como base mistificações a priori. É preciso antes testar tais tecnologias, ter clareza dos seus limites e das funções que podem desempenhar no processo educacional. Do contrário, o prejuízo com a educação pode ser maior do que o imaginado e os resultados pífios como sempre.


sábado, dezembro 29, 2012



MONTEIRO LOBATO E A PATRULHA BOCÓ 

Prof. Alan Oliveira Machado

            Há pouco tempo houve uma polêmica envolvendo o MEC e o Conselho Nacional de Educação com respeito ao conteúdo racista de algumas passagens do livro Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato. Um ativista do movimento negro encaminhou denúncia a instâncias do governo pedindo a retirada do livro da lista de obras do MEC e cobrando seu banimento das salas de aula.
            Imediatamente, comandos ideológicos do movimento negro iniciaram uma patrulha para excomungar a obra de Monteiro Lobato. E o que se viu foi gente que nunca leu uma página da literatura lobatiana alimentando certo apedrejamento simbólico e insano do escritor.
            Monteiro Lobato é, sem dúvidas, o maior escritor de literatura infantil das Américas. Talvez o único que desde os anos 20 do século XX se comprometeu em produzir uma obra exclusivamente para as crianças, mas sem a visão distorcida da infância reinante na literatura voltada ao universo infantil daquela época. A obra de Lobato, nesse quesito, é plural, criativa e educativa. Tanto é que faz sucesso em muitos países. Em alguns, como a Argentina, é mais lida e reverenciada do que no Brasil. Mas, inevitavelmente, em certos aspectos, a criação infantil desse escritor é produto de uma época. Isso não diminui sua inventividade e nem o seu valor, porém nos força a ser criticamente mais cuidadosos com certos aspectos ao empreender sua leitura. E não é assim mesmo que se deve proceder com qualquer leitura?
            No livro Caçadas de Pedrinho, algumas expressões com negativa tintura racial utilizadas por Lobato, ao se referir à personagem Tia Nastácia, soariam com naturalidade nos anos de 1930, quando o livro em questão foi escrito. Entretanto, para os padrões culturais contemporâneos tais expressões são grosseiras e visivelmente desrespeitosas com o negro. Mas isso não justifica o banimento do livro. Não se pode ignorar as muitas virtudes da obra infantil desse escritor paulista em função de um aspecto negativo. A educação que prepara o ser humano crítico não exclui as falhas humanas do espaço de formação da criança, pelo contrário, as traz para a arena da sala de aula e as transforma em conteúdo educativo. Se não fosse assim, a obra do filósofo grego Aristóteles que reproduz uma visão terrível da mulher para os padrões de hoje, aspecto do seu pensamento perfeitamente comum no contexto grego de sua época, lhe tiraria a posição de maior pensador do mundo ocidental de todos os tempos e isso ninguém com neurônios funcionando cogitaria imaginar.
            As patrulhas ideológicas são vozes críticas e contrárias em plena ação. Se fosse só essa sua natureza seria uma maravilha, contudo patrulhas não raro boiam na superficialidade, são indissociáveis de comportamentos autoritários e invariavelmente adeptas da monocultura do saber, no caso o seu próprio. Assim, tendem a querer eliminar o conteúdo que contraria o seu posicionamento em vez de transformá-lo em objeto de formação crítica. O MEC e o CNE não cederam a esse lado bocó das patrulhas. Optaram acertadamente por manter o livro Caçadas de Pedrinho na lista das escolas, orientando os professores a debaterem seu ponto negativo e assegurando aos alunos o convívio com suas muitas virtudes.
            Em virtude dessa polêmica, aproveitei um tempinho à tarde e reli Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato. Foi bacana reencontrar o texto de Lobato com o mesmo sabor de infância de quando o li aos treze anos, numa leva de livros que minhas irmãs trouxeram para casa nas férias de final de ano. Fui reler  Caçadas de Pedrinho para tirar a limpo a conversa de um desses militantes negros que tentou vender a história de que o livro era racista e coisa e tal. Se a gente fosse  dar crédito ao alarde que fizeram  era o caso de se imaginar que o livro é um manual de racismo. A lembrança que tinha da leitura dessa obra de Lobato não correspondia ao exagero do militante racialista, portando achei melhor voltar à história do inventor da boneca mais sabida da história da Literatura Infantil.
       O que constatei foi que só há duas míseras expressões dirigidas à personagem Tia Nastácia, em todo o livro, que podemos constatar como sendo de mau gosto pelo tom racial que pode aventar. Nesta fala de Emília: Não vai escapar ninguém - nem Tia Nastácia, que tem carne preta. E mais à frente, quando as onças atacaram o sítio de Dona Benta e Tia Nastácia subiu apavorada em um mastro, aparece a segunda expressão que os militantes negros consideraram a mais infeliz, descrevendo a ação da referida personagem: trepou que nem uma macaca de carvão pelo mastro...  Há quem conteste o conteúdo racial dessa segunda expressão afirmando que Lobato se referia ao modo hábil como Nastácia, movida pelo medo, escalou o mastro. Macaca de carvão não se refere à cor da personagem, mas a uma espécie ágil de primata conhecida como mono carvoeiro ou macaco de carvão. Tal espécie inclusive tem pelo dourado, conforme a foto. 
            Nas quarenta e três páginas da edição de Caçadas de Pedrinho que tenho aqui em casa, as duas expressões a que me referi são as únicas com tintura racial preconceituosa, se considerarmos a questionável segunda expressão. Mas o livro é tão interessante e a leitura flui com tanta naturalidade que as expressões perdem-se na névoa da insignificância em meio a uma reflexão atual sobre a relação do homem com a natureza que em certos momentos nem parece  feita no longínquo ano 1933: Os homens andam a destruir todas as matas, a queimá-las, reduzi-las a pastagens para bois e vacas
            Quanto à onça que a turma do sítio matou, motivo pelo qual os politicamente corretos condenam o livro por dar mau exemplo, a resposta sobre tal ato Monteiro Lobato põe na boca dos animais da mata: Ora, isto é crime que pede a mais completa vingança. Guerra, pois! Guerra de morte a essa ninhada de malfeitores. Essa capacidade de interpretar a realidade de modo crítico, mas sutil nas histórias para criança que o criador do Sítio do Pica-pau Amarelo dilui em sua obra parece não estar ao alcance das patrulhas ideológicas, quase sempre patinando no grosso da superfície. O conteúdo de Caçadas de Pedrinho não é racista e qualquer ser inteligente pode constatar isso a menos que esteja entorpecido por uma cegueira racialista muito distante do bom senso.

sábado, dezembro 15, 2012


BOBAGENS LOGICISTAS
                        
            Outro dia li um artigo do simpático professor Pasquale Cipro, na Folha de São Paulo, no qual ele tratava de algumas expressões a que chamava de bobagens. Dizia Pasquale que “correr atrás do prejuízo”, forma cristalizada na fala cotidiana do brasileiro, é uma bobagem porque ninguém corre atrás de prejuízo, mas sim de lucro. O professor apega-se a um princípio lógico básico para se posicionar contra tal uso popular, qual seja: julgar os elementos do plano da expressão pelo sentido referencial que eles adquirem dentro do estrito campo de combinação do enunciado. Mas vejamos: se é tão óbvio que ninguém corre atrás do prejuízo, não daria para o professor Pasquale, usando a mesma lógica, concluir que a expressão “correr atrás do prejuízo” veicula outro sentido, pelo que se pode observar, próximo ao contrário do significado literal de “correr atrás do prejuízo”? Pelo que pude constatar, numa rápida pesquisa, “correr atrás do prejuízo” parece significar, para os usuários de tal expressão, algo como “se apressar em resolver problemas pendentes de modo a evitar um prejuízo ou para amenizar os efeitos de um prejuízo”.
            O que o ilustre professor Cipro faz é usar um raciocínio bobo para julgar certos usos linguísticos como bobagem. Na verdade, não há nada de bobagem em usar tais expressões. A língua está cheia delas. Se formos dar crédito para a lógica rasa do professor, teremos que deixar de usar uma série de catacreses e formas linguísticas cristalizadas no português brasileiro porque elas não têm o sentido que se poderia depreender de sua observação literal. Teríamos que abandonar, por exemplo, o uso da expressão “via de regra” uma vez que literalmente quer dizer “canal por onde passa a menstruação”. Bobagem! Bobagem! Bobagem!
            Na mesma toada logicista já havia presenciado, num seminário de comunicação, o jornalista Alexandre Garcia, da Rede Globo, falar com certo orgulho, como se tivesse feito uma descoberta maravilhosa, que não se deve falar “correr risco de vida” e sim “correr risco de morte”. Que eu saiba, não há como colocar a morte em risco. Por outro lado, não posso falar a mesma coisa da vida, pois são incontáveis os vacilos que podem colocá-la em risco. Não fica difícil então concluir que é a vida que se pode por em risco, não a morte. Mas naquele seminário, o jornalista expressava-se com uma ênfase tal que parecia querer passar sermão na plateia incauta, certamente usuária de mais esse “abuso de linguagem”.
            Saí do auditório em que o loquaz jornalista pregava e fui consultar o povo que transitava pelo pátio da universidade para saber o significado de “correr risco de vida”. Não foi surpresa constatar, depois de perguntar a várias pessoas, que “correr risco de perder a vida” tenha sido a resposta predominante. Pelo menos uma coisa pode-se postular a partir da resposta mais escolhida pelos transeuntes: “correr risco de vida” é nada mais que “correr risco de perder a vida” depois de sofrer o processo de elisão do sintagma verbal “perder a”. O lamentável mesmo é constatar que essa tolice propagada pelo jornalista global ganhou crédito de muita gente de jornal e televisão. O que tem de gente correndo risco de perder a morte por aí, ou expondo a morte em risco não se conta.
            O que eu sei mesmo é que, via de regra, temos que dar um chega pra lá nesse tipo de argumento que gruda numa lógica claudicante e se esquece de enxergar a língua vivinha passeando pela boca do povo. Prof. Alan Oliveira Machado

sábado, dezembro 01, 2012




DO OUTRO LADO DA RUA

O nome do bar era Aula Vaga, mas, com justiça, bem poderia ser chamado de Qualquer Aula... Ficava numa esquina a uns trinta metros do portão da universidade e num fim de tarde de muitos, durante o horário das aulas de Teoria da História e Filosofia Contemporânea, lá estavam duas almas solitárias no puxado do boteco, separados por copos cheios de cerveja e unidos em divagações. Um da Filosofia, com cabeça raspada e um forçado e juvenil bigode nietzschiano enfeitando o semblante romântico melancólico, o outro mal barbeado e com longos cabelos heavy metal meio pastosos era da História e gesticulava enquanto enforcava um cigarro de bali entre o dedo indicador e o polegar. -O tempo é uma ficção, velho! Só há linhas de fuga e tangentes e máquinas de linguagem reinventando o nada sobre o nada, saca!! Desabafou o estudante de bigode nietzschiano.
-Nada a ver, disparou o Hobsbawn roqueiro de araque: -Esse é um papo homem bomba! E eu posso muito bem datar esse engodo metafísico ao longo dos anos! E ali ficaram os dois atirando farpas lambuzadas de cerveja e defumadas pelas piores cigarrilhas do campus. Então desabou um aguaceiro forte. A chuva formava como que uma cortina de ferro entre o puxado do bar e a portaria da universidade, o tempo feio separava aquela metafísica etílica da outra concomitantemente semeada do outro lado da portaria do campus, como se fossem duas ideologias antagônicas. Foi então que o homem bomba da filosofia deixou despencar o ar melancólico do rosto e danou a babar a chuva: -Veja aí, velho, essa chuva é uma dádiva, saca! É algo que suspende o deserto niilista da existência e impõe o tumulto verde da vontade de potência... Essa coisa que faz a gente assoviar sem saber por que e gargalhar para o mato molhado, saca!! A chuva é o melhor... É a afirmação... É a volta por cima dos desvalidos, saca!! Sorria, velho, sorria!!! E deu uma gargalhada e quis dançar pelo puxado do bar lembrando Zaratustra. O historiador roqueiro apenas olhava e sorvia longas tragadas do décimo cigarro. Aos poucos, a chuvarada recuou fazendo uma ou outra estrela furar o turvo do céu e então o bar se encheu de mariposas, aleluias e formigas de asas e a luz decadente que pendia sobre a mesa dos dois pensadores virou uma festa caótica de insetos que fez o tal filósofo amaldiçoar a chuva com os piores palavrões. 19-11-2012

sábado, outubro 27, 2012

sexta-feira, agosto 03, 2012


SOBRE LEITURA E BIBLIOTECAS

                                    Prof. Alan Oliveira Machado

Entre outras coisas, o ser humano desenvolveu a escrita porque um dia teve necessidade de preservar sua memória, de forma que pudesse consultá-la a qualquer momento. Isso permitiu a ele transmitir suas experiências e conhecimentos às gerações posteriores. A partir do momento em que começou a acumular conhecimento e a utilizar esse saber acumulado, a humanidade tornou-se dominante no planeta e toda a sofisticação tecnológica de que dispomos hoje é fruto do uso crítico desse conhecimento guardado.
 Atualmente, há várias formas de armazenar o conhecimento: livros, CDs, fitas, softwares, pen drives, chips etc. Todas essas modalidades de suportes, de certo modo, podem ser encontradas em bibliotecas. Dentre elas, sabemos que o livro é a mais tradicional forma de preservar o conhecimento. Embora o livro seja a forma que concentra maior simbologia, todos os outros recursos trazem um ponto em comum com o livro: eles são materiais de leitura, repositórios de linguagem. A linguagem e a leitura então são os elementos mais importantes de todo esse processo. Nenhum desses instrumentos faz sentido sem linguagem e leitura. Afinal eles não são apenas depósitos de informação e sabedoria, são instrumentos que devem ser utilizados num processo de interlocução que vise dar condições ao usuário de interagir com o mundo de forma a transformá-lo, a protegê-lo, a torná-lo melhor.
A biblioteca então é esse espaço sagrado que permite ao ser humano o acesso a sua história, a sua linguagem, a seu fazer e a seu saber. O acesso a esse universo é fundamental para a compreensão do próprio homem e do meio em que vive. Assim, ler é um exercício de descoberta do mundo. Por meio da leitura o ser humano se desentorpece, abre-se para o mundo e passa a vê-lo de forma mais sensível, mais crítica. A partir da leitura, ele pode avaliar melhor suas ações cotidianas e a si mesmo, já que, em grande medida, é constituído pela linguagem, por aquilo que lê. Isso quer dizer que, em certo grau, deixamos de ser aquilo que não lemos.
No mundo atual, onde predominam a informação rápida e a alta tecnologia, é inconcebível ainda haver pessoas que não consigam se situar no universo da linguagem, que não saibam ler ou que não gostem de ler. Essas pessoas, à medida que estão afastadas da leitura, do conhecimento, tornam-se reféns do meio social e reagem inconscientemente a essa condição de forma equivocada, às cegas, provocando situações que ajudam a atrapalhar o bom desenvolvimento da sociedade como um todo. Inaptas para fazer uma leitura de mundo, crítica e eficaz, elas seguem como bois dependentes das rédeas, a maioria das vezes opressivas, do meio em que vivem.
Paulo Freire nos ensina que "a leitura de mundo precede a leitura da palavra" e aqui precisamos acrescentar que a leitura da palavra atualiza a leitura de mundo, tornando-a critica e renovadora. Ler, portanto, é um gesto revolucionário que garante ao leitor o acesso ao plural mundo da linguagem, à diversidade da realidade e por isso mesmo amplia as possibilidades de escolha do leitor, sua liberdade de decisão, enfim, sua cidadania.
A biblioteca deveria ser um bem fundamental, imprescindível em municípios, cidades, escolas, casas de família, clubes etc. O conhecimento nos humaniza. Em consequência disso, nos autodenominamos homo sapiens, ou seja, o homem do saber. Essa consciência básica, do que somos e de quem somos, nos leva a inferir que onde não há bibliotecas há desigualdades, há processos de desumanização, há pouco desenvolvimento, pouco senso crítico, pouca sensibilidade estética etc. E a superação desses problemas é inseparável do acesso aos livros e demais suportes de linguagem e de conhecimento.

domingo, julho 22, 2012

QUANDO A INTENÇÃO É SÓ DOUTRINAR

            Na atividade de analista de discurso, aprende-se a lidar tanto com o silenciado quanto com o dito. Ocorre que toda materialização de linguagem se dá por meio de escolhas, conscientes ou não, e essas escolhas silenciam outras possibilidades do dizer que insistem em rondá-lo (nem sempre em boa hora) de tal forma que o sentido do dito tem sua constituição fundada nessa relação entre o que se disse e o que se calou. Todo esse jogo faz muitos sentidos circularem, mas os usos que se fazem deles nem sempre correspondem ao contexto imediato no qual circulam.
            Outro dia presenciei um professor de história advertindo um seu interlocutor, de forma inadequada, sobre o uso do termo “denegrir”. O uso do termo “denegrir” utilizado na discussão pelo interlocutor não estava referencialmente sendo tomado no sentido racista com o qual foi muitas vezes empregado no séc. XIX. O alerta do professor de história é que forçava essa interferência, forçava essa relação com a memória.
            A palavra denegrir, originada da raiz latina niger que significa “negro”, foi difundida dentro da mentalidade escravocrata que, para justificar a escravidão, classificava os negros escravizados como animais, sujos e degenerados. Assim, denegrir, que etimologicamente significa sujar, manchar até ficar com cor escura, negra, sem qualquer tintura racial, naquela época (institucionalmente escravista), ganhou uma oportunista conotação étnica e passou a ter o significado de tratar alguém como se fosse negro, ou seja, “sujo, degenerado, animalizado”. Isso quer dizer que a palavra tem esse lastro na memória, mas quer dizer também que a memória traz consigo as condições de produção do sentido da palavra para a época e que na atualidade essa memória não cabe em qualquer contexto. Há inclusive quem conteste a conotação racista do lexema “denegrir”. O escritor Eduardo Martins, por exemplo, ao defender que nem todas as expressões se referem ao negro como etnia, diz que a palavra denegrir surgiu no século XV, portanto, antes da escravidão no Brasil. A informação é correta, embora não sirva aqui como argumento.
            Em Semântica, disciplina ainda ligada à visão imanentista da linguagem, o que aconteceu com tal vocábulo seria chamado de mutação semântica diacrônica, isto é, quando a palavra muda de sentido com o passar do tempo, chegando a um novo momento histórico com uso e sentido distintos do original. Foi o que aconteceu com o termo “amante” que até início do século XX referia-se positivamente a alguém que ama e hoje se refere a alguém que participa de uma relação adúltera.
            Assim como o uso do termo "amante" não permite atualmente entendê-lo como "aquele que ama", sob pena de se criar sérias indisposições sociais, o mesmo pode-se pensar sobre "denegrir" quando rotulado como termo racista. Por essas e outras razões deve-se fazer uso cuidadoso das palavras, mas não necessariamente condená-las com base em seu passado infeliz, ainda que verdadeiro. Do contrário, teríamos que abandonar grande parte do vocabulário em uso na atualidade. Vejamos, a título de exemplo, o étimo de algumas palavras bem populares: trabalho, do Latim, tri paliu, ou seja, três paus, castigo imposto pelas tropas romanas aos exércitos derrotados, que consistia em fazer os membros desses exércitos rastejarem sob um estrado feito com sequências de três lanças romanas. Dócil, doçura, do Latim, docere, aquele que se deixa submeter, qualidade de quem é submisso. Cretino, proveniente de um dialeto franco-provençal dos Alpes Suícos, cretin, referente a cristão, pessoa aparvalhada, de raciocínio lento, tola. O sentido se deve ao fato de os vários cristãos fugidos de regiões com baixa taxa de iodo no sal terem desenvolvido uma espécie de tireoidismo que os deixava com aparência de tolos, tontos... Agora, raciocinem comigo: faz sentido apelar para a origem dessas palavras como forma de repreender seu uso, taxando-o de preconceituoso etc., etc., etc.?
            Se em termos de linguagem não faz sentido esse tipo de perseguição a palavras, seria essa uma prática fundamentalmente ideológica? Seria uma muleta de discussão com a finalidade de exercer controle sobre os outros? Seria uma forma de criar argumentos para rotular adversários? Se for é ridículo, é coisa realmente de quem não tem argumento, de quem não tem interesse algum em enriquecer a discussão, mas tão somente dominar o adversário.
            A esse respeito, lembro-me de que, outro dia, estando presente ao lançamento da biografia de um advogado ilustre, por mim revisada, um professor chegou a dizer que eu, como um dos revisores, deveria ter corrigido a expressão “anos negros da ditadura”, constante no tal livro, porque o vocábulo, “negros”, fazia referência pejorativa a cor. Tem dissimulação de ignorância mais estranha do que essa? Todo mundo sabe que a expressão, “negro”, no sentido de cor, tem histórico negativo milenar. Está lá nos bestiários medievais, nos textos pré-socráticos, nos textos de origem persa, egípcios, chineses e indianos. Assim, o termo está apropriado ao contexto em que foi posto. Não fere a ninguém além dos ditadores. Estou vendo a hora de esse pessoal começar a discriminar pessoas que botam luto pela morte de algum ente querido por estarem associando a cor preta à morte, à tristeza e à dor. Ainda bem que a língua não se submete facilmente a esses delírios de milícia.
            Simbolicamente, vê-se que a expressão, “negro”, foi utilizada em “anos negros da ditadura” com o mesmo sentido que a cor aparece no "luto" acima referido, ou seja, com sentido de tristeza, dor e perda. Mais que isso, como ausência de luz, contrário ao dia, levando-se em conta o dia como sinônimo de vida, uma vez que o sol é responsável pela progressão e sustentação do ciclo vital. Esse uso insinua que a vida foi podada no período militar, que aquele período foi de tristes perdas. A simbologia, embora tendenciosa, é coerente. Seu uso se deveu à necessidade de marcar um posicionamento ideológico com relação às práticas do regime militar. E esse uso é visceralmente humano. Agora, despropositado é querer fazer hegemonia discursiva, “patrulha ideológica” com esse tipo de argumento. Banalizar o sentido do que se diz com cerceamentos ideológicos é querer instituir a incapacidade de pensar. Se a intenção for mais discutir do que doutrinar, é melhor procurar entender a expressão dentro do contexto em que foi usada.
            O lamentável de tudo isso é ver que há pessoas que caem irrefletidamente nessas armadilhas retórico-doutrinárias. Sob a faceta do politicamente correto certas pessoas se põem a restringir impropriamente os usos na língua com intenções menos educativas do que doutrinárias e assim procedem rotulando de forma negativa qualquer pessoa que faça uso de expressões que, do raso de seus entendimentos, são condenadas como impróprias.  Foi triste ver o pobre interlocutor do professor de história desamparado, sentindo-se (ironicamente) a ovelha negra do rebanho, achando que cometeu um pecado terrível, pedindo desculpas e lamentando o seu infortúnio.

Prof. Alan Oliveira Machado